quarta-feira, novembro 12

POST DUPLO - Woody Guthrie, Dust Bowl Ballads, 1940 / As Vinhas da Ira - JOHN STEINBECK (BestBolso, 585 pág.)


Tudo se passou entre 1930 e 1940. Extensas regiões agrícolas dos Estados Unidos foram assoladas por tempestades de poeira. A produção foi reduzida drasticamente, o lucro desapareceu e os homens, desolados, precisaram partir de Oklahoma, Texas, Geórgia e outros tantos estados. Dirigindo-se quase sempre em direção ao Oeste, pela Highway 66, ansiavam por uma vida farta na Califórnia - desnecessário dizer que as esperanças se tornaram decepções tremendas: os empregos eram escassos, os proprietários exploravam os trabalhadores e a população, no geral, tratava-os ora com desprezo, ora com ódio. A trágica história dos retirantes estadunidenses, como se sabe, rendeu certas obras memoráveis. Artistas como John Ford, Dorothea Lange, Woody Guthrie e John Steinbeck, em níveis distintos, inspiraram-se nesse momento histórico (conhecido como Dust Bowl). Parece-me que alcançaram excelência, sobretudo, superando aspectos históricos e ideológicos (ainda que suas obras estejam repletas deles) e percebendo o homem que, por trás disso, revelava-se acuado e perdido, embora num movimento constante - não tanto por coragem ou ousadia, mas por um impulso inevitável pela sobrevivência sua e dos seus.


Dust Bowl Ballads, álbum de Woody Guthrie lançado em 1940, carrega a referência ao fenômeno desde o título. Todas as canções, executadas por Woody com seu violão (que, vez ou outra, é amparado por uma gaita discreta), tratam do êxodo e de suas implicações. A figura do andarilho, tão comum numa América pós-1929, perpassa todo o disco - nada surpreendente se considerarmos a carreira e a imagem típica do músico, construídas por meio de suas andanças pelo país. Suas melodias, fortemente baseadas na tradição das canções rurais, não são vistosas ou surpreendentes: ao contrário, apresentam-se no primeiro verso e repetem-se até que a canção se encerre absolutamente fixada à memória de quem a escuta. "The Great Storm Dust", faixa de abertura, exemplifica bem os meios pelos quais Woody compõe: poucos acordes, dedilhados simples e insistentes, melodia melancólica, ainda que propensa ao canto em grupo. Liricamente, é possível notar que Dust Bowl Ballads inicia-se cheio de descrições - a voz nasalada de Woody acompanha a trajetória das grandes nuvens de poeira e as primeiras reações daqueles que avistam a tragédia. A viagem se inicia antes que os homens partam:


From Oklahoma City to the Arizona line,

Dakota and Nebraska to the lazy Rio Grande,

It fell across our city like a curtain of black rolled down,

We thought it was our judgement, we thought it was our doom.


Não se trata, no entanto, de um álbum cíclico - Woody era, em essência, um fazedor de canções. O fato de todas as quinze faixas tratarem de um mesmo tema e estarem num mesmo álbum não chega a ser fortuita, naturalmente, mas não impõe uma amarração nítida entre elas que vá além da mais óbvia. Considerando-o enquanto mera seqüência de canções, trata-se de uma belíssima coleção. Faixas como a clássica "Do-Re-Mi", típica travellin' song, animada, de estrofe quase falada e refrão explosivo, valiam, à época, como alerta aos retirantes (o que contraria a idéia superficial de que haveria uma exaltação à vida do viajante - pois Dust Bowl Ballads é, acima de tudo, um disco de gente em busca de assentamento):


Oh, if you ain't got the do re mi, folks, you ain't got the do re mi,

Why, you better go back to beautiful Texas, Oklahoma, Kansas, Georgia, Tennessee.

California is a garden of Eden, a paradise to live in or see;

But believe it or not, you won't find it so hot

If you ain't got the do re mi.




E valem, hoje, como peças raras de uma cultura e de um estilo de composição em extinção e, sobretudo, como canções tocantes, que surpreendem por uma qualidade tão nítida e, ainda assim, quase inexplicável.


Inexplicável pelo fato de se erguerem de tão pouco, de um material escasso e de preocupações estilísticas aparentemente rarefeitas: e como é recorrente a impressão de que Woody altera o compasso de uma balada para que seu verso extenso caiba na melodia - algo perceptível na trágica "Dust Pneumonia Blues" ou na longa e bela "Tom Joad" que, por conveniência, foi dividida em duas partes.


Como se pode perceber pelo título, essa última é inspirada por As Vinhas da Ira, romance de Steinbeck e filme de John Ford. Relata-se que tanto essa quanto outras baladas de Dust Bowl foram feitas sob a forte influência que o longa de Ford teria exercido sobre Woody. Ignoro se já conhecia o romance, mas "Tom Joad" consiste, basicamente, num resumo de sua trama: a saída de Joad da prisão, seu encontro com um ex-pregador, a casa abandonada, o retorno à família, sua viagem, etc. A balada é bastante representativa da qualidade insuspeita de Woody: é simples, panfletária, quase tosca, e profundamente tocante, grande demais para ser desprezada por motivos menores como a incorreção métrica ou estilística.


Steinbeck, já resenhado no mísero fundo do poço, merece descrição semelhante. Se com Of Mice and Men pude me render, ainda que cheio de incertezas, à força não de sua prosa, mas de sua literatura, a leitura de As Vinhas da Ira persegue-me com uma questão inevitável e retumbante: por que John Steinbeck é um grande escritor e As Vinhas da Ira um tremendo livro? O romance forma-se de muito daquilo que empobrece e condena outras obras literárias: é panfletário, desleixado, prolixo e apelativo. Mas é também grandioso, fluente e belo - Steinbeck pode ser lírico e rude num mesmo capítulo, seus personagens passeiam entre características humanas, animais e divinas numa mesma página, seus diálogos evoluem de dramalhões constrangedores até se encerrarem numa frase irretocável. Parece, até, que os defeitos da obra são essenciais - não com o intuito tolo de, em comparação, elevar os bons momentos do romance, mas como parte inexplicavelmente necessária e aceitável.


