quarta-feira, outubro 1

Paulinho da Viola - Meu Tempo é Hoje, 2003


Paulinho da Viola é responsável por um punhado de grandes canções e outro punhado de bons discos. Jamais conseguiu, porém, compor algo que lhe caísse tão bem quanto "Meu Mundo é Hoje", obra-prima de Wilson Batista (hoje lembrado como um eventual rival de Noel Rosa), que, na sua interpretação, se torna uma comovente e sincera balada - chamá-la de carta de intenções seria leviano: trata-se, na verdade, de uma espécie de profissão de fé.


Entre o povo da música brasileira, Paulinho parece ser adorado: circula com igual desenvoltura pelo meio de velhos sambistas, tropicalistas e jovens intérpretes; seu público também não é uniforme: muitas classes, idades, cores e interesses se encontram em seus sambas. E parece ser essa bonança o tema do documentário Meu Tempo é Hoje, dirigido por Izabel Jaguaribe - mais do que a obra, são focados uma personalidade e um cotidiano invejáveis por conta dessa placidez de homem vai se tornando uma espécie de Dorival Caymmi. Para quem o acompanha há certo tempo, não se trata exatamente de uma novidade, embora continue surpreendendo - é que tratamos de estranhar que, diante de tal tranqüilidade, tenha surgido uma obra que cresce da tragicidade e do fatalismo. Ninguém tem culpa de, ao pensar Paulinho da Viola, evocar a histórica capa de Nervos de Aço, a poesia de "Dança da Solidão" ou o arranjo opressor de "Sinal Fechado". Querendo-se culpar alguém, culpe-se o próprio compositor.


Interessa-me aqui, contudo, o disco produzido a partir do documentário. De nome idêntico, reúne momentos captados para o filme - momentos em que, numa intimidade pública, pode-se relembrar de algo que tendemos a esquecer: a excelência de Paulinho ao violão. Pouco a pouco, vamos louvando-lhe como cantor, compositor (ou mesmo poeta) e minimizamos sua habilidade e sensibilidade como instrumentista. Não é um esquecimento gratuito. A produção dos seus melhores álbuns, no geral, permite que os elementos percussivos diminuam seu violão. Impossível não relembrar, agora, da versão original de "Dança da Solidão" e do batuque que vai tomando a canção inteira até restar só um fiapo das cordas de nylon (que ressurgem, com força, em breves momentos) - e não entendam que lamento tal solução: muito da grandeza desse samba nasce daí.


Mas é seu toque em "Carinhoso" (com Marisa Monte responsável pelo vocal) que torna indispensável esse registro solitário ao violão (que nem o formato acústico da MTV conseguira fazer). É ouvir e perceber a concisão e o lirismo na escolha do andamento exato, do silêncio e da força nos momentos precisos. No mesmo nível, seguem as breves versões de "Meu Mundo É Hoje" e "14 Anos" e, para pegar o conflito Wilson Batista versus Noel Rosa pelos dois lados, "Filosofia", clássico menos cotado do poeta da Vila.




Só de violão, faz ainda "Sinal Fechado". Que me perdoem a falta de memória, mas recordo-me de alguém (não lembro quem) a afirmar que o surpreendente em Paulinho era que ele compunha e tocava como se jamais houvesse existido a bossa nova. Não se pense, porém, que seu samba seja um louvável ou questionável poço de tradicionalismo - a inclassificável "Sinal Fechado", em seus termos, é uma revolução solitária na canção brasileira. Mas falamos de Paulinho da Viola e, como já afirmei, Meu Tempo é Hoje trata de um homem amado por muitos, de solidão rara. Não faltam, portanto, suas amizades musicais.


Para cantar a belíssima "Ruas que Sonhei" junto com ele, convida Amélia Rabello. Vai a Xerém e, com Zeca Pagodinho, faz "Conflito" - e que pena não incluírem "No Pagode do Vavá", tocada também na residência de Pagodinho e presente no filme. Com Elton Medeiros emenda canções suas, do próprio Elton, de Cartola e de todos juntos. Ao lado do pai e do filho, três gerações do samba tocam um choro veloz: "Rosinha, Essa Menina" - choro, aliás, que nem está sozinho, acompanhado do lento e sublime "Um Sarau para Raphael".


Todos registros primorosos, inspirados e inspiradores. Nada, contudo, que se aproxime do segundo Pot-Pourri do álbum - no qual a Velha Guarda da Portela aparece para cantar "De Paulo da Portela a Paulinho da Viola" (de Monarco e Francisco Santana) e, lá pelo meio, lembra-se do que talvez seja o mais perfeito samba de Paulinho. "Foi um Rio que Passou em Minha Vida", celebrando as suas alegrias de portelense, tem a melodia preguiçosa acentuada pelas vozes das senhoras da Portela e seu andamento tradicional conservado pelos competentes senhores da Portela.


Fazem uma homenagem da grandeza que lhe é devida. Breve, pois é samba. E, sendo samba, também eterna.


NOTA:

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