quarta-feira, novembro 26

Sem Controle (BRASIL, 2007) ou Vanessa Gerbelli

Vanessa Gerbelli.


Às vezes é chato dizer que um filme é ruim. Porque fazer um longa-metragem custa dinheiro, muito, e dá bastante trabalho. O desgaste e o empenho da equipe de produção sempre são incalculáveis. E, quando o filme do(a) diretor(a) é seu primeiro, então ele(a) provavelmente dá tudo de si.

Mas acontece que Sem Controle, estréia de Cris D’Amato na direção, é uma porcaria. Ultimamente tenho lido meus textos no blog e atentado para os adjetivos que utilizo: na maioria dos casos, são fortes demais. Neste, porém, não encontro outra alternativa: Sem Controle não é bom. Para poupar o leitor de dezenas de linhas recheadas das injúrias mais óbvias, procurarei falar da única coisa boa do longa: Vanessa Gerbelli. Vejam bem: a personagem de Gerbelli é bisonha e suas falas são péssimas. Mas ela é boa.

Gerbelli e o seu rosto 1/3 andrógino.

Vanessa Gerbelli tem 35 anos. É, para mim, a melhor atriz brasileira da faixa dos 30-40 anos e uma das melhores de sua geração do mundo inteiro. É tão boa quanto Emily Watson e melhor que Julianne Moore. Segundo esse Fansite, o time do coração de Vanessa Gerbelli é o Corinthians. E essa grande atriz só tem 8 novelas, 12 peças teatrais e 4 filmes na carreira. Em nenhum dos filmes ela foi protagonista. Eu não sei nem o que é Os Desafinados. Em Carandiru Vanessa mal aparece. E em Sem Controle ela também não tem destaque. O papel de Gerbelli em Mulheres Apaixonadas começou secundário; mas, por algum motivo, virou principal (será que é porque ela é boa?) e marcou a teledramaturgia brasileira. Seu papel em Da cor do pecado também foi muito comentado. Quando foi para a Rede Record, Vanessa fez uma vilã em Prova de Amor. Em Amor e Intrigas já era protagonista absoluta; só não o foi em Vidas Opostas (novela anterior a esta mas tão ruim quanto) por ter dado à luz – talvez isso se deva ao fato de sua qualidade de atriz. E também foi casada com ninguém menos que um diretor da TV Globo, o Vinicius Coimbra (se é que isso significa alguma coisa). Mas o seu nome não é famoso. Quando Eduardo Moscovis foi divulgar o filme em Jô Soares, este pediu a mostra de algumas cenas e quando viu Gerbelli na tela foi logo perguntando, se esquecendo de Moscovis: "Quem é essa? Como é mesmo o nome dela? Ela é boa, ela é boa". Mas sua fama é tão modesta que ela própria navegou pelo seu Fansite e até mesmo disponibilizou algumas fotos particulares!

Gerbelli e o péssimo Moscovis.

Às vezes penso que a falta de reconhecimento é tão grande que só devem ter escolhido Gerbelli pra atuar em Sem Controle por causa da novela O Cravo e a Rosa, na qual ela contracena com Eduardo Moscovis. Provavelmente concluíram que eles já tinham uma simpatia, e a escolheram até mesmo pra não pagar muito caro. Só sei que ser sombra de Moscovis é algo insuportável; quando supus coincidência, descobri que eles também atuaram lado a lado numa montagem da peça Tartufo, de Molère.

Gerbelli e o péssimo Moscovis - Parte 2.

Leiamos primeiramente a sinopse extraída do site cineclick.com.br:

Danilo (Eduardo Moscovis) é um diretor de teatro obcecado com a injustiça cometida contra o fazendeiro Manoel da Motta Coqueiro, caso que iniciou o processo de extinção da pena de morte no Brasil. Estimulado por uma mulher linda e misteriosa, Danilo passa a ensaiar uma peça sobre a vida de Motta Coqueiro, com ele próprio interpretando o fazendeiro e os demais personagens vividos por pacientes psiquiátricos. Aos poucos, Danilo começa a confundir o que é real e o que é imaginário, passando a reviver os fatos históricos como se ele próprio fosse Motta Coqueiro.

Gerbelli e o péssimo Moscovis - Parte 3

Agora sigamos com algumas cenas-exemplo:

Cena 1: Danilo passa mal, Vanessa (Márcia, sua amiga de longa data) o interna e no dia seguinte o visita pra saber como ele está (ela ainda não sabe o que aconteceu). Apresenta Danilo aos outros pacientes e o mantém no hospital.

