domingo, dezembro 7

Prestação de contas

Tempos de juventude: Astrud e João Gilberto nas míticas areias de Ipanema

Ao escrever aqui sobre o meu ligeiro afastamento do blog, prometi que publicaria um extenso especial sobre o João agora em dezembro, não foi? Bom, não deu. Minhas obrigações de vestibulando, concursando e pseudo-jornalista não me permitiram dedicar atenção suficiente ao mestre, e como também nos últimos tempos, admito, fui deixando de ouvi-lo com a freqüência que lhe é imperativa, decidi adiar o projeto para fevereiro, quem sabe, quando toda esta circunstância mais pragmática de estudar química, física, arquivologia e leis como a 6.677 do estatuto do servidor público terá chegado a um final feliz. Não fiquem bravos comigo.

21 comentários:

Marques disse...

QUE PENA!Mas a vida é assim mesmo, é feita de escolhas. Irei aguardar ansiosamente.

Pietro Vasconcelos disse...

eu gosto muito de musica e até gosto de ouvir PRA MACHUCAR MEU CORAÇÃO sendo interpretada por joão gilberto, creio que mais pela beleza da musica que apenas por sua interpretação. mas uma coisa que me deixa encasquetado é esse culto que estão fazendo dele. quando vejo alguém dizendo que esse cara é um gênio eu penso comigo: será que é e eu não vejo? qual a graça da bossa nova, qual a graça da melodia do barquinho, por exemplo? onde está a beleza daquilo? eu não achei ainda. serão os valores da bossa nova puramente musicais? se for, é coisa apenas para musicos então...
em se tratando de poesia, há por exemplo verlaine e outros poetas parnasianos que se ultilizaram muito mais da forma e no entanto pouco disseram além disso. hoje são lembrados mais como peças de museu que lidos. será que não há algo disso na bossa nova? sei que a melodia na musica é primordial, mas não seria essa melodia de certa forma pobre por se apresentar tão complexa e ao mesmo tempo vazia? vai ver é gosto..não me tenham como um ignorante da musica´, ouço do erudito ao popular e sei que há algo que liga essas duas denominações: o poder criação. não vejo isso na bossa nova..aliás, as letras de bossa nova refletem intimamente o espírito da musica: "um banquinho um violão, esse amor, uma canção...etc etc.
li os especiais de musica do rodrigo e os achei bastante inteligentes por irem em busca dos valores de que falo. com ele foi mais fácil, pois o encantou obras como a de bob dylan e elomar. creio que o eder não escreveu sobre o joão porque não há muito a acrescentar ao que já foi dito. eu mesmo me encontro como o eder: não tenho muito de bom a falar sobre esse "mestre".
o que voces acham disso? será que falei besteira?

P. V. disse...

em "o poder criação" leia-se "o poder da criação".
valeu

Rodrigo L. disse...

Tentarei algo. Quem me conhece sabe, mas quem não me conhece saberá agora: não sou um grande entusiasta de João Gilberto - o que não significa que não o escute ou não o ache um músico espetacular. Meu problema é com a bossa nova, problema que não diz respeito à música, mas ao meu temperamento. O que é o Vinicius de Moraes da bossa nova perto do Vinicius de Moraes dos afro-sambas? Pra mim, não muito, quase nada.

Mas, voltando a João, entendo sua idéia de que ele é muito bom para músicos, mas não acho que isso caracterize a bossa nova como estilo: muita gente escuta a bossa, seja músico ou não. É um repertório que, de certa forma, transcendeu a condição de mera composição perfeita (algo que, convenhamos, não é pouco) para virar melodia e verso populares de verdade, indissociáveis de certa época, certa gente, certas situações. E sabemos o quanto isso é importante em música popular - às vezes, mais do que a própria canção.

Concordo que é muito díficil acrescentar idéias novas às interpretações de clássicos como João Gilberto, mas é possível. Eu trataria de apelar apaixonadamente ao interesse ou gratidão que sentisse por ele, caso fosse escrever algo. Talvez se trate da única maneira de explorá-lo de forma original, já que tecnicamente ele já foi tão bem descrito.

