quinta-feira, novembro 20

Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim - 1967


A HISTÓRIA

Reza a lenda que Tom Jobim, em meados de 67, estava bicando um Schott no Bar Veloso, curtindo os louros de uma carreira já consagrada, quando lhe chamam do telefone do bar. A ligação é urgente, dos Estados Unidos. Meio contrariado de ter de se levantar, ele vai ver o que é. Ray Gilbert, tradutor de algumas das canções do maestro para o inglês, repassa o chamado efusivo de Frank. Sim, ele mesmo, “A Voz” chama Tom para gravarem um álbum JUNTOS em New York. Tom passa em casa, prepara as malas e toma um avião para fazer esta belezoca que ora ocupa nosso humilde fundo de poço.

Há variações desta história. Às vezes é Sinatra quem espera Tom do outro lado da linha. Em outras versões o convite vem por carta. A versão tergiversada por mim pode ser lida no original clicando aqui -- eu a recomendo para quem quer que possua senso de humor. De qualquer modo que se ouça esta história, sempre se insinua uma espécie de alegria provinciana, ainda hoje um pouco árdua de se admitir.



CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

A bossa-nova completou 50 anos. Os brasileiros não se cansam de comemorar, ao menos os poucos que reconhecem a importância da data. Tomemos o ambíguo especial promovido pela rede Globo, por exemplo, unindo Caetano Veloso e Roberto Carlos. A princípio não me interessou, mas a coisa foi crescendo, crescendo. Digo, só estou autorizado a falar do que houve em meu restrito círculo de sociabilização. Rodrigo, prezado colega moedotecário, foi um dos que se pronunciaram. Veio a um canto e disse um tanto mobilizado: “aquilo é anti-bossa-nova!”. Acordei com um gesto de cabeça (mesmo sem ter visto o programa), e acrescentei: “Caetano, cabedal que é, sabe bem disso”. Mais tarde pensei sobre o que eu dissera, e até que tinha algum nexo. O rei do iê-iê-iê e o líder da Tropicália homenageando a bossa-nova... interessante! Cheguei a lamentar ter perdido de ver especial, mesmo desconfiado que a sugestão do evento valesse mais que o evento em si.

De qualquer modo, a bossa-nova parece algo enfraquecida nos dias atuais. Nada errado, tudo tem seu momento de atuação, uma vida útil. O Tropicalismo, ao seu turno, faz-se mais presente. (Me pergunto se a música brasileira superou a influência tropicalista, ou vivemos desde 1968 as mesmas questões, repetidas ou expressadas muitas das vezes às cegas?) Esta comparação, contudo, é descuidada. Na medida em que a bossa-nova está presente na proposta tropicalista para o Brasil, esta encontra-se presente no legado daquele. A abertura dos portos promovida pelo encontro do jazz com o samba é, indubitavelmente, uma das premissas da orgia carnavalesca que configurou a vanguarda da nossa música na década de sessenta. A diferença mais gritante entre os dois movimentos permanece sendo a cultura de massa, elemento fundamental do movimento mais recente.

Quanto ao caráter elitista da bossa-nova, creio que idéias extremistas, como a de Tinhorão, não têm eco atualmente. Mesmo assim, o fato da bossa-nova não ter nunca repercutido massivamente no território brasileiro, ainda hoje, pesa contra ela como um fardo evitado nas rodas de discussão. Peguemos como um exemplo comparativo os Beatles (quando os Beatles lideravam as paradas americanas com o emblemático Sgt. Pepper's, Jobim e Sinatra vinham logo atrás). Os garotos de Liverpool operaram uma revolução na música pop que esteticamente se equivale à revolução operada em meados do ano de 1958 no samba brasileiro. Mas se em estética a balança é equilibrada, em nível de repercussão popular a disputa é desnecessária, a bossa perde por WO. O quadro vai se aprofundando quando tomamos a consciência de que cada mudança de rumo na música popular é uma proposta cultural para uma nova configuração da panorâmica nacional. A bossa-nova é um projeto Brasil, assim como o Tropicalismo, mais bem sucedido, mais consciente, o foi depois.


Nada disso atrapalha a apreciação das canções. Mas quando se fala em canção popular, creio que certas cobranças escondem por trás de um eventual moralismo, muitas vezes injustificável, qualquer legitimidade. Impossível não citar Tom Zé:

“Terceira edição

No dia em que a bossa-nova inventou o Brasil
No dia em que a bossa-nova pariu o Brasil
Teve que fazer direito
Teve que fazer Brasil

A surpresa foi que no fim daquele mesmo ano
Para toda parte
O Brasil do pato com a bossa nova exportava arte
O grau mais alto da capacidade humana

E a Europa assombrada:
Que povinho audacioso!
Que povo civilizado!”

Uma análise da conjuntura social da bossa-nova é sempre complicada. Não é raro ouvir alguém defendendo um artista com o argumento da representação (ou alcance) popular – dois bons exemplos são Beatles e Roberto Carlos. Ou o contrário, como Chico Buarque e os cantores da própria bossa nova. Tudo que escrevi foi influenciad o por três fatores: a leitura de recente de Tinhorão, polêmico e obrigatório pesquisador da música brasileira; a persistência em minha mente da música cujo trecho acabei de citar; e a já citada alegria meio provinciana que experimentei quando Éder, caro colega moedotecário, atualmente de férias, contou-me a historinha que reproduzi nos primeiros parágrafos do post, meses atrás, quando do meu primeiro contato com o álbum ainda a ser resenhado. E não creio que seja um assunto facilmente esgotável.

