quarta-feira, outubro 29

O Selvagem da Motocicleta ( Rumble Fish, EUA, 1983)


Se acho um tempo livre, acomodo-me na poltrona e me preocupo em escolher meticulosamente um título dentre os tantos que amigos cinéfilos, graças a deus, nos emprestam, aqui em casa. Todos sabem como funciona a idéia da fraternidade em repúblicas universitárias. Se é noite, apago as luzes; mas se ainda faz sol, tento esquecer do calor. “Calor”, acreditem, é um eufemismo; senhores, só estando aqui para entender devidamente o que é viver em Feira de Santana em pleno verão sertanejo. Mas isso não vem ao caso, o filme já vai começar, os créditos vão subindo, começou. Transcorrido algum tempo, os primos de R. Jr – são muitos e variados – chegam em casa. Todos sabem como funciona a idéia de privacidade em uma República universitária. Para alcançar o quarto é preciso passar pela sala. Eles fitam a TV, como vêem um filme preto e branco, chamam-me a atenção e quando me viro:

- Esse filme é lançamento, não é? Dizem, espirituosos. Como sempre, fico sem ter o que dizer.



Não, enquanto assistia O Selvagem da Motocicleta não fui interrompido por nenhuma piadinha constrangedora. Ainda assim, a historinha que compartilhei como os senhores, minguado leitorado moedotecário, serve de introdução a um importante tópico para nós (além de, é claro, aumentar o repertório de piadas sem graça a quem interesse). Após o advento do colorido, o cinema jamais foi o mesmo. As cores abrem uma paleta de possibilidades para a manipulação estética, ao mesmo tempo em que complexifica essa expressão. Há também a aproximação da noção grega da arte como um reflexo da realidade. A arte como espelho do mundo, no sentido estrito do termo. Eu, pessoalmente, gosto do preto e branco. A simplicidade relativa em se usar somente duas cores não empobrece, como se pode pensar, a beleza ou equilíbrio visual. As cores escondem atrás do deslumbramento que pode causar muitas armadilhas. Pegue a carreira de Almodóvar e pese os benefícios que sua fixação pitoresca lhe trouxe em seu Volver. Claro está que o preto branco, pelas sugestões que trás, não se encaixa em qualquer lugar. Deixando de lado o restante dos filmes do mundo, em Rumble Fish (título original de nosso vernáculo O Selvagem da Motocicleta*) o preto e branco está perfeitamente adequado.

O gueto americano de uma cidade industrial com uma história repleta de violência, de gangues e delinqüência, o palco principal deste filme, ganha da muita fumaça um ar etéreo. Neste ambiente, cresce Rusty James (Matt Dillon) obcecado com a idéia de tornar-se igual a seu irmão quando crescer, o selvagem do título. The motorcycle boy era o líder da principal gangue da cidade, cargo que manteve até decretar o fim das gangues e partir para Califórnia. Esse cara é uma figura central do filme. É meio surdo e também, prestem atenção, daltônico. Perceberam? Motoqueiro e daltônico. A cena em que ele fura o sinal vermelho com o irmão mais novo na garupa, no entanto, não chega a angustiar. Ele pode fazer tudo, não conhece limites. Forte e inteligente, duas característica dificilmente conciliáveis, ele é um jovem perdido no espaço entre o que é e o que poderia ser. Mas se o pessimismo faz sentir sua presença, a falta de perspectiva não é sempre um fardo do destino, imutável e superior. Vejam a simbologia que se dá á água. Se os produtores brasileiros tivessem atinado para isso, talvez não alterassem o título, em original, tão significativo**. O rio que margeia a cidade e vai desembocar no mar é , ele mesmo, a promessa de um mundo melhor. Essa busca remete à migração em direção ao leste, rota interna de um país de proporções continentais e repleto de promessas ocultas na outra extremidade de onde quer que se encontre. O motoqueiro, porém, não parece ter encontrado na Califórnia o que Rusty James, seu irmão, pensa encontrar. Certa feita, compara a cidade costeira a “uma garota linda, selvagem e viciada em heroína. Curtindo o maior barato, sentindo-se no topo do mundo, sem perceber que está morrendo nem mesmo quando vê as marcas”. Também não consta que tenha visto o mar. Quando seu irmão pergunta, ele nega. “Não cheguei no mar. Não, a Califórnia estava no caminho”

O preto e branco, voltando ao nosso estimado tópico, não parece antiquado somente aos primos de R. Jr.. Além das justificativas internas, algumas já citadas como a violência ou o daltonismo, também imprime algumas rugas. E se a trama não é ambientada cronologicamente num passado em relação à época de seu lançamento, é sobre o passado que fala quando ilumina a juventude. Uma juventude peculiar que ora se confunde com a juventude da nação estadunidense, ou mesmo com elementos autobiográficos de Coppola. A concepção de tempo se esvaindo a cada instante vivido está relacionado à postura da juventude quando, por exemplo, Rusty James se envolve em brigas gratuitas ou quando põe o namoro com a garota de quem gosta em risco por uma aventura de uma noite. O desperdício do tempo é a falta de perspectiva.