Ederval Fernandes disse...

Caro Pietro, eu entendo seu ponto de vista, mas discordo. João Gilberto é sim um mestre. Posso começar lhe dizendo que essa maneira sincopada de tocar o violão no samba, inédita e impensada até então, foi ele quem inventou. Se isso lhe parece insignificante, vale lembrar que tal batida foi determinante para que a música popular brasileira saísse de um estágio regional, para ganhar ares ainda mais universais. Mas como? João ao dialogar o samba com o jazz, deu a entender que o ritmo é universal e que um rótulo serve apenas para amordaçá-lo. O rótulo “bossa-nova” serve apenas para sugerir um bando de babacas engravatados, filhos da pequena burguesia carioca, regados a uísque, saudosistas de uma certa praia, certa garota e certo barquinho que singra no mais azul dos mares. É óbvio que pensar assim é reducionismo. A bossa-nova em si não existiu, o que existiu e existirá é o legado inigualável de João (e outros como Jobim, Donato, Lyra) para as gerações seguintes — por que diabos gente tão boa como Gil e Caetano foram fãs confessos de João? Dê mais uma chance a João, ouça especialmente os discos em que ele e sua musicalidade estão ainda mais maduros e sóbrios. Indico-lhe os discos ao vivo para que perceba outra genialidade de João: nunca repetir, eu disse NUNCA repetir uma canção exatamente como ela é. João sempre achará outro prisma para fazer daquela canção algo inesquecível.

Ederval Fernandes disse...

Correção:

*de um estágio supostamente regional, para ganhar ares ainda mais universais.

Ederval Fernandes disse...

Complementação:

Esse "legado inigualável" que refiro foi o de entender que a música não tem barreiras.

Legado que, inclusive, levou Gil e Caetano a criar esse monstro chamado tropicalismo que até hoje a música popular brasileira sente suas consequências.

Pronto, minha resposta termina aqui.

Pietro disse...

