quarta-feira, setembro 17

História Universal da Infâmia, Jorge Luis Borges (Globo, 103 pág.)


As narrativas reunidas na História Universal da Infâmia correspondem às colaborações de Borges para o suplemento semanal Revista Multicolor de los Sábados do jornal Crítica, no intervalo de 12 de agosto de 1933 até pelo menos 15 de setembro de 1934. Borges era então ensaísta celebrado, porém estreante como ficcionista. De acordo com suas palavras: “São a irresponsável brincadeira de um tímido que não se animou a escrever contos e que se distraiu em fabricar e tergiversar (sem justificativa estética, vez ou outra) alheias histórias”. Creio estar com razão, entretanto, ao adivinhar por trás da timidez e da dúbia humildade declaradas pelo prefaciador a pretensão e a consciência do valor de seus esforços. As linhas seguintes, espero, devem justificar minha posição.

Constituem o livro oito contos, sete deles versões de histórias alheias, o oitavo um conto original, e uma pequena seção ao final intitulada Etcétera, composta de versões menos extensas e mais tímidas. Em O tintureiro mascarado Hakim de Merv o narrador se esbalda com os devaneios teológicos, temática cara ao autor, explorada mais tarde em seus mais famosos livros, O Aleph, Ficções. Ademais, parece um completo estranho; a extrair, talvez, certa sobriedade que lhe marca o estilo em toda a sua obra. Quanto ao estilo das biografias infames, é “barroco”, ou seja, extremado. Muito se tem dito da influência da narrativa cinematográfica, da adequação ao meio de comunicação de massa, da infiltração do jornalismo na literatura (ou da literatura no jornalismo, se consideramos a publicação original a referência). A mim, espanta, sobretudo, a manipulação estética da infâmia, e o caráter visionário que estas páginas adquirem quando comparadas com certa vertente do cinema na segunda metade do séc. XX. Pegue-se a inesgotável trilogia de Coppola, os filmes de gângster de Scorsese, e finalmente o “rococó” Tarantino. Estes, sobretudo o último, e outros (nem sempre bem sucedidos), usaram da violência como expressão estética – sem maiores justificativas. Não esqueçamos o flerte de Tarantino com meios marginais de comunicação em massa, como o quadrinho e pulp fiction.

No começo da biografia de entrada, O atroz redentor Lazarus Morell, são enumeradas dispares causas que teriam influenciado indiretamente a infâmia. Nestas causas, por exemplo, prova-se a preocupação de Borges com a cultura de massa; transcrevo algumas:

os blues de Handy, o sucesso alcançado em Paris pelo pintor-doutor uruguaio D. Pedro Figari, a boa prosa agreste do também oriental D. Vicente Rossi, a dimensão mitológica de Abraham Lincoln, os quinhentos mil mortos da Guerra de Secessão (...)”

A lista se prolonga, e estes itens nos são suficientes. Não carece de exemplos o trato da violência, tratando-se de uma história da infâmia. O “universal” do título corresponde-se à variedade de cenários para as biografias. Citei alguns diretores de cinema a grau de comparação, todos ocidentais. As narrativas orientais de Borges se distinguem destas referências. Distinguem-se também das outras narrativas do livro, ocidentais, como o conto já aludido de Lararus Morell, ocorrido às margens do Mississipi, “Contrariando toda justiça poética (ou simetria poética), nem mesmo o rio de seus crimes lhe serviu de tumba”. A “simetria” não é uma marca destes relatos. Exclua-se A viúva Ching, pirata, carregada de poesia narrativa, e O incivil mestre-de-cerimônias Kotsuké no Suké, cuja infâmia é a desonra e do qual pretendo me deter mais atenciosamente em outra oportunidade – ambos do Japão. Creio que a falta de familiaridade com esses cenários, em comparação com seu bem usado conhecimento da geografia e história ocidentais, influem para isto. Também oriental, O tintureiro mascarado Hakin de Merv difere pelo foco metafísico que ofusca por algumas páginas a infâmia da narrativa. A justiça obriga-me a citar O impostor Tom Castro, cujo estilo característico deste livro é contrapesado pela ironia do destino do negro Bogle, verdadeiro protagonista do conto.

Nos demais três contos, nenhuma “virtude literária” parece disputar com o laconismo peculiar do narrador. Naturalmente, a este estilo estão impregnadas e insinuadas muitas “virtudes literárias”. Vou ainda mais longe em minha opinião. Certa feita, Borges comentou que Poe foi mais extraordinário “na memória que temos de sua obra, do que em uma das páginas de sua obra”. A coesão da estrutura narrativa por Borges criada nesta História Universal da infâmia, perfeita em relação ao que é proposto, faz de cada página preciosa. As listagens intermináveis, a agilidade, as descrições imagéticas, proporcionam um verdadeiro deleite estético, aplicadas como são na descrição de iniqüidades. Porém, quando comparadas com a revolução mais profunda da parte de sua obra mais conhecida e celebrada, isso é tudo o que resta.


NOTA:

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