quarta-feira, dezembro 3

Paris não tem fim - ENRIQUE VILA-MATAS (COSACNAIFY, 248 pág.)


Daniel, companheiro de infortúnio moedotecário, costuma proclamar Philip Roth como aquele que, entre os autores vivos, melhor sabe dar início aos seus romances. Perfeitamente compreensível - mas peço licença, no momento, para citar longamente a Enrique Vila-Matas em suas introduções.


De Bartleby & companhia:

"Nunca tive sorte com as mulheres, suporto com resignação uma penosa corcunda, meus parentes mais próximos estão todos mortos, sou um pobre solitário que trabalha em um escritório pavoroso. De resto, sou feliz."


E, mais demorado, de Paris não tem fim:


"Fui a Key West, Flórida, e me inscrevi na edição deste ano do tradicional concurso de sósias do escritor Ernest Hemingway. A competição aconteceu no Sloppy Joe's, o bar favorito do escritor quando vivia em Cayo Hueso, no extremo sul da Flórida. Não é necessário dizer que participar desse concurso - repleto de homens robustos, de meia-idade e com vasta barba grisalha, todos idênticos a Hemingway, idênticos inclusive em seu aspecto mais estúpido - é uma experiência única.

Há não sei quantos anos venho bebendo e engordando e acreditando - contra a opinião de minha mulher e de meus amigos - que cada vez mais me pareço fisicamente com meu ídolo de juventude, com Hemingway. Como ninguém nunca me deu razão nisso e tenho um caráter muito forte, quis dar uma lição a todos e, provido de uma barba postiça - que achei que melhoraria minha semelhança com Hemingway -, me apresentei ao concurso neste verão.

Devo dizer que passei por um vexame espantoso. É que fui a Key West, concorri e fiquei em último ou, melhor dizendo, fui desclassificado, e o pior de tudo é que não me afastaram da competição porque descobriram a barba postiça - pois não a descobriram -, e sim por minha 'absoluta falta de semelhança física com Hemingway'"


Como este é um ambiente amigável e pacífico, posso confirmar que, ao ler os romances citados, demorei-me nesses trechos iniciais. É que eu ria sem parar. Por situação semelhante eu já havia passado em alguns poucos livros: todos de Machado, alguns de Eça, outros que não me recordo. Devo explicar que não me proponho a comparar o autor catalão com Machado ou Eça? Talvez. Pois, muito embora se iniciem tão bem, os livros citados não se sustentam dessa forma por longo tempo. Trata-se, sem dúvida, de um risco compreensível e aceitável - a obra de Vila-Matas é experimental e, ao que parece, encontra-se ainda em desenvolvimento. De Bartleby & companhia a Paris não tem fim, por exemplo, há uma tremenda evolução.


Os dois se erguem de um gênero híbrido - qualquer coisa entre o romance, as memórias, os diários e, sobretudo, o ensaio. Portanto, seus temas são literários, seus personagens são eruditos e sua obra, por fim, parece destinada apenas aos iniciados. Não acredito, porém, que o hermetismo seja um critério válido para valorar qualquer obra - trata-se, sem dúvidas, de algo a ser considerado numa análise, mas não é, em si mesmo, um aspecto que a condene ou a eleve. Até porque, ao fim, Vila-Matas nunca flerta com o incompreensível ou com a esterilidade do que é meramente livresco.


O narrador de Paris não tem fim é um experiente escritor catalão. Que faz uma conferência sobre sua juventude em Paris. Que escolhe a ironia como viés e método analítico dessa juventude. E que, nessa revisão memorialística, refere-se a inúmeros pontos em comum com a biografia de Vila-Matas: endereço, relações, leituras e o título de suas primeiras obras - A assassina ilustrada, de 1977. A narrativa, ao que parece, deveria se concentrar na elaboração desse romance de juventude, mas não é o que ocorre. Talvez porque o narrador estivesse mais preocupado em parecer um escritor, em encaixar-se em certos grupos intelectuais e políticos e em acentuar seu aparente desespero diante da existência do que em escrever sua obra.


Assim que Paris não tem fim parece dividir-se. Por um lado, busca-se as impressões e experiências juvenis - tolas e ingênuas, revisitadas por um adulto irônico e bem-sucedido. Por outro, não muito distante, o trabalho metaliterário, o trabalho de um leitor e escritor fiel a Jorge Luis Borges. O contista portenho se apresenta física e espiritualmente: em meados dos anos 70, o então jovem narrador toma conhecimento de sua obra e assiste uma palestra secreta dada pelo novo ídolo. Vai compreendendo, então, o valor daquilo que, numa obra literária, é puramente imaginação; aquilo que é até mesmo falso: a invenção que diminui o valor da escrita que sai da experiência vivida, a escrita da qual Hemingway sempre foi símbolo. A proposta do romance já é essencialmente borgiana: narrador e autor se confundem, fatos e falácias biográficas coexistem, citações e referências inundam as páginas - o insólito também existe e também é aceito.