realmente, realmente. joão gilberto fez algo interessante ao dialogar o samba com o jazz, como você disse. mas, acho que o valor dado à sua figura é bastante exagerado. o que ele fez parece ter sido coisa de outro mundo, na visão de muitas pessoas. mas pra mim ele não passa de um grande musico e intérprete, dos que quase nunca ouço pra dizer a verdade. certa vez, ouvi alguém dizer que segundo caetano veloso, joão gilberto era a melhor coisa que tinha aparecido no brasil. não sei se isso foi realmente dito, mas têm gente que o vê realmente como alguém digno de estar neste patamar. em se tratando de musica, isso é colocar figuras muito maiores como pixinguinha, villa lobos e até outros compositores populares como wilson batista, noel ou cartola por baixo...não vejo americanos colocando tony bennett em tão elevados patamares. a diferença é que joão revolucionou, era musico extremamente tecnico, criou a batida incrivel e sincopada, etc etc. mas, subverter nem sempre é ser bom. por isso os dois soam iguais para mim. talvez não ouçamos musica da mesma maneira. enquanto você vai diretamente a certos aspectos, eu procuro outros. como eu disse, deve ser questão de gosto mesmo, e até me arrependo de ter iniciado a discussão.
e quanto ao tropicalismo, ele não é nenhum monstro. aquela misturada toda ia acontecer de qualquer maneira na musica brasileira, com joão gilberto ou sem joão gilberto. a diferença é que apareceu um esperto e fez disso quase uma escola(sic). concordo com mario de andrade que disse que estes movimentos são coisa da burrice de muitos para a vaidade de um só. bem sabemos quem é esse um só no tropicalismo: gil, caetano, gal, mutantes, e lá se vai..
esse processo aconteceria inevitavelmente, só que não dessa forma exagerada e organizada que é conhecida como tropicalismo. a grandeza da musica independe dessas denominações mesmo e não são todas as melodias de caetano veloso que serão lembradas como Sampa..um "gênio", que é como caetano é tido muitas vezes, não faria coisas tão ruins como ele fêz. e o pior: muitos o consideram poeta maior, como muitas vezes ouvi mulheres e até alguns homens dizerem (sic). tem gente se arrepiando ao ouvir versos pseudo-geniais como: sou mulato nato no sentido lato da palavra.
me lembrei de ter ouvido lulu santos, esse artista pop sem graça, dizer em jo soares que se considerava um artista pós-tropicalista. ele não me lembra muito tropicalismo, mas é um pós tropicalista sim. guarda características daquela coisa que existiu graças a "eles". tudo é lindo. tão lindo que hoje em dia há uma certa ditadura na musica popular e quem não é meio tropicalista é colocado de lado. quem vier com um lindo samba, pode nao ser visto porque não está enquadrado naquilo que é new. mas, o engraçado é que todo mundo sabe que não há quase nada novo aparecendo na musica brasileira, pelo menos nos holofotes. estranho isso não? gente que idolatra caetanismo acima de tudo é o tipo que ama as ditaduras, inclusive as musicais, e faz isso com a permissão de ser considerado multi-culturalista.
estou me referindo a caetano, que é como um porta voz disso tudo. e não pensem que abomino todas as musicas que esse pessoal fez. há sim coisas interessantes às vezes. mas, às vezes. há muito exagero no que dizem sobre eles.
mas caetano é inteligente. já disseram tanto que ele é gênio que ele acreditou. já perdi a conta de quanta gente o próprio caê disse ser também genio: é o tchan, ivete sangalo, calipso, psirico. enfim, todo mundo é genial!
vi num documentário alguém dizer que fãs de jazz condenavam charlie parker por ouvir country. quer dizer, musica nos toca e não sabemos por que muitas vezes. e eu acho que por causa desse mistério que é a musica, é muito mais difícil que hajam mestres ou genios da musica. eles existem, e pra mim joão gilberto é um dos que na minha opinião, não pode ser um deles. ele é sim, mestre de um coisinha que criaram pra ele. todo mundo diz que joão gilberto é isso e aquilo, e acaba que é sem ser.
não pense que sou um sujeito ultra-conservador. ouço inclusive muita musica pop. mas, não estou preocupado em coroar os gênios de cada um.
fiquemos satisfeitos com o que nos agrada.
prometo que nunca mais perco meu tempo falando disso..
abraço

pietro disse...

não tinha lido o que o rodrigo escreveu. pois é, creio que o que há de mais interessante trascendeu e com certeza está impregnado no imaginário brasileiro. há coisas bonitas..
mas eu prefiro um artista como bob dylan, que justifica com sua obra o que ele mesmo afirma: um artista não pode chegar a um ponto em que pensa que ja viu tudo.
talvez bob dylan tinha esgotado certas possibilidades e se viu obrigado a buscar. não admiro o tipo joão gilberto que faz a mesma coisa à anos..
vi alguém no programa provocações indignado com o fato de ter visto uma pagina inteira dedicada ao show de joão gilberto no jornal. segundo ele, o brasil vive em estado de jequice cultural. é, não deixa de ser uma verdade..

Rodrigo L. disse...

Pietro, não há dúvidas de que o Brasil vive num estado de jequice cultural, mas não acho que uma página dedicada a um show de João Gilberto seja sintoma disso. Não sou muito partidário de um discuso que prega a novidade a qualquer custo, como talvez seja o do entrevistado que falou isso no Provocações (não vi o programa, estou comentando através de sua referência). As reinvenções de Bob Dylan, que você citou, também me agradam - assim como as dos Beatles ou as de, sei lá, André Breton. Mas existem artistas que mantêm uma produção constante (no sentido de pouca variação) que também conseguem dizer algo novo - penso, por ora, em Milton Hatoum, Luiz Gonzaga, Nelson Rodrigues, etc. Nunca pensei se esse é o caso de João Gilberto - por não escutá-lo muito e com a devida atenção, deixo que você e Eder debatam isso.

p. disse...