A personagem de Vanessa trouxe uma camisa para presentear Danilo, e começa a proferir: “Está melhor?”, “Comprei pra você?”, “Gosta?”, etc. Moscovis salta da cama e brada um “Gosto” bastante grosso (ele pula passando as pernas por cima de Gerbelli). A coitada se assusta, pisca os olhos (uma vez), inclina levemente a cabeça, e fica magoada e preocupada com a reação estúpida de Danilo. Sua expressão facial já está completamente mudada; de alguma maneira ela umedeceu os olhos e aproveita a ocasião pra perguntar “Quer falar?”, e ela o faz com os lábios semi-abertos; ainda desvia os olhos rapidamente duas vezes para a direita! E, depois, toda vez que dirige a palavra a Danilo, sempre olha para baixo primeiro antes de encará-lo. Sua atitude inicial se torna justificada. Afinal, Márcia é uma médica, e procura agir como tal. Como todos os médicos que precisam tratar de um assunto sério com um doente (geralmente crianças), ela fala de maneira amistosa, rindo, com afeição, e depois, ao ver que já acalmou o dito, se torna séria, não o “sério” ameaçador, mas o “sério de médico”, o “sério” profissional. Quando ela se despede (já que não está para conversa), tenta dar-lhe um abraço, um beijo, sei lá o quê; começa o gesto com a mão; mas aí Danilo não dá o menor sinal, e ela, perdendo a paciência, dá o “Tchau” seco e com a mão que faria o carinho ela coça o nariz! (daquele jeito em que pegamos o polegar e o indicador e passamos de leve pelo local). Mas esperem aí: a postura da personagem não era pra ser clichê? Não era pra ser uma “coisa de novela”, em que os atores só reproduzem o que está no papel, sem adotar nenhuma técnica lingüística e de trabalho de corpo? Não: foi Gerbelli que em menos de 10 minutos de filme já deu uma aula de como provocar efeitos através da atuação. Sem contar o trabalho de corpo (Moscovis, por sua vez, só fazia balançar seu corpo da maneira básica e fazer cara feia). Essa Cena 1 pode muito bem ter seu mérito atribuído à diretora. Mas eu digo a vocês que, se fosse assim, a performance de Moscovis também deveria ser natural, o que não aconteceu.

Gerbelli preocupada.

Cena 2: Márcia se entusiasma com a idéia de Danilo ministrar uma oficina de teatro para os pacientes do centro psiquiátrico.

Pra evitar perguntas de um cretino, Danilo inventa que está ali no centro pra ministrar uma oficina de teatro para os pacientes. Márcia é uma mulher discreta, profissional, que se dedica ao que faz e tem uma sensibilidade que procura não demonstrar todo o tempo. Quando Danilo despacha o cara que estava lhe chateando, ele segue seu caminho e volta as costas para Márcia. Esta lhe fita as costas e, empolgada com a idéia da oficina, admiravelmente morde o lábio inferior! (porque ela não pode explodir de alegria sendo mulher discreta que é, e faz isso pra conter o sorriso). Depois, não agüenta mais e diz, na maior “inocência”: “Boa idéia!”. Danilo pergunta: “Qual?” E ela: “Você dando aula aqui.” Nessa parte específica, um ator amador ou mesmo um ator que não se preocupa com o realismo necessário ao cinema (pelo menos esse gênero de cinema) e condizente com sua personagem provavelmente diria essas frases olhando para o Danilo, sem lhe desviar os olhos. Mas Gerbelli não: ela, enquanto fala, não o encara a todo tempo (mesmo ele estando de costas e sem conferir se ela está mesmo lhe observando ou não), porque já está pensando nas possibilidades da oficina, nos dias e horários, etc, etc. Porque, novamente, ela é mulher discreta e prática, e também uma profissional séria. Vamos combinar que a diretora também pode ter sugerido estes detalhes. Mas eu digo a vocês que, se fosse assim, a performance de Moscovis também deveria ser natural, o que não aconteceu.

O sorriso de Gerbelli.

Cena 3: Danilo e Márcia vão tomar banho no riacho, e conversam um pouco sobre a clínica, a peça, e afins.

É a melhor cena do filme. Não apenas pela escultural Vanessa estar de maiô. Aqui, após conversarem sobre a oficina de teatro e assuntos correlatos, Danilo de repente dá um mergulho e, quando volta, aprecia o corpo de Márcia e comenta (a frase é ridícula, mas necessária):

- Sabe que te vendo assim eu não entendo porque é que a gente terminou?

