quarta-feira, setembro 24

CASADINHA Nº2 = Morte em Veneza - THOMAS MANN (Biblioteca FOLHA, 94 pág.) / Morte em Veneza (Morte a Venezia, ITÁLIA/FRANÇA, 1971)


Thomas Mann era alemão. Ora, isso explica muita coisa. A literatura do autor de A Montanha Mágica poderia ser classificada, sem dúvida, de megalômana. Não estou sendo pejorativo aqui: assim como seu amigo Hermann Hesse, Mann buscava um ideal supremo de literatura, um ideal “funcional” que o tornava, de algum modo, um transgressor. Talvez o Dostoiévski do século XX, o escritor alemão, como o autor de Crime e Castigo, punha seus temas acima de sua própria literatura, mas, também à maneira do mestre russo, só o conseguia quando elevava a última à perfeição. A prosa de Thomas Mann, de tão forte que é, pode ser convincentemente analisada mesmo com a leitura de apenas uma novela curta como Morte em Veneza. A própria história da obra já é de uma grandeza quase intolerável: um escritor (artista) que busca a beleza suprema à platônica, independentemente de onde ela se encontre (no caso quem a encarna é um jovem).

A superintelectualização de Thomas Mann se baseia, neste romance curto, na metalinguagem, não apenas literária, mas artística: para o autor (e/ou o protagonista), a arte nunca atingirá os níveis de perfeição dos quais a vida consegue se aproximar. Tamanha preocupação seria mesmo comparável a um T. S. Eliot e seus questionamentos acerca da Palavra, do Verbo Maior, etc. O dilema de Gustav Von Aschenbach cresce à medida em que passamos as páginas, o que é bastante natural. Nos encontramos, entretanto, diante de uma novela, que, como tal, prima pela concisão; esta, assim, consegue aumentar os impulsos da tensão dramática. A obsessão de Gustav causa desconfortável estranheza, não por ela em si (já que, via de regra, toda obsessão “legítima” é estranha), mas por ser muito bem argumentada, e, justamente por esse apelo à plausibilidade, deixa o leitor pouco à vontade. Uma das melhores técnicas utilizadas por Thomas Mann para tal é o uso de silogismos bem insólitos, cujo objetivo é retratar a mente já perturbada do herói. Um exemplo (tradução de Eloísa Ferreira Araújo Silva): “Estava, porém, simultaneamente satisfeito e abalado, ou seja: encantado.”

Mann no auge da carreira.


Provavelmente o nobel alemão, quando escreveu obras como Morte em Veneza, A Montanha Mágica e Doutor Fausto, quis reinventar o conceito de densidade literária (e artística). Não sei se ele conseguiu; mas a verdade é que essa queda pelo descomunal rendeu-lhe opiniões que se direcionaram a extremidades opostas. Enquanto alguns o consideram um dos grandes ficcionistas do século XX (ficando atrás apenas de Joyce, Kafka e Proust, e olhe lá), outros, a exemplo de Henry Miller, simplesmente “enjoam” de sua prosa e passam a considerá-la, com o perdão da palavra, besta. O próprio Jorge Luis Borges certa vez afirmou, não sei se se referindo à pessoa ou à obra, que Thomas Mann era nada mais e nada menos que um idiota. Para além dessas opiniões, devo dizer que Morte em Veneza não é uma novela para se ler com indiferença ou de forma didática; ela exige atenção e, sobretudo, respeito. Da primeira exigência eu não garanto nada; mas, quanto à segunda, Thomas Mann pode descansar em paz: ele com certeza a conseguirá quando o leitor terminar de ler o último parágrafo – isso, naturalmente, na pior das hipóteses.

Luchino Visconti era filho da nobreza italiana. Ora, isso explica muita coisa. O cinema do diretor de O Leopardo poderia ser classificado, sem dúvida, de megalômano. Não estou sendo pejorativo aqui: assim como seu conterrâneo (e bem mais famoso) Federico Fellini, Visconti buscava a representação suprema de seus ideais através da estética de seus filmes, tornando-se assim uma espécie de transgressor. Talvez o mais esteta dos cineastas europeus pós-guerra, Visconti, como Fellini, correu atrás da fragilidade sensorial dos homens, mas, também à maneira do seu colega, só o encontrou realmente quando filmou com o vigor e a rudeza dos semi-deuses. O cinema de Luchino Visconti, de tão forte que é, pode ser convincentemente analisado mesmo com a audiovisualização de apenas um filme como Morte em Veneza (longa um tanto quanto diferente do restante de sua filmografia). A própria adaptação da novela de Thomas Mann já ganha contornos diferenciados: aqui, ao invés de escritor, Gustav Von Aschenbach é músico; e a trilha sonora – a 3ª e a 5ª sinfonias de Mahler – deixa de sê-la simplesmente para se tornar também um personagem.