Isso mesmo. há artistas que mantém uma produção constante e fazem algo novo sim, mas não é mesmo o caso dele.
acho que o que me incomoda de certa forma é esse joão gilbertismo e caetanismo que se instalou. creio que isso desfigurou um pouco o cenário de musica popular brasileira, e a canção popular perdeu aquela inocência que lhe é característica. a letra, coisa essencial nesse tipo de musica, foi trocada por, no caso de caetano, por uma poesia ôca. isso de certa forma contribui também para banalizar a boa poesia.
há certas musicas de caetano e outros que parecem feitas de isopôr. não há sentimento entende? sinto isso. há apenas uma preocupação em criar uma coisa bem feita, o que nem sempre acaba acontecendo. há muito de concretismo nisso.
mas, é uma pena. sinto falta de algo como aqueles causos das musicas de jackson do pandeiro, ou do humor cronista de noel e adoniran ou da metafísica aparentemente despreocupada do “samba abstrato” de paulo vanzolini, tudo isso bem acompanhado de melodias bonitas.
parece que isso foi trocado por uma musica mais técnica, então, o que mais há é isso hoje em dia. musicas com enfeites demais e pouco a dizer.
vi alguns dos documentários produzidos por martin scorsese da série the blues. aquele tipo de gente como skip james, que diz algo que sai realmente de dentro da alma tá em extinção.
isso não significa que a canção popular tenha que ser totalmente feita naqueles padrões, mas sim resgatar a beleza que dela deve ser inseparável. creio que se pode fazer uma musica nova que tenha verdade. mas, parece que isso tá difícil...

Ederval Fernandes disse...

Bom, Pietro, lendo seu comentário, chego a duas conclusões: a primeira é que você tem postura bem contrária ao cânone da bossa-nova e a segunda é de uma preocupação acentuada de como as pessoas inventam e lidam com possíveis ídolos (João, Caetano...). Enfim, precisei compreender essas duas dimensões essenciais do seu pensamento para lhe dizer primeiramente que desprezo todas as duas. O cânone da bossa pra mim é indiferente, tanto quanto o fato de pessoas idolatrarem quem quer que seja. Pouco me importa que se idolatre Ivete Sangalo ou Cartola (particularmente prefiro Cartola), tudo é válido, o mundo é das possibilidades, porque o maniqueísmo é uma camisa de força.

Eu acho João um mestre porque conheço profundamente sua obra para afirmar que sim, ele é um mestre e me afino muito com ele. Antes que eu e você possamos conversar a sério sobre João Gilberto, se faz necessário, para um diálogo franco, saber quanto da obra do João você conhece. O fato de você ter dito que ele faz “mais do mesmo” há anos é um tanto agravante, porque demonstra um alheamento sobre a sua discografia básica. E acho que se a crítica é válida, ela tem de ser no mínimo fundamentada. Fica complicado eu citar certos caminhos, certos nortes que a música gilbertiana foi tomando sob a influência do tempo, e que me agradam sobremaneira, se você simplesmente ignora tais trabalhos. Talvez a bossa-nova tal como a conhecemos pelo cânone se restrinja ao LP “Chega de Saudade” e seus três discos posteriores (discos de João), mas a obra de João é vasta, vária e complexa.

Ederval Fernandes disse...

Continuação:

Você já ouviu falar do termo “minimalismo”? Com um leque reduzido de possibilidades, determinado artista busca tirar dali o máximo possível. João fez isso com seu repertório. Ouça a própria canção “Chega de Saudade” nas versões que se encontram no disco de 59 e no de 2000 e tente perceber o que eu estou falando. Entenda, não estou pedindo para você gostar de João, pedir isso é como rasgar dinheiro, estou dizendo apenas que é necessário você entender a arte de João para dizer a partir daí se gosta ou não gosta dela. Se você simplesmente não consegue ouvi-lo, paciência. Há muitos artistas no mundo e você parece não ignorar isso. Procure um que se afine mais com seus desejos estéticos. Você não pode dizer, porém, que por não compreender certa manifestação de um artista, ou compreender apenas uma mínima faceta estereotipada, que ele não seja digno da alcunha de gênio ou sei lá qual outro adjetivo.

Vou ser bem direto: você conhece o que da obra de João Gilberto para dizer que ele faz a mesma coisa há anos?