Em fim, creio que vou alongando este post, e entendo já ter dito tudo que julgo essencial. Faltam as impressões pessoais, considerações finais e um desfecho de efeito. Peço permissão, no entanto, para desviar um tanto o foco. Ao longo do processo de preparação deste texto, e enquanto assistia as reportagens do Jornal da Globo sobre a eleição presidencial americana, ou conversava com uns amigos de tendências marxistas sobre a crise econômica, ou enquanto comia, lia quadrinhos... em fim, a toda hora ao longo dos últimos três dias, a cena inicial de O Poderoso Chefão (cuja tradução incorreta do título me agrada) na qual um italiano, dirigindo-se ao padrinho para lhe pedir um favor, faz uma declaração de amor ao Estados Unidos não sai da minha cabeça. Não, não quero chegar a nenhum lugar ao citar esta cena. Nenhuma insinuação política ou tópico de discussão. Minha intenção é invocar a lembrança deste filme para que ajude ao leitor, como a mim ajuda, a lembrar de quem se trata o diretor deste O Selvagem da Motocicleta, Francis Ford Coppola.


NOTA:


*Dessa vez eu prometi a mim mesmo não comentar nada sobre a tradução do título.
** Mas ninguém é de ferro.

8 comentários:

Lisbela disse...

Moro em uma residência universitária e infelizmente quem pensa e agi de forma diferante dos demais, sempre é alvo de criticas e piadinhas.
Quanto ao texto, fiquei c/muita vontade de assisti o filme, com toda certa deve ser emocionante; imaginei a cena na qual ele fura o sinal vermelho, mas minha imaginação frustou-se. sou fascinada por filmes e gosto muito dos antigos(para mim possuem um encanto diferente.)pena q são raros.

Lisbela disse...

Gostari de pedir comentários sobre os filmes de charles chaplin, e se possivel algun de Alan Delon;assisti O ultimo samurai e fiquei encantada!
Descobri esse blog e irei desfruta-lo. Obrigada por compartilharem vossos saberes!

Daniel Oliveira disse...

Cara Lisbela, estamos anotando as suas sugestões.

Grato.

Clemêncio Rasta disse...

Amigos, quero sugerir um especial sobre Bob Marley analisando as obras desse regueiro genial. Comecem com catch a fire e terminem com o trabalho póstumo confrontation. há pano pra manga.
Outro grande rastaman é Peter Tosh. Escolham um dos dois, ta de bom tamanho.
Que Jah paire sobre o blog.

Marques disse...

Nossa esse fime parece ser bem interessante. Pena que seja tão dificil encontrar essa preciosidade nas locadoras.Por hora devo contentar-me com o seu admiravel texto.Há! se nãoi for pedir muito pode explicar um pouco mais sobre o efeito da água no filme.E dar mais detalhes do efeito da vida do motoqueiro sobre o irmão?
Agradecido!

Ederval Fernandes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Davi Lara disse...

Primeiramente, peço desculpas pela demora da resposta. Fiquei um tempo sem internet, pelo menos sem acesso por tempo suficiente para uma resposta cuidadosa. Chegou o dia, em fim.

Clemêncio, computamos sua sugestão. Na verdade, tenho pra mim que há uma forte probabili. dade de um moedotecário em especial levar a cabo o projeto de Bob Marley. Essa é a boa notícia. Não tão boa é o fato do moedotecário em questão estar de férias. De qualquer sorte, ele está de sobreaviso.

Marques, ainda bem que você pediu pra que eu falasse sobre a questão da água. Esqueci de falar no post de uma cena do filme, importantíssima, em que o Motoqueiro fica hipinotizado por um aquário. Os dois peixes, um em cada aquário, são os únicos elementos coloridos do filme. Um verde, outro vermelho, peixes de briga, que se estivessem no mesmo aquário brigariam até a morte. O motoqueiro se pergunta, falando ao irmão como se estivesse pensando alto, que acha que os peixes não brigariam se estivessem no mar. Pois no mar há espaço para todos.
é mais ou menos por aí que a água ganha importância no filme, como um símbolo de liberdade, ou libertação, tanto espirítual, como social. A água é uma peça chave do filme, uma personagem mágica.
A relação dos irmãos, creio que já foi suficientemente discutida. Na verdade, não sei o que dizer a mais do que já disse. É uma questão fundamental do filme. Já que o tema é o amadurescimento de um jovem cujo exemplo de maturidade é o irmão. É o mote da história. Pena que é difícil para você achar ele nas locadoras. Assim poderíamos discutir mais detidamente.

É isso, fiquem à vontade para mais intervenções. Este fundo de poço é estreito mais é, do seu modo particular, hospitaleiro.

MARQUES disse...

Nossa Davi realmente vc despertou os meus sentidos.É mesmo uma pena não poder deliciar-me com o filme. Desfruto por hora da minha imaginação e de suas palavras.