quarta-feira, outubro 22

POST DUPLO - Sufjan Stevens, Illinoise, 2005 / Beirut, The Flying Club Cup, 2007


A indústria musical segue em seu irreversível e cômico colapso. As gravadoras perdem dinheiro, fundem-se, têm seus lucros reduzidos violentamente, decretam falência - e, pouco a pouco, os artistas são atacados por uma iluminação: já não necessitam do mega-esquema de produção, distribuição e venda que, antes, só uma grande gravadora poderia proporcionar. Gravar um disco jamais foi tão fácil e barato; sua difusão é ligeira. Súbito, a autonomia - essa discutível e confortável situação - já nem precisa ser buscada: ela simplesmente existe.


Claro que, num momento de ruptura tão agudo quanto este, nem tudo se apresenta assim resolvido. A imensidão da web, por exemplo, tem capacidade de engolir qualquer disco ou canção. Cabe ao artista (ou a uma competente e vasta rede de relacionamentos) saber atrair ouvintes curiosos. Há quem confirme o poder que a imagem possui em tal processo - fotografias milimetricamente produzidas e vídeos intensamente vinculados na MTV seriam fundamentais. Mas consideremos, por ora, que o Moedoteca não possui acesso à tenebrosa Music Television e não se deixa enganar por rostos maquiados. Quando é só a música o que sobra, as mudanças já podem ser pressentidas.


Em duas recentes resenhas, tratou-se aqui da diluição de um conceito arcaico de álbum. É uma tendência, óbvio - potencializada exatamente pelo que se apontou nos dois parágrafos anteriores. Mas é uma tendência devidamente quebrada pelos compositores mais criativos da música norte-americana atual: desde o Yankee Hotel Foxtrot, clássico inquestionável do Wilco (e talvez símbolo central dessa tendência de ruptura e independência artística), grupos como o Arcade Fire (do Canadá), Walkmen, Beirut e artistas como Sufjan Stevens vão construindo uma carreira baseada, sobretudo, em álbuns coesos e numa espécie de música em constante pesquisa e variação - sem perder, contudo, esse caráter essencial de música pop.

Quando, em 2005, Sufjan Stevens lançou Illinoise, seu quarto álbum, o fez pela Asthmatic Kitty, gravadora independente de Michigan. Escutá-lo é compreender que, em momento de crise, nenhuma major ousaria bancá-lo. São vinte e duas faixas - e, entre aquelas que ultrapassam os sete minutos e vinhetas que não chegam aos dez segundos, escutamos canções baseadas na tradição folk estadunidense, mas executadas por uma imensa banda que não se exime de roubar bases rítmicas do jazz.



Repleto de referências ao estado americano de Illinois, o álbum se propõe a retratá-lo - e, para isso, canta desde as suas cidades e pontos turísticos até seus famosos políticos, artistas e assassinos. Tal variedade temática provoca uma lírica incomum e cheia de uma ironia incômoda. Como exemplo, devo indicar "John Wayne Gacy, Jr." (tocante balada sobre o serial killer homônimo) e "Casimir Pulaski Day", cujo título refere-se a um feriado estadual e cujos versos narram a morte por conta de um câncer nos ossos. Mais louváveis, contudo, são a melodia e o vocal frágeis da primeira e o banjo sutil da segunda.


Pois, embora algumas de suas letras sejam, de fato, acima da média, Sufjan demonstra talento, sobretudo, como musicista. Cheio de segurança e competência, comanda as variações rítmicas e de andamento das mais longas canções do álbum (que são, ademais, as melhores): "Come On! Feel the Illinoise" e "The Tallest Man, the Broadest Shoulders" são harmonicamente simples, mas possuem como trunfo maior os arranjos suntuosos. Destacam-se, sobretudo, quando confrontadas com algumas modorrentas baladas presentes no álbum (como "The Seer's Tower") e temas instrumentais sem maior força ou interesse (a exemplo de "Out of Egypt, into the Great Laugh of Mankind").

A canção mais bem-sucedida do disco, "Chicago", de melodia fácil e andamento comum, não se torna banal por conta do trabalho consciente de Sufjan e de sua banda em dosar a intensidade de estrofe e refrão (o que não deixa de ser uma forma previsível de trabalhar a canção, mas ainda assim certeira e irresistível). Trata-se, porém, de uma bela exceção dentro de um trabalho que prima pela utilização de variações rítmicas constantes, algo possível de ser notado também nos momentos mais inspirados do Wilco e do Arcade Fire, por exemplo.


Zach Condon, trompetista e líder do Beirut, parece menos virtuoso em relação a isso. Suas influências declaradas vêm da música cigana européia - por isso entenda-se, sobretudo, a música do Leste Europeu, região pela qual viajou e aprendeu. Suas influências mais facilmente detectadas vêm, contudo, de um nicho já segmentado no rock independente americano - que parece ter o álbum In the Aeroplane Over the Sea, do Neutral Milk Hotel, como ápice. O exotismo e o hibridismo, portanto, são nítidos - mas The Flying Club Cup, segundo álbum do grupo, parece aceitar que a variação se dê, basicamente, entre uma batida marcial (vide "Nantes", "Guyamas Sonora", "Cherbourg", "Cliquot", "Le Banlieu") e certos ritmos tradicionais europeus, algo bastante claro na valsa "A Sunday Smile" e nos tons de vaudeville de "The Flying Club Cup".


Trata-se, sem dúvida, de um álbum mais conservador que Illinoise, mas de qualidade muito semelhante. Embora aparente ser mais contido, seus arranjos são ainda mais essenciais às composições: escutar "Nantes", sobretudo utilizando-se de fones de ouvido, é travar uma gratificante luta em busca dos instrumentos que se escondem ou apenas se insinuam. Cravo, piano, trompete, flauta, várias cordas - tudo parece preencher a canção sem torná-la irritante. É um método que, na já citada "A Sunday Smile", torna-se ainda mais nítido: Zach Condon parece compreender que seus arranjos podem libertar-se sem que se tornem excêntricos.

Mostra saber, ainda, o valor do silêncio: o acordeão de "The Flying Club Cup" conhece a hora de parar antes de se tornar irritante. Essa excelência na execução torna vazia a reclamação sobre o pouco valor das letras de Condon - até porque sua simplicidade lírica fornece saídas eficazes para a melodia (que, devo dizer, também falha: o refrão de "Cliquot" é um lugar-comum atroz - trata-se de uma faixa que, embora apresente belas estrofes e um lindo arranjo, torna-se uma canção com uma falha num trecho essencial).

É natural que, por ser mais curto, The Flying Club Cup pareça também mais intenso. A extensão de Illinoise pode, sim, cansar o ouvinte, obrigando-o a saltar as faixas menos destacáveis - daí é possível, afinal, questionar se o caráter conceitual do disco termina por perturbar a harmonia entre as faixas e a atração do ouvinte por ele. De qualquer forma, trata-se de um problema a ser enfrentado por músicos interessados na construção de álbuns do tipo. Mas aquilo que os discos podem sinalizar é uma guinada criativa no modorrento cenário da música pop estadunidense (hoje repleta de terríveis grupos de rock burro, rappers repetitivos e astros pop que não merecem comentário) - restando a dúvida, afinal, se se trata de uma tendência ou de um caminho solitário e efêmero.


Illinoise e The Flying Club Cup:

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