A reflexão literária, tema principal na obra de Vila-Matas (e aqui me vejo querendo citar autores centrais na literatura de língua castelhana neste começo de século - seja Bolaño ou Fresán) confunde-se, obviamente, com reflexões mais genéricas - daí que sua inconsistência ao escrever o primeiro livro resulta num símbolo que qualquer um pode transpor para qualquer outra situação de imaturidade e busca de um norte; daí que sua preferência (quase necessidade) pela vida no exílio encena uma escritura que se cria diante de uma indefinição identitária. Por isso, afinal, sua relação com a Espanha, enquanto vive em Paris, soa farsesca: enquanto os compatriotas sofrem sob a ditadura franquista, ele permanece numa estranha espécie de alienação (toma posições políticas apenas por obrigação, utilizando-se de critérios absurdos), muito embora comemore imensamente a morte de Franco.


Seus capítulos, assim como ocorre em Bartleby & companhia, costumam encerrar-se em narrativas quase autônomas (com as devidas exceções) - e é bem claro o desnível que há entre alguns deles. Entre os mais bem-acabados, destacam-se o registro de suas impressões de personalidades como Julio Ramón Ribeyro e Marguerite Duras. E, assim como pedi licença para iniciar com citações, aviso que terminarei da mesma forma, trazendo um dos trechos mais surpreendentes de Paris não tem fim - trecho que, acredito, demonstra bem o poder que a literatura (ou, mais ainda, a figura do escritor) tem para o autor e, em certa medida, deve ter também para o leitor. O narrador, em certa caminhada, vê Samuel Beckett:


"Nunca previra que pudesse encontrá-lo. Sabia que não era um clássico morto, mas alguém que vivia em Paris, mas sempre o imaginara como uma presença escura que sobrevoava a cidade, nunca como alguém que uma pessoa encontrasse desesperado, lendo um jornal num velho parque frio e solitário. De vez em quando virava a página, e o fazia com uma espécie de raiva tão grande e uma energia tão intensa que não estranharíamos nada se o Jardin du Luxembourg tremesse inteiro. Ao chegar à última páginas, ficou entre absorto e ausente. Dava mais medo que antes."


A idealização anterior à visão de Beckett não se estilhaça diante da realidade - ao contrário: o que antes era uma sombra escura cobrindo Paris torna-se um homem desesperado que faz tremer a terra. Entranhando os autores à cidade (seja Hemingway, Beckett ou Duras), Vila-Matas tenta esclarecer a relação que, em seu imaginário, existe entre as duas entidades - daí que não é possível, em sua arte, tratar de uma sem tocar na outra.


NOTA:

2 comentários:

Tobias disse...

Minha humilde contribuição para a lista de bons primeiros parágrafos: "E que tal uma chaleira? E se o gargalo abrisse e fechasse quando o vapor saísse, funcionando como uma boca que pudesse assobiar melodias bonitas, recitar Shakespeare ou simplesmente rachar o bico junto comigo? Eu poderia inventar uma chaleira que lesse com a voz do Pai para me fazer dormir, ou talvez um conjunto de chaleiras que cantasse o refrão de 'Yellow Submarine", que é uma música dos Beatles, que é uma banda que eu adoro porque a entomologia é uma das minhas raisons d'être, que é uma expressão em francês que eu conheço. Outra coisa boa seria se eu pudesse treinar meu ânus para falar quando eu peidasse. Se quisesse ser extremamente hilário, eu o treinaria para dizer 'Não fui eu!', toda vez que soltasse um peido incrivelmente forte. E se um dia eu soltasse um peido incrivelmente forte no Salão dos Espelhos, que fica em Versalhes, que fica nos arredores de Paris, que fica na França, obviamente, meu ânus diria 'Ce n'étais pas moi!'". (Jonathan Safran Foer, Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, Rocco, Trad. Daniel Galera)

Miguel Mendes disse...

Exmos senhores,

Gostaríamos de informar que no mesmo dia da estreia de “Sentido Portátil”, pelas 18h30 Enrique Vila-Matas estará presente no CCB para “café Perec” - um encontro com escritor.
Para mais informações poderá aceder ao nosso site:

www.jumpcut.pt