quarta-feira, setembro 10

Gilberto Gil – Banda Larga Cordel, 2008


Banda Larga Cordel pode ser considerado um disco de retomada. E melhor dizendo, de algumas retomadas. A primeira é a mais elementar: a composição. 11 anos após o audacioso e celebrado Quanta, de 97, e nesse meio tempo alguns projetos belíssimos como o show São João Ao Vivo e o disco em homenagem a Bob Marley, Gilberto Gil finalmente lança um álbum de músicas inéditas.

Esse intervalo demasiado, segundo Gil, deveu-se sobretudo ao cargo que ocupara no governo, que durou 5 anos e meio. "Saía do ministério de noite e ia para casa, e se deixasse a porta aberta para a inspiração, dizendo ‘Venha, entre’, ela ia me pegar pelo rabo às nove horas da noite e me botar numa cadeira, e eu ia até às duas, três, quatro da manhã e a inspiração ia me dizer: ‘Você vai ficar aqui até a hora que eu quiser. E como eu ia trabalhar no outro dia de manhã.?’”, declarou o músico na videoconferência feita em São Paulo para o lançamento do disco e da turnê nacional Banda Larga Cordel. Em outras entrevistas recentes, Gil observou que, como se tratava de certo modo de um recomeço — afinal mal compunha nesses cinco anos e meio de ministério —, buscou formas mais consagradas de composição (a linguagem rudimentar nordestina, de imagens e léxicos simples) para não tornar o processo demasiado penoso para si. Com essa declaração, justifica o tom brando e até inocente que algumas músicas têm, como, por exemplo, “Não tenho medo da morte”, canção regular que trata sobre a finitude da vida.

A outra retomada bem óbvia é a temática central deste disco novo. Desde 69 que Gil já especulava sobre o papel da tecnologia na vida e sua influência estética no ambiente da arte. Canções como “Cérebro Eletrônico” e “Futurível” são desses exemplos perfeitos, bem como o disco Parabolicamará de 1991, o já citado Quanta (cume máximo dessa especulação) e o projeto Eletroacústico de 2004. O álbum novo, portanto, tem uma proposta muito clara: mostrar o quanto Gilberto Gil está afinado com o tempo que vive, seu problemas e seus louros.

Produzido por Liminha e Gil, Banda Larga Cordel acaba sendo um disco conceitual basicamente por abdicar de princípios clássicos de conceituação de uma obra fonográfica (como a capa e a amarração das faixas sob uma lógica ou efeito que o artista procura causar no ouvinte). Gil antecipa um formato de apresentação formal que, no Brasil, é ainda inédito: o aleatório. Simplesmente não há razão para “Despedida de Solteira” ser ou não a primeira faixa e, por conseguinte, as outras faixas estarem na posição que estão.

É neste aparente caos de faixas que não obedecem a nenhuma ordem que Gil entende que músicas tão diferentes entre si (os exemplos são abundantes: Despedida de Solteira, um xote; Olho Mágico, uma balada soul; Formosa, um samba à João Gilberto; La Renaissance Africaine, eletrônica) caibam no conceito de Banda Larga Cordel, que é a busca pelo não-álbum. Logo ele que, ao longo da vasta carreira, usou e abusou de conceitos que costurassem suas gravações: Refazenda, Refavela, Realce possuem isto claramente.

Esta lógica do não-álbum não foi muito bem assimilada por parte da crítica especializada, que acabou enxergando neste caos um excesso infeliz e uma frouxidão estética e conceitual. Usaram os recentes lançamentos de Chico Buarque e Caetano Veloso, Carioca e , respectivamente, para demonstrar como artistas da mesma seara de Gil foram mais felizes na escolha do conceito e da estética de suas gravações. Mais uma vez Gil fundiu a cuca de muito crítico desavisado e mal intencionado.

As 16 canções ouvidas de uma só vez soam mesmo excessivas, isso porque quem as escuta busca inconscientemente uma unidade no disco que não há, e por isso a audição fica um pouco penosa, exigindo, do ouvinte, mais dedicação. Nesse ponto, parece-me, Gil pretende relevar ou sugerir com muita sutileza uma faceta negativa dessa “banda larga”: o imediatismo das novas gerações de ouvintes de música popular, sobretudo daqueles que tiveram sua formação musical com programas de download de músicas como o Napster, Soulseek e agora blogs de catálogos infindáveis — não são poucos. Baixar discos virou um fetiche, colecionar discografias completas está em voga, ninguém mais se demora em um álbum, passa semanas, meses, ouvindo-o ininterruptamente, buscando assimilá-lo por completo. Esse hábito pertence ao passado. O lançamento de ontem é ouvido como uma explosão, em um ou dois dias, e a novidade seguinte é o desejo permanente a ser saciado.

