quarta-feira, novembro 5

Todas as Mulheres do Mundo (BRASIL, 1967)


O maior achado da história do cinema não se encontra num filme de Billy Wilder, nem de Ernst Lubitsch, nem de Frank Capra, nem de Jean Renoir, nem de Jim Jarmusch, nem de John Cassavetes, e nem nenhum desses: ele está presente no longa Todas as mulheres do mundo, escrito e dirigido por Domingos de Oliveira*. A cena é tão boa que, contrariando meus princípios, irei contá-la agora, nesse post, a vocês, leitores. Segundo o cineclick.com.br, Paulo (Paulo José) é um paquerador nato, a sua vida se resume em flertar com todas as belas moças da zona sul carioca. Mas um dia conhece Maria Alice (Leila Diniz) e se apaixona loucamente, tendo que abrir mão de "todas as mulheres do mundo". Daí, Paulo se casa com Maria Alice. Eis enfim a cena:

* Paulo tentar levar Maria Alice a uma boate. Esta não se interessa muito, mas o marido insiste e ela acaba cedendo.

* Lá, os dois encontram alguns amigos de Paulo. Esses amigos começam a conversar “amigavelmente demais” com Maria Alice.

* Paulo vai dançar com outras. Os amigos estão tomando liberdades cada vez maiores.

* Depois de algum tempo, todos se divertem à beça. Mas Paulo é contaminado pelos ciúmes, após constatar que Maria Alice está dançando freneticamente e sem a sua presença.

* Indignado, Paulo declara que eles irão embora. Todos protestam. Paulo não cede. Necessário lembrar que Paulo nunca maltratou sua esposa antes. Maria Alice argumenta que ele implorou que ela fosse e que agora seria contraditório ele querer sair tão depressa.
* Perdendo a cabeça, Paulo a puxa pelo braço e tenta levá-la á força.

* Maria Alice se desvencilha com habilidade. O marido, fora de si, levanta o braço, iniciando o clássico gesto do tapa na cara.

Aqui, o achado: a cena demora alguns segundos; pelas feições de Paulo, vemos que ele se arrepende de pensar em bater na mulher amada. Esta não percebe a insinuação, pois, logo em seguida, seu marido genial arremata: “Par ou ímpar?” Eis o achado. A mão aberta que indicaria o tapa acabou servindo para iniciar o jogo do par ou do ímpar. Maria Alice aceita o desafio e perde. Paulo: “Ganhei. Vamos pra casa”. Maria Alice: “Tudo bem. Jogo é jogo”. Fim da tomada.

Nouvellevagueano por excelência, o filme de Domingos de Oliveira lembra, e muito, os filmes de Godard, em especial Acossado e O Desprezo. Coincidência ou não, a história de Todas as mulheres do mundo é baseada no relacionamento do próprio diretor com Leila Diniz, assim como O Desprezo, embora adaptado do livro de Alberto Moravia, também é baseado na relação de Godard com Anna Karina.

As qualidades de Todas as mulheres do mundo são, no quesito cinematografia, praticamente as mesmas que encontramos nos filmes da época do surgimento da nouvelle vague: narrativa fluente e ligeira, montagens sobrepostas, rebeldia espaço-temporal e mais algumas. A atuação de Paulo José se sobressai: pra quem pensa que é fácil fazer o papel de um típico garanhão imaturo, preste atenção no típico garanhão imaturo Paulo em Todas as mulheres do mundo e depois observe um típico garanhão imaturo do seriado Malhação. Melhor: assista um filme pós-90 de Hollywood de comédia romântica e perceba a diferença. Melhor ainda: qualquer filme francês do século XXI (ou que se passe na França). Fazer o papel de um típico garanhão imaturo não é fácil. Leila Diniz, a musa-mito, se encaixa muito bem na personagem (ora, é baseada nela. Atuar a si mesma? Uma pergunta borgiana...), mas é preciso assistir o filme mais de uma vez para considerar sua boa interpretação (isto é: sua qualidade de atriz não é tão fácil e óbvia de ser assimilada como a de Paulo José).

Quando coloquei para pesquisar "Todas as mulheres do mundo", o google me veio com: você quis dizer "Leila Diniz".