A super-riqueza de detalhes de Luchino Visconti se baseia, neste filme, não só na representação espacial inerte (ou seja, a cenografia) como também na representação espacial móvel (ou seja, a câmera). A movimentação da câmera (para mim, o ponto alto do filme) ganha significação no momento em que passa a acompanhar o protagonista, não como se fosse os olhos de Gustav, mas sua própria alma. Tamanha preocupação com os efeitos semânticos de uma câmera é mesmo comparável a um Eisenstein e suas teorias sobre técnicas de montagem. O dilema de Gustav Von Aschenbach cresce à medida em que a projeção avança, o que é bastante natural. Nos encontramos, todavia, diante de uma película que prima pelo apuro visual, pela contemplação; esta, ao se demorar um pouco mais, consegue atiçar a curiosidade e a tensão do espectador e provocar um choque maior quando surge o desfecho. As obsessões de Gustav em se relacionar com Tadzio (literalmente a “perfeição em pessoa”) e em se entregar de modo menos fastidioso à sua arte (no caso, à música) causam desconfortável estranheza, não por elas em si (já que, via de regra, toda obsessão “legítima” é estranha), mas por serem filmadas de modo muito intimista, e, justamente por essa falta de reservas, deixa o espectador pouco à vontade. Um dos melhores auxílios (talvez o melhor) que Luchino Visconti recebeu para atingir esse fim foi a atuação de Dirk Bogarde: cada gota de suor, cada arquear de sobrancelhas parece que foi ensaiado dias a fio, e com isso o personagem ganhou uma autenticidade sobrecomum. Um exemplo: quando Gustav avista Tadzio pela primeira vez: ele tenta ficar indiferente e não demonstrar emoções. Consegue passar despercebido a todos, menos a ele mesmo, ao próprio Tadzio e, principalmente, a nós espectadores, ou seja: aquilo ali não é documentário, aquilo não foi captado, e Bogarde não foi filmado em flagrante. Ele atuou.

A "beleza suprema". Será?!

Provavelmente Luchino Visconti, quando dirigiu filmes como Morte em Veneza, Rocco e seus irmãos e O Leopardo, quis reinventar o conceito de pura estética no cinema. Não sei se ele conseguiu (até porque ele não foi o único); mas a verdade é que essa queda pelo detalhe extremo do audiovisual fez com que o diretor não fosse muito lembrado pelo público com o passar do tempo. Conquanto ainda seja amado por críticos e, mais ainda, por cineastas, Visconti vem saindo de cena quando a nova geração relembra o grande cinema italiano: costumam se recordar de Fellini e Antonioni; depois, o que vem à mente são filmes, e não seus diretores (Ladrões de Bicicleta, Roma, cidade aberta, A Batalha de Argel, Suspiria, etc.). Para além dessas considerações, devo dizer que Morte em Veneza não é um filme para se apreciar de forma desleixada; exige atenção e, sobretudo, respeito. Da primeira exigência eu não garanto nada; mas, quanto à segunda, Visconti pode repousar em seu sono eterno tranquilamente: ele com certeza a conseguirá quando o espectador visualizar os primeiros nomes dos créditos finais – isso, naturalmente, na pior das hipóteses.


Morte em Veneza (o livro):


Morte em Veneza (o filme):

2 comentários:

Rodrigo L. disse...

Parece que Nabokov também detestava Mann. Se bem que Nabokov detestava 2/3 da literatura ocidental.

Gostei do texto. Ao contrário dos romances de Thomas Mann, não ficou cansativo. Digo isso porque, muito embora eu tenha ficado impressionado com A Montanha Mágica e com o próprio Morte em Veneza, não pude deixar de sentir certo ranço na prosa do alemão. Não é problema ser extenso e minucioso; Proust é extenso e minucioso e é o maior escritor de todos os tempos. É que essa queda pelo descomunal, como você disse, ou o pendor para o Gigante, como diria Nelson, exige demais. Nem todo mundo consegue se manter no limite - e bem - por 900 páginas. Quando é menor, como nessa novela, Mann também é melhor.

No mais, gostei dessa foto estilizada da capa do livro.

Daniel Oliveira disse...

Você tem razão quanto ao cansativo. Falo no sentido fisiológico mesmo - cada página lida parecia que eu tinha corrido a Av. Getúlio Vargas todinha sem parar.

Essa foto da capa eu escaneei do próprio livro que eu li. Não lembro de quem foi que eu peguei emprestado, se foi de Eder ou de Benedira, mas ainda estava melada de água (leia-se "úmida"). Pus na multifuncional mesmo assim, correndo o risco de quebrá-la. Tudo pela arte!