Quanta às outras questões que você colocou, sobre Tropicalismo como sendo movimento de um só, citando o mesmo Mário de Andrade que capitaneou o movimento do “modernismo” paulista de 22 que se pretendia completamente brasileiro (é mentira?), a glorificação de Caetano Veloso por parte de “mulheres e até alguns homens” (frase machista, vale ressaltar) como um poeta maior, não vou entrar nesses pontos porque a nossa conversa não teria fim. Acho Caetano um excelente artista, apesar de ter algumas restrições à sua pessoa pública, um polemista “fatal”, embora prefira Gil em todos os âmbitos. Na realidade, para efeito de comparação, prefiro Gil a Bob Dylan, primeiro porque esteticamente Gil não ficou preso a uma nação, sua nação em termos estéticos sempre foi a sua raça e talvez até essa condição ele tenha transcendido. A música de Gil é essencialmente africana (coloque a partir daí tudo que você entende por jazz, soul, rock, blues, samba, forró, maxixe, batude de candonblé, banda de pífanos, reagge), sem, contudo, desprezar os outros lados da musicalidade humana, o lado saxão, por exemplo, quando Gil ouviu a música universal de Sgt. Peppers dos Beatles. Nesses termos Dylan, que você diz aí um artista irrequieto, sempre preferiu andar pelo terreno seguro do cancioneiro americano. Ou Dylan já gravou algum forró ou alguma polca? Pelo que eu sei, Gil tem alguns blues muito bons. Mas enfim, não estou aqui depreciando Dylan, artista que também admiro e entendo tão gênio quanto João Gilberto que, assim como ele, Dylan, se fez universal por sua capacidade de ser genuinamente nacional. E olha que João ainda gravou músicas da cultura espanhola, italiana, dentre outras.

Davi Lara disse...

Pietro, venho acompanhando a discussão e, de mais a mais, me mantive afastado, mesmo sendo um admirador confesso de João Gilberto e Caetano (nomes centrais desta discussão). A princípio, pareceu-me tolo interferir no diálogo para discutir os méritos de um ou outro. Digo, alguém não gostar de João nem de Caetano ou do rumo que a música brasileira tomou por influência deles é algo, para mim, mais que válido: é sadio. Em contraponto, discordo com algumas concepções que você expressou acerca destes dois artistas, confundindo, ao meu ver, influência com "ditadura" e projeção pública com "vaidade".

Quanto ao que diz respeito aos movimentos, bossa nova e tropicália, referindo-se ao segundo você evocou Mário de Andrade, que não li (portanto, vou me prender ao que você disse), para afirmar que o que "aquela misturada toda ia acontecer" com ou sem Caetano, com ou sem João.

Um ponto: Não me sinto habilitado para dizer o que "iria" acontecer. Quanto ao que aconteceu, acho que qualquer tentativa de desligar a importância desses dois movimentos, principalmente esses dois nomes (João e Caetano), ao destino da nossa canção é um trabalho inútil. Como já disse, respeito que não gosta deles e mesmo milita contra o que eles representam, mas que eles representam muito é inegável. Esta própria discussão é prova disto.

Outro ponto: o termo "misturada" no seu texto tenta dar conta de tudo que o tropicalismo promoveu numa só palavra. Eu acho que para falar a sério da tropicália é precits ter em vista a complexidade do movimento. Alguma espécie de "misturada" aconteceu. Mas não só. admitir isso seria taxar com inútil muitos trabalhos sérios de gente competente Brasil afora sobre o assunto que apontam outras vários aspectos do mesmo fenômeno. Fique claro, que não estou dizendo que você não conheça o tropicalismo por ter se referido a ele deste modo; nem poderia, pois a discussão ainda está, a meu ver, bastante superficial. O formato ultra-rápido de blog, inclusive, às vezes nos obriga a certas condensações. O que estou dizendo é que, em virtude da complexidade da Tropicália, eu não me sentiria a vontade em simplismente concordar que foi um simples golpe de oportunismo a invenção de um movimento organizado. O que de oportunismo houve na atitude de "uns poucos" sempre apontou, na verdade, para a contra-mão do óbvio. Natural ou não, a tropicália encontrou um terreno bastante hostil na época.