A outra semelhança fílmica de Todas as Mulheres do mundo é Noivo neurótico, Noiva nervosa, de Woody Allen. As histórias são interessantemente parecidas. No final, Paulo se lembra dos melhores momentos que passou com Maria Alice assim como Alvy Singer o faz na obra-prima de Allen. São preciosidades do roteiro, porém: a chance aqui de ter sido uma coincidência é bem maior e mais coerente. Até porque o filme de Domingos de Oliveira surgiu antes de Noivo (...), e dificilmente Woody Allen o teria assistido até o momento em que filmou este que é um de seus melhores projetos.

O leitor se perguntará porque darei 4,5 para Todas as mulheres do mundo. E se não se perguntar, eu o faço por ele: Por que, Daniel? Pela influência muito grande da nouvelle vague? Não. Por ser um filme brasileiro? Também não. Mas simplesmente por não ser perfeito. E, pelo menos aqui no blog, a nota máxima é a nota da perfeição. A montagem engenhosa de Todas as mulheres do mundo não possui um significado pleno (nem uma total ausência de significado, o que implicaria numa outra espécie de significado: a não-significação) e não possui a elaboração formal costumeira nas obras perfeitas. Exemplo: no já referido Acossado, os cortes mágicos são arbitrariamente divididos em "cortes de costumes" - que são os que aparecem principalmente nas conversações dos protagonistas e que significam a passagem de tempo e a própria futilidade da conversa - e os "cortes de passagem", que são sobrepostos um ao outro e servem de anúncio ao plano ulterior. Há, então, uma preocupação em sistematizar o processo de cortes; em outras palavras: perfeição formal. Em Todas as mulheres do mundo, isso não acontece. Os efeitos de montagem não são completamente desordenados por coincidência, e estão mais ligados à questão do profissionalismo, ou seja: "um bom diretor sabe que não é bem assim". Mas também não são meticulosmente ordenados nem virtuosamente interdependentes, porque essas duas características não são de meros profissionais do ramo, e sim de artistas. Outro exemplo: o também citado O Desprezo. O genial desvirtuamento de tempo e de espaço que ocorre nesse filme remete à literatura fantástica e ao modernismo na literatura. A própria incerteza cinematográfica sugere as incertezas que assolam o marido e a mulher. Todos os efeito de câmera seguem uma linha: ora um travelling sentido leste-oeste, ora norte-sul, ora os personagens são mostrados pelas costas, ora pela fronte (toda a edição do filme segue em formato perpendicular). Trocando em miúdos: temos aqui a perfeição formal. Embora não seja perfeito (pelo menos para mim), Todas as mulheres do mundo é um grande filme de um grande diretor com grandes atuações, e um dos melhores filmes do Brasil (talvez a melhor comédia romântica brasileira). Disso eu não tenho a menor dúvida.

É preciso entender que a "perfeição" aqui não significa altíssima qualidade ou extrema realização, embora muito provavelmente o seja; a obra "perfeita" - na nota 5 do Fundo do Poço - é a mais bem-acabada possível. Aquela que atinge o equilíbrio maior (o "equilíbrio" aqui nada tem a ver com conservadorismo ou tradição e nem serve de oposição ao caos). Aquela que será vista, lida ou escutada por infinitas gerações.


NOTA:



* Nas fontes, o nome do diretor ora aparece como Domingos de Oliveira, ora como Domingos Oliveira. Não sei qual é o certo.



UPDATE: Assisti novamente a Todas as mulheres do mundo. É impossível não dar a nota máxima.

NOTA:


5 comentários:

Lisbela disse...

Hora Daniel, como sempre textos bons. No entanto, ler sobre os filmes que comentam só me deixa na curiosidade de assisti-los.Por favor pode comentar também sobre filmes mais acessíveis tipo os 300
Tróia,Gattaca, Mar de fogo ou filmes literários?
um abraço

Daniel Oliveira disse...

Lisbela, estou anotando as suas sugestões. Só não sei se poderei escrever sobre eles rapidamente, até porque a maioria deles eu não assisti.

Talvez abramos no blog uma seção "A pedidos" ou coisa parecida.

Pietro vasconcelos disse...

-Qual a personalidade que o senhor mais aprecia?
-James Bond.

se não me engano, é isso.
Valeu pelo texto!

Lisbela disse...

Não precisa ser tão rapido eu tenho paciencia. um abraço!

moni disse...

taí um dos poucos filmes brasileiros que curti. rs

pra sessão A PEDIDOS:
vou aguardar a resenha de 'MARLEY E EU'
VLW FLW MLQ