Antes do álbum, porém, peço aos leitores que permaneceram comigo até aqui três segundinhos para mais uma breve consideração. Se até aqui focamos só o alcance social da música, voltemo-nos agora para áreas mais sensoriais, por assim dizer. Nada de ranço ideológico. Creio não haver melhor forma de apreciar Sinatra e Jobim Sessions.


O ÁLBUM

Há uma sintonia óbvia entre os dois diferentíssimos Frank Sinatra e Tom Jobim. A impressão que fica -- desconfio que ela proceda -- é que as composições do brasileiro são boas ao ponto de se fazerem sozinhas, e que Sinatra canta tão bem que qualquer dó ré mi fá soa perfeitamente em sua voz. Claro que há particularidades que precisam ser anotadas. Para mim, Sinatra é dos um artista que se valem de saber muitíssimo bem os seus limites. Isso quer dizer que ele tem um campo de atuação bem definido e nunca se arrisca para além de seus domínios. O que ele tem a oferecer? A priori, mais que suficiente, tem a voz, “the golden voice”. Mas e a pronúncia de Sinatra, perfeita? Faz qualquer estudante iniciante de inglês entender cada palavra. Na verdade, como diria Eder, ele canta fazendo charme. Ele é o Humphrey Bogart da música. Cantor perfeitamente produzido, há uma conexão espantosa do gestuário de suas mãos com o acento que ele dá às palavras proparoxítonas.

De todos os méritos de Sinatra como intérprete é impossível escolher qual de suas facetas é a mais impressionante. Ultimamente tem me custado muita atenção a sua divisão de tempo. A exemplo de nosso João Gilberto, ele é extremamente exato, e, sem os malabarismos bossa-novísticos do brasileiro (por demais complexos, já que abrangem da voz à batida de violão), Sinatra opera seus próprios feitos. Na versão de Dindi, após a bateria silenciar, restando somente as cordas, Sinatra canta alongando as duas primeiras palavras (“Don’t you...”) e, criando uma tensão um pouco angustiante, pois parece que ele vai perder o tempo sem a marcação como guia, cai na cabeça do compasso na palavra “...know”, perfeitamente sincronizado com a volta da banda.

“Don’t you know Dindi?
I’ve running searching for you
like a river that can’t find the sea”

Nessa época, pelo que me consta, os computadores ainda não supriam possíveis deficiências dos músicos e cantores. Tudo que era gravado, para bom ou não, era mérito dos artistas de carne e osso.


Para entender melhor este álbum, eu comparo as diferentes versões de cada música do repertório. É um fetiche meu que se mostrou muito esclarecedor. Aqui no meu computador achei seis gravações de Samba de Uma Nota Só. Das versões de João Gilberto prefiro não falar nada a não ser que representam o equilíbrio dos três pilares da bossa, o samba, o jazz e a música clássica. A versão de Tom Jobim e Os Cariocas é interessante. Começa com Tom cantando ao piano, sua divisão de tempo é bastante distinta da divisão dos Cariocas, mais quadrada, menos suingada. Já na versão de Ella Fitzgerald, tudo é suingue e improviso. Quando Sinatra canta One Note Samba sentimos a falta de mais dinâmica. Mas não, ela canta com calma, demorando-se em cada palavra. Muito parecido com o modo de cantar de Tom. Aqui o que importa é a desenvoltura com que se cumpre a complicada melodia, ora linear, ora uma profusão de notas.

Se vocês leram a reportagem de época que linquei para vocês o começo do post (dou-lhes a última oportunidade para umas boas risadas, os senhores e as senhoras só precisam deitar o mouse neste link e clicar), vocês sabem de algumas particularidades dos arranjos. O maestro responsável pela orquestração é Klaus Orgeman, Jobim toca violão e canta e a bateria é de um brasileiro de nome engraçado, Dom Um Romão. A bateria sustenta a batida bossa nova do início ao fim do disco. Mesmo nas três canções que não são composições de Tom Jobim o arranjo segue o conceito do álbum.

Tom se sai muito bem cantando. Já vi pessoas se confundirem nas faixas em que os dois dividem os vocais, muito embora a diferença seja óbvia, os timbres são parecidíssimos. No tardio compacto duplo que traz toda a sessão que a dupla gravou, há uma versão de Fly to The Moon com o maestro nos vocais, muito bem por sinal. Após uma introdução ala bossa, Jobim se dirige ao amigo: “Francis, that’s my!”.

No mais, é engraçado ouvir Sinatra cantando “Água gi beber, Camará”.


NOTA:

2 comentários:

Marques disse...

Dois grandes celebres da música!simplesmente transformadores de seu tempo!Mas jobim é um dos meus favoritos.

Anônimo disse...

Só uma pequena impropriedade. Fly me to the moon não foi gravada no ano que foi gravado esse album histórico. Na verdade essa música foi de um disco de Sinatra e Tom estava fazendo uma participação especial. Essa gravação foi feita meses antes do maestro morrer e ele já estava doente.

Informação extraída do livro Tom Jobim - Um homem iluminado, escrito pela irmã de Tom. No mais, perfeito disco e muito boa crônica.