quinta-feira, outubro 9

Mônica Salmaso - Noites de Gala, Samba na Rua, 2007


Da última enquete de música do Moedoteca, cujo resultado foi recen-temente discutido, o termo que restringia temporalmente as concorrentes às cantoras lançadas no séc. XXI foi muitíssimo lamentado por mim. Não que eu ignore a função dessa limitação, pois algum critério era necessário e este nos pareceu de bom senso. Mas a exclusão de duas ou três cantoras da nossa panorâmica foi, para mim, uma perda inestimável. Sobretudo Mônica Salmaso.

Seu álbum de estréia, de 1996, feito em parceria com o violonista Paulo Belinatti, o Afro-Sambas, é composto de versões dos afro-sambas de Baden e Vinicius em voz e violão etéreos. Sucede-lhe Trampolim de 1998, Voadeira de 1999 e Iaiá de 2004. Em 2007 lançou Noites de Gala Samba na Rua; compõem-lhe canções de Chico Buarque e a cantora conta com o auxílio luxuoso da banda Pau Brasil. Este álbum é a maturidade de uma cantora que, se me permitem a mesura, nasceu pronta. Já lançou outro, mas confesso que ainda não ouvi.

Com apenas quatro álbuns, dois deles de interpretações de um compositor apenas (ou uma dupla, no caso dos afro-sambas), Monica Salmaso já tem consistência de um estilo próprio. Não me refiro apenas a sua interpretação, perfeita como um instrumento de orquestra, que isso não há como passar despercebido. Salta aos olhos sua consciência da própria localização na música brasileira. Os senhores já devem ter se apercebido da nova onda de brasilidade da recente produção nacional: a tradição está na moda. Vemos esforços em desenterrar bandas como Novos Baianos. De Lan Lan a Roberta Sá, todo mundo canta samba; todos regravam cantores esquecidos e ganham louros por isso (como se isso só bastasse...); a lapa carioca invade a televisão brasileira e eu já venho tendo alucinações; senhores, sei que não vem ao caso, mas outro dia escutei Bruno e Marrone cantando um sambão e, sem conseguir conter minhas mãos, arranquei alguns tufos de cabelo. Eis aonde quero chegar: em um ambiente cujos valores parecem ser partilhado por todos, como o a febre cult de um nostálgico Brasil, destaca-se quem for igual. Diferenciada, Mônica Salmaso nega-se a utilizar-se da tradição e da brasilidade como contrapeso; do seu modo particular e atualizado, é a sua própria essência.

A pesquisadora Mônica Salmaso aproxima-se de Chico Buarque, como uma herdeira direta. A preocupação em representar o Brasil em sua variedade de expressões, em Salmaso, é evidente nos seus álbuns intermediários Voadeira e Iaiá e também em seu mais recente álbum ao explicitar sua genealogia.

A seleção das músicas foi aleatória. A cantora fez a pré-seleção de uma quantidade enorme de composições de Chico Buarque. As canções que funcionavam melhor com o formato da banda Pau Brasil foram naturalmente sobrevivendo. A relevância desse método, devo dizer, é enorme para quem escutou os arranjos jazzísticos no álbum e, ainda mais, para quem, a exemplo do moedotecário que ora vos fala, assistiu à inacreditável execução ao vivo.



FAIXA-A-FAIXA Selecionada*



1) A Volta do Malandro

Harmônicos no violão seguidos da flauta, da percussão e de um sem número de elementos musicais que criam uma atmosfera perfeita para a voz mais grave de Mônica Salmaso.

5) Você Você

Assim como A quarta faixa, “Ciranda da Bailarina”, esta canção entrou no álbum porque Salmaso estava grávida nas gravações. A letra é ambígua, mas conforme a cantora conta no seu show, Chico compôs para um recém nascido. Sob esta perspectiva é um canto cheio de interrogações do filho para a mãe.

6) Logo eu

Um tamborim tocado com dedos leves, o surdo que entra tardiamente e um sax compõem o acompanhamento desta faixa. Em Iaiá, Salmaso já havia cantado uma faixa, Cidade Lagoa, sem percussão e um ostentosa banda de sopros. A voz aveludada sai-se muitíssimo bem sem harmonia. Quase alto suficiente.

10) Morena dos Olhos D’Água

Ainda no mesmo assunto, só percebi que o acompanhamento na metade da música tem somente o baixo, no show, não entendia o que eles fizeram que eu não tinha percebido esse detalhe tão relevante antes.

11) Partido Alto

Exemplo da regularidade da interpretação de Salmaso. Se os senhores repararem na divisão de tempo, vão entender o que estou dizendo.

12) Suburbano Coração

Semelhante a uma flauta, a voz treme de leve no fim do fraseado.

14) Beatriz
Delírio de agudos.

NOTA:


*Julgamos melhor selecionar repertório, tratando-se de um álbum de regravações, para os casos julgados os mais representativos.

3 comentários:

Pietro Vasconcelos disse...

O ultimo post interessante que vi neste blog foi aquele sobre Thomas Mann.
Eu acho uma perda de tempo ficar escrevendo sobre estas cantoras de MPB, todas muito comuns, sempre fazendo mais do mesmo.
Eu sempre apareço neste blog, e vejo que vocês parecem estar no fim de carreira. É uma pena.

Rodrigo L. disse...

Caro Pietro,

Respeito sua opinião sobre "estas cantoras de MPB" e a suposta inutilidade de resenhá-las. Mas peço que me permita discordar e achar relevante algumas considerações breves a respeito dos discos delas. Agradeço seu comentário e, se possível, sua compreensão.

Leo La Selva disse...

Falar que Monica Salmaso é mais do mesmo é ignorar a sensibilidade de interpretação desta cantora que se expressa por uma bela voz, um belo timbre e acompanhada de um grande grupo. Querer minimizá-la a intérprete de outros cantores é não analisar realmente a cantora e sua qualidade.
O Brasil sempre foi celeiro de grandes cantoras e essa geração está comprovando que não perdemos essa veia.