Se os Strokes, a banda mais representativa da geração online, é vista atualmente como um dinossauro, mesmo tendo uma década de vida, o que dizer de um artista como Gilberto Gil, que possui mais de 40 anos de carreira?


Gil: retomando


FAIXA-A-FAIXA


1) Despedida de Solteira

Xote que busca resgatar a malícia característica deste ritmo nordestino. O arranjo é primoroso. Órgãos setentistas brilham no começo da canção como (desculpem a analogia penosa) pepitas de diamantes.

2) Os Pais

Um reggae cujo arranjo Gil disse parecer com Blitz e Léo Jaime e os Miquinhos Adestrados. Não figura entre as melhoras do disco, embora não seja a pior.

3) Não Grude Não

Os pífanos da introdução são soterrados por efeitos eletrônicos, mas tudo se conserta e o maxixe-pop exige uma dança.

4) Formosa

Samba de Powell e Vinícius que Gil escolhera para constar no disco de sambas que pretendia gravar. Como o projeto foi abortado (graças a Deus, porque, tirando como base essa música, o projeto soaria bem burocrático) acabou entrando em BLC. Embora inofensiva, uma boa canção.

5) Samba de Los Angeles

Samba-jazzístico originalmente composto para Nightingale, de 1977, disco feito para atingir o mercado norte-americano. Está aqui com um belo arranjo. Destaque do disco.

6) La Renaissance Africaine

Tema eletrônico de gosto duvidoso A música foi feita sob encomenda para um projeto em Angola que Gil participará.

7) Olho Mágico

Balada soul de arranjo correto. Tem um apelo pop muito forte. Só que, no mais, é uma canção somente regular. Outra música feita sob encomenda. Dessa vez para uma série de televisão que tem o celular como tema.

8) Não Tenho Medo da Morte

Canção de teor filosófico, que deixa muito a desejar se pensarmos que o mesmo sujeito que a fez, escreveu nos anos setenta pérolas como Retiros Espirituais e Aqui e Agora.

9) Amor de Carnaval

Como exercício de composição, um samba bem feito.

10) Gueixa no Tatame

“Não sou de queixa, mas a Gueixa me iludiu”. Essa música também constava no repertório do projeto de samba abortado por Gil.

11) A Faca e o Queijo

Música confessional dedicada a Flora Gil, mulher dele. Arranjo e letra impecáveis. “A gente ama, e o amor produz transformações, a velha chama acende novas ilusões com mãos bem mais sutis, novos desejos vão tornando nossos beijos mais azuis.”.

12) Outros Viram

Samba ufanista demais.

13) Canô

Música feita para as comemorações do centenário de Dona Canô, mãe de Caetano e Bethânia. No dia do aniversário, no entanto, Gil estava rouco, não pode cantar. Belo afoxé.

14) Máquina de Ritmo

Todas as músicas do álbum possuem sutilmente ou em excesso efeitos eletrônicos. Em Máquina de Ritmo parece que a mistura foi a mais feliz. O piano eletrônico é um primor. Para quem assistiu o DVD do reencontro dos Doces Bárbaros (banda feita nos anos setenta por Gil, Caetano, Gal e Bethânia) vai se lembrar da música. Gil a toca para Caetano, que observa: “esse é dos sambas de Gil que veio dar em Djavan”.

15) Banda Larga Cordel

“Quem não vem no cordel na Banda Larga vai viver sem saber que o mundo é o seu.”. Espécie de Na Internet atualizada. Se na música citada Gil cantava sobre seus e-mails chegarem a Calcutá, agora ele versa sobre a geração nordestina que já está inserida na rede, baixando músicas e ouvindo em seus I-Pods. “O rádio fez o mesmo com o seu avô”, finaliza Gil sugerindo o eterno retorno.

16) O Oco do Mundo

Melhor letra do disco. E só não é também o melhor arranjo por exagerar demais nas distorções.



NOTA:

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