Não sei se transcrevi exatamente, mas a idéia é essa. Com tal frase, descobrimos o óbvio: eles já namoraram. Digo óbvio não por ser óbvio de fato, mas pela atuação de Vanessa até ali já denotar isso. Tudo bem que isso aqui tenha a ver com a criação da personagem, mas foram os olhares e a postura da atriz que me fizeram concluir que eles já tiveram um caso. Porque: o máximo que a gente pode encontrar num roteiro é “olhe pra ele como se já tivesse sido amante dele”? Não sei. Só sei que a partir daí eles começam a brincar. Ela alega que terminaram porque ele a trocou por outra de biquíni (fala patética, mas Vanessa não tem culpa); isso e aquilo; Danilo pede beijo; ela nega, o chama de sacana, cínico; tudo na brincadeira, aos risos. Agora são só amigos. Mas eu percebi que ela estava se sentido desconfortável, como se ainda gostasse dele e, por mais que estivesse se saindo bem na situação, provavelmente estaria pensando “Ele não tem o direito de fazer isso comigo, esse sacana”; orgulhosa que é, não poderia demonstrar esse ressentimento. Tive essa suspeita. E é aí que está: não assisti a uma cena da vida real, e aquilo não foi documentado; um filme não é a vida real; é um projeto fechado, e tudo que se encontra ali precisa de um motivo, precisa ser concreto, porque foi concebido. Porque foi idealizado por uma mente humana e, com isso, automaticamente passou a ser definido em todos os aspectos. Na teoria, não se pode existir suspeitas, porque uma coisa é o que ela é e acabou. Mas aí entram as grandes obras: os filmes-livros de final aberto, as ambigüidades, os efeitos sensoriais das canções, as abstrações das pinturas, a falta poética de plenitude. E como demonstrar essa abertura através de uma atuação? É praticamente impossível, porque está tudo no roteiro – descrito, impresso e não-questionável. Só os bons conseguem levantar uma suspeita. E Vanessa Gerbelli o fez. O daqui foi: será que ela realmente está ressentida ou de fato são amigos e está tudo na boa? Se fosse má atriz, ou nos deixaria com a impressão de que sim, ficou ressentida, ou o contrário; ou seja: não deixaria a dúvida. E incutir uma dúvida dessas no espectador não pelo roteiro mas pela postura, é uma das maiores qualidades que um ator pode possuir. Talvez a diretora tenha indicado tudo isso pra Gerbelli. Mas, como dizem por aí, falar é fácil. E, além do mais, eu digo a vocês que, se fosse assim, a performance de Moscovis também deveria ser natural, o que não aconteceu.

Gerbelli e seus braços perfeitos (e os contornos do pescoço) (e as saliências dos ossos). E o colo.

Cena 4: Márcia pega Moscovis em flagrante. Ele estava prestes a fazer sexo com a provocante Aline (a também provocante mas péssima atriz Milena Toscano).

Após mandar Aline embora, Márcia começa a discutir com Danilo. Este diz que foi Aline quem provocou. Márcia rebate: “Você não é criança, Danilo” (não exatamente). Nessa fala, ela imprime quatro tons ao mesmo tempo: 1) o tom do sermão materno, como boa amiga que é 2) o tom pessoal, por questões de princípios, por não acreditar em homens que apelam para argumentos desta natureza 3) o tom do ressentimento, por ainda gostar dele e achar que poderia haver algo entre os dois novamente, devido àquela cena do riacho em que houve as brincadeiras 4) o tom da raiva por ter se iludido novamente, por ter demonstrado fraqueza, sendo ela a mulher forte que é (ou que assim se considera). Será que dar 4 tons simultaneamente numa só fala é fácil? Ou será que estou vendo coisas demais? O tom de Moscovis, do contrário, foi bem previsível e novelístico (a cena em si é horrível, bem de novela mesmo). Quando Danilo tenta falar novamente, ela o interrompe e lança um arrepiante “Cala a boca.”. Sem exclamação. Voltei a cena umas dez vezes. Valeu a pena ter agüentado um filme tão ordinário.

Gerbelli parecendo a Elizabeth Savalla.

NOTA:


* A maioria das fotos do post foram retiradas do já referido fansite da atriz.

5 comentários:

Lisbela disse...

eu acho que vc tá gamadão na Vanessa Gerbelli. Tudo bem que o filme não é lá essas coisas, mas dar todo o crédito a ela como salvadora do filme não é um exagero?!

Daniel Oliveira disse...

Lisbela, se eu lhe conhecesse e tivesse a oportunidade de lhe emprestar esse filme, você iria ver que eu não exagero nem um pouco.

Aliás, Gerbelli nem salva o filme; a única coisa que ela salvou foi a vida do aparelho de dvd: se não fosse por ela, eu certamente teria quebrado o coitado, de tanta raiva que senti.

lisbela disse...

tudo bem daniel. ao menos serviu pra algo...

Luciano Cenci disse...

é rapaz, deu bandeira...
Mas ela é demais mesmo! E eu a vi um dia numa cena muda pegamos elevador juntos. Ela tinha feito 1 novela até então e eu já notara sua beleza e talento. Ela brilha mesmo. Naquele minuto no elevador, a sós, ficamos comtemplando a muda reação: eu contemplando tentando disfaçar, ela curtindo quase sem disfaçar...
gostei do blog.
Abs!

Anônimo disse...

Ela continua linda! Na verdade, eu diria, encantadora. Na novela "O cravo e a rosa", apreciei muito seu papel de caipirinha malvada!
Na vida real, acredito que ela tenha uma personalidade forte e muito humana.
"Bela obra de arte".

Obs.: Se ela ler esse blog; beijinhos! (JH)