Indo por esta mesma linha, acho ingênuo o que foi dito dos movimentos, principalmente quando referente ao tropicalismo: "estes movimentos são coisa da burrice de muitos para a vaidade de um só" (grifo novamente que nada li de Mário de Andrade a respeito, e limito-me ao que foi citado"). Sempre achei que a principal influência da cultura pop na tropicália dizia menos respeito aos elementos estéticos, como as saturadas guitarras, e mais na postura pública que, dentre os tropicalistas, os mentores Gil e Caetano sempre assumiram. O fato destes dois terem consciência da própria situação de membros-cabeças de um movimento organizado os fizeram vestir a personagem de ídolos, como são os astros de holiwoody. No brasil, o cinema é correspondido pela música e o artista é confundido com a própria celebridade das culturas de massa.

Não concordar com essa postura e preferir, por exemplo, o alheamento de um chico Buarque ou a é válido. Mas estes tropicalistas tinham muito mais que "vaidade" os estimulando quando assumiram sem maiore3s problemas a postura de astros e hoje de cânones. há todo um discurso negligenciado no que você disse.

De certo modo, o joão gilbertismo e caetanismo que se instalou é nocivo, principalmente quando alguém inclui estes "-ismo" aos seus nomes. Só acho que a solução não é arrancar está página da nossa música que é, você goste ou não, fundamental. Tire-se os -"ismos". A oposição entre tropicália e o samba, por exemplo, é coisa que esteve sempre mais no imaginário público do que na postura artística dos tropicalistas. Para ser justo, devo lembrar a postura de Tom Zé, que desde da década de sessenta chamava Chico Buarque de seu avô. Mas, ainda por justiça, devo lembrar a postura de Caetano, sempre respeitosa, mesmo quando provocante, para os âmbitos da música brasileira que costuma-se opor a ele próprio. Caetano é mais simpático a um Cartola que a um Tom Zé no fim das contas.

(Opcional) Mas, mesmo assim o possuo. disse...

Já que a luta de ego entre vocês foi tão bonita, quero engrandece-la com um egocentrismo mais aforístico. Defenderei o que, pessoalmente, me agrada mais, que é fazer o mesmo que vocês fizeram, só que dando um toque mais literário.

Conclusões:

1- Dylan é maior que Caetano, Gil e João Gilberto, mesmo sendo sua obra muito mais ligada a cultura nacional.

2 - Gil, Gilberto e Caetano são menores que Dylan, mesmo tendo eles ido ao encontro de outros ritmos e culturas(desculpem por repetir a primeira conclusão).

3 - Brasileiro, assim como música, é maior e menor até quando é a Sinfonia número 9 de Beethoven.

4 - É óbvio que Dylan é muito maior artista, sempre volto a ele e isso não é pouco porque tenho muito bom gosto.

5 - Caetano, Gil e Gilberto foram ouvidos por mim, mas foram sumindo com o tempo. Como eu disse, meu gôsto é um gosto muito bom, e se algo some dele, é algo de que o mundo ideal não precisa.

6 - Em meu mundo não há gravatinhas, banquinhos, e essa coisa arrumadinha em acordes dissonantes(Desculpem o paradoxo).

7 - Eu condeno o machismo, mas o machismo do Pietro, além de ser feio, é verdadeiro nos dois sentidos.

8 - Eder e Davi formam um anagrama muito engraçado: REDEVIDA.

9 - O Pietro é Nazista mas é HUMANO, DEMASIADO HUMANO.

10 - REDEVIDA são humanos, porém mais limpinhos.

11 - Prefiro Dostoievski a Jorge Luis Borges, mesmo crendo Borges mais perfeito.

12 - Impôr-se significa matar e morrer.

13 - Uma verdade dita por quatro idiotas pode ser a verdade de um mundo.

14 - A musica é a maior das artes.

15 - A musica é a menor das artes.

16 - O mau da musica moderna é que, ela não vem sendo feita apenas de musica.