A saga dos Joad, por si só, é digna de suas mais de quinhentas páginas: arruinados pela poeira e pela súbita mecanização do trabalho agrícola em Oklahoma, perdem suas terras e decidem partir para a Califórnia em busca de trabalho. Boa parte do romance desenvolve-se com a viagem - num caminhão velho, amontoam-se e procuram sobreviver. É bastante compreensível que, antes de se afastarem muito de suas terras, o avô morra - ele, que não queria viajar, não poderia suportar tamanha mudança. Os velhos morrem junto com seus velhos hábitos, suas antigas crenças. Aos que continuam, Steinbeck reserva uma seqüência desumana de infortúnios e humilhações - os okies (como eram pejorativamente chamados) persistem em seu caminho enquanto o autor, em capítulos pontuais, reflete a situação geral daqueles tempos.




Esses trechos, onde a ação em torno da família é suspensa, também são irregulares: há as dispensáveis e furiosas considerações políticas e há, por outro lado, descrições primorosas como a do capítulo 11, no qual acompanhamos a deterioração de uma casa abandonada por meeiros: "Certa noite, o vento arrancou uma telha e lançou-a no chão. O próximo golpe de vento penetrou na abertura deixada pela telha, e tirou mais três, e depois mais 12. (...) Os gatos selvagens regressavam à noite dos campos, mas não miavam nos degraus. Moviam-se quais sombras de nuvens ao lar, e se esgueiravam para os quartos. E nas noites de ventania as portas batiam com estrondo nos umbrais, e cortinados rotos flutuavam agitados de encontro às vidraças partidas."

Como já foi afirmado, os personagens de Steinbeck oscilam entre representações humanas, animais e divinas - e é daí que nasce o potencial apelativo de sua literatura. O ex-reverendo Casy, por exemplo, se expressa sem o menor pudor: duvida de Deus enquanto acredita nos homens; quer compreender seus semelhantes e, de certa forma, resvala nessa compreensão - ganha, sem dúvidas, uma aura de santo. Sua tragédia é aquilo que motiva Tom Joad a rebelar-se definitivamente, dedicando sua vida ao combate das injustiças contra o seu povo - e é indisfarçável o tom ingênuo de tudo isso, mas também impossível de ser ignorada a pujança de seus pensamentos e atitudes, que sobrevivem por conta de uma esperança descomunal que Steinbeck incute às suas criações.


Que são conscientes do horror que enfrentam e da miséria em que vivem - mas incapazes de parar. A desintegração da família, que se dá ao longo da estrada com mortes, abandonos e fugas, não é suficiente para desmembrá-la por inteiro: restará sempre, por fim, um casamento, a união com outros refugiados, a irmandade criada com base na necessidade. As festas, os enterros dignos e os efêmeros empregos são motivações suficientes para que se recobre a fé - nas estradas quentes a noite parece um lenitivo: "E talvez um homem puxasse seu violão e sentasse sobre um caixote, em frente a uma tenda, e tocasse. Todos no acampamento se juntavam ao redor dele, atraídos pela música. (...) E agora o grupo já formava uma unidade, uma coisa coesa, de maneira que na escuridão olhavam para dentro de si mesmo os olhos daquela gente toda, e seu pensamento voava para outras épocas e sua melancolia era reconfortante qual o descanso ou o sono".


Desistir não parece uma opção possível para os Joad - em suas quase 600 páginas, As Vinhas da Ira beira o sadismo, mas contenta-se, antes, com um realismo visceral e incômodo. Steinbeck parece aceitar que são poucos os que compreendem seu ideal de revolta: a maioria dos personagens, adaptados a um estilo de vida arcaico, não sabe contra quem dirigir sua indignação. As novas relações de trabalho são incompreensíveis - todos sentem o seu impacto, mas são raros os que identificam de onde parte o golpe. Nessa impossibilidade de comunicação parece centrar-se o romance: o artista descreve a dor, a fome, a humilhação de homens que presos em suas próprias tragédias, dispõem de pouca disposição e pouco tempo para expressá-las de forma contundente.


A idéia cíclica a respeito de vida e morte - que, se considerarmos a dinâmica das colheitas, é marcante na vida rural - se encena de forma grandiosa e simbólica nos momentos finais do romance. Deixando inconclusa a história da família Joad, Steinbeck condena sua busca como algo destinado ao fracasso, mas nunca infrutífero. Por onde passam, embora passem sedentos e alquebrados, jamais deixarão de lucrar miseravelmente, de amamentar homens feitos à beira da morte por fome, de criar laços de amizade e de fazer com que outros refugiados, em meio aos seus, sintam a vaga presença de um lar.

Dust Bowl Ballads & As Vinhas da Ira:

2 comentários:

pietro disse...

porra, eu não tenho palavras. sinto vontade de conhecer profundamente a obra destes dois caras. certa vez tentei ler ratos e homens e não consegui ir adiante.. steinbeck parece mesmo um cara rude. o mesmo parece acontecer com woody guthrie. mesmo assim, acho que são dois caras indispensáveis!
valeu

Rodrigo L. disse...

Compreendo sua atitude com "Ratos e Homens", mas também concordo que Steinbeck é um autor que, em algum momento, devemos encarar. Woody Guthrie nem se fala; obrigatório.