PASTICHE MOEDOTECÁRIO #1 - Post a la Maupassant - Gosto de Cereja (Ta'm e guilass, IRÃ/FRANÇA, 1997)

A fogueira crepitava sob a lua cheia, esquentando os corpos e as almas dos convivas que a rodeavam. Todos discutiam calorosamente sobre cinema, os últimos lançamentos, as musas, os diretores famosos. Conquanto estivessem ávidos por novos debates, o ânimo de todos foi-se amainando, à semelhança da fogueira, que estava às últimas. Observando o silêncio geral, o estudante João Daniel pigarreou e, sem tirar o chapéu, comentou:
– Sim, meus caros! Já que falam de cinema, assisti a um filme recentemente do qual muito me rejubilei. Se me permitirem, contá-los-ei minhas impressões primeiras que, modéstia à parte, foram fortes.
Como não ouvisse nenhum sinal de negação, prosseguiu:
– O nome do filme é Gosto de Cereja. Um título insólito, porém interessante. De imediato, adianto-lhes uma máxima a ser memorizada: Nunca diga nunca. Eis aí uma expressão que, embora odiosa, é verdadeira e infalível. Expressão universal que, assim como todas as expressões universais, é repleta de variantes. Tais quais: nunca diga sobre um filme que ele é o melhor de todos, nem que certo cineasta é o maior da história, porque você pode estar ridiculamente enganado. Trocando em miúdos: jamais afirme nada que seja definitivo sobre cinema se você ainda não viu um filme de Abbas Kiarostami.

“Jean-Luc Godard, cineasta que dispensa apresentações (e que é famoso também por suas frases), escreveu que “os filmes começam com D.W. Griffith e acabam com Abbas Kiarostami”. Ora: D.W. Griffith, como vocês sabem, é o mítico diretor de O Nascimento de uma Nação, o filme que proporcionou as mais revolucionárias e importantes mudanças no modo de fazer filmes (Charles Chaplin o considerava “o pai de todos nós”). Com uma frase dessas, eu poderia terminar aqui meu relato e deixá-los ao vento úmido e às eventualidades deste imprevisível sábado. Porém!, o amor pelas digressões moedotecárias fala mais alto. Permitam que eu continue com mais algumas observações. Ei-las:
“O cineasta iraniano Abbas Kiarostami foge das imagens escancaradas, das descarações piegas típicas de Hollywood, das explicações quilométricas de certos aspectos que, além de maçantes, parecem subestimar o espectador. Kiarostami sabe e tem a madura noção de que não dizer algo é também dizer. Seus filmes não têm a didática verborrágica e sádica de um Lars Von Trier ou um Alejandro González Iñarritu; também não contém a pedagogia adolescente de um Darren Aronofsky. Se são didáticos ou pedagógicos, estes se encontram na medida certa, ou melhor, não-corrompidos, ausentes de visões pessoais que possam estragar a coerência e a tez de uma obra.
Uma grande cena.“Pergunto a vocês: o que é a realidade no cotidiano? Se eu entrar nas favelas do Rio, verei a realidade nua e crua? E se eu entrar numa casa de classe média-alta brasileira, também não verei uma realidade (neste caso, talvez, vestida com um terno novo e assada no microondas)? E no cinema? Cidade de Deus é um filme realista? Eis a resposta, meus camaradas: não. Uma história realista, certamente, mas filme não. As montagens vertiginosas, as câmeras de mão em ângulos inusitados e os efeitos modernosos de câmera provam isso. Isso não é realismo. Roberto Rosselinni não era realista apenas por mostrar a “realidade” da desgraça na Itália pós-guerra; ele assim é considerado por se utilizar de uma “noção realista” de espaço, de tempo e de perspectiva. Se ele conta uma história baseada em fatos reais ou saída da cabeça de Italo Calvino, aí já é outro papo. Em Gosto de Cereja, há uma cena na qual Badii, o herói, tenta perguntar algo ao senhor que se encontra dentro de uma cabine. Badii está do lado de fora (e só vê o guarda porque o vidro é transparente). A câmera está dentro da cabine, junto ao guarda, e, também por o vidro ser transparente, mostra Badii lá fora. Este pergunta; o guarda não ouve direito, pois a voz vem abafada, silenciada pelas vidraças - isso é realismo. Em várias cenas, Badii dirige seu carro em busca de cúmplices para o ato suicida. As passagens são demoradas, porque a própria idéia de sair por aí num deserto gigante já denota monotonia. Com efeito, o espectador se sente entediado - isso é um efeito realista.
A realista "cena do vidro".– Espere um pouco! – interrompeu bruscamente uma jovem de suéter vermelho, sobressaltando a todos. – você afirmou que um “ai” dito sobre uma obra já estraga 110% dela e acabou de dizer algo que é muito mais que um “ai”.
Pego de surpresa, João Daniel só pôde exclamar:
– Oh! É mesmo! Por Deus, meus caros! Falei sobre o final! Com todos os diabos! Agora já era... Assistam o filme, mas apreciem-no todo – vale a pena.
Todos silenciaram novamente; não pareciam muito impressionados com a eloqüência do estudante. Este, por sua vez, satisfeito e sorrindo para si mesmo, acrescentou:
– E já que 2008 menos 1997 é igual a 11, Gosto de Cereja é o melhor filme dos últimos 11 anos.
5 jogaram moeda:
:)
há tempos obtive o arquivo deste filme e o deixei no computador, sem nunca ter me interessado em assisti-lo; enquanto lia seu texto, não resisti e fui verificar se ainda possuia o arquivo, e para a minha felicidade, aqui está!
o texto é bastante interessante e feliz. mostra bem o quanto uma grande obra pode impressionar alguém de sensibilidade.
parabens!
hahaha, Daniel, odeio ter que expresar meu humor por uma onomatopéia, mas essa sua inovação me tirou os escrúpulos.
Que bom que vocês gostaram!
E Pietro: você é um sortudo. Eu perdi minha mídia que continha este filme...
gostaria que vOCÊS comentassem sobre algum filme de Almodovar. Se não for nenhum problema.Claro! Afinal acho interessante a forma como ele aborda alguns temas de forma muito divertida. Que tal LA MALA EDUCACION?
Caro, er... TIQUITA, sua sugestão está anotada.
Daniel.
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