17 - Não ouvir a musica das palavras é não saber ler nem ouvir. Mesmo assim, a poesia prejudicou a musica.

18 - Pietro é um Idiota.

19 - Rede e Vida são ligados por uma fita tênue. Mas ambos aparentam, e isso os torna comuns.

20 - Dorival Caymmi, ao compôr a suite dos pescadores, superou tudo o que Caetano, Gil, Gilberto e Tom Zé viriam fazer. Por isso, os ultimos são imorais.

21 - Entre os Imortais há os Imortais.

22 - Aquele que viu a cidade, nela soube estar sem nela estar.

23 - Quando o maior quer ser como o menor, é porque o menor pareceu justamente tão patriota quanto o maior não soube ser.

23 - (novamente) - Aquele que só se alimenta de queijos nem sempre será homem.

24 - Não necessitamos dizer a verdade. Por isso a digo.

25 - O que discutiu com embasamento, ousou esvaziar-se.

26 - A Voz de Elizeth Cardoso é linda porque não nasceu da barriga de um Bandolin.

33 - Os passos foram dados. Andemos sem pernas. Lá vai nossa sina.

25 - Aceitem o Post.

29 - Para que não morramos calados, precisamos morrer na hora certa.

Davi Lara disse...

O ato de escrever é secretamente associado à vaidade dos escritores - foi André Breton quem me disse isso, na nota introdutória de Nadja. Invoco esse pensamento para afirmar que o autor dos vinte e nove aforismos acima compartilha dessa concepção. Ao menos é o que entendi do uso que ele faz da palavra "ego", embora eu não faça a mínima idéia do que a palavra signifique descontextualizada.
Sendo assim, decidimos publicar o comentário, que realmente não carece de interesse, à despeito do anonimato. Pessoalmente, o anonimato me incomoda, pois não posso deixar de sentir curiosidade, mas por mais que isso. Eu simplesmente não poderia acreditar que você, autor dos aforismos, tenha tanta convicção do seu gosto como o diz. Afinal de contas, você não existe, portanto "seu" gosto não poderia existir.
E já que você ousou tanto e que ainda é um ectoplasma, diga-nos como é possível dialogar com um fantasma?

Fantasma disse...

Oi Davi. Obrigado por aceitar. Eu me diverti improvisando os aforismos, que ao serem lidos por mim agora, perderam muito de sua graça. O anonimato realmente me dói. mas, não posso simplesmente chegar aqui e dizer meu nome. eu não conheço vocês. Não sou amigo de vocês, tampouco inimigo declarado. Isso é um outro problema.
Gosto de aparecer aqui porque é sempre bom ver o que jovens interessados em literatura como eu tem a dizer. Gosto de ler os textos de Rodrigo L. e Daniel João, os do segundo são mais engraçados, mais esforçados (isso para mim é admirável), os do primeiro são mais sérios. Há nisso um admirar o ego alheio, que é meu ego também, por que não? Gostei de saber que isso estava em Breton, do qual li Nadja sem grande interesse. Hei de lê-lo de verdade numa hora destas. Sou um mal leitor. O meu maior interêsse em ler Breton foi a ligação que ele possui com Alfred Jarry, Lautreamont e Appollinaire.
André Gide diz algo parecido, que é necessário ser absolutamente, algo assim. Não estou interessado nisso por enquanto.
Subtraiam meu pedantismo barato.
Feliz Natal.

Daniel Oliveira disse...

Fantasma,

Se você não conhece a gente, como sabe que meu outro nome é "João", sendo que eu assino o blog com o nome "Daniel Oliveira"? E o que me impede de pensar que você inverteu a ordem dos nomes de próposito, só para se fazer de desentendido?

Ok, esqueça isso.

Não se preocupe que você não foi tão pedante: Lautréamont tem acento no "e" e Apollinaire só se escreve com um "p". E o "mal" utilizado no contexto (sou um mal leitor) é com "u", não com "l". "Interesse" não tem acento, muito menos com esse novo acordo ortográfico.

Como vê, não é tão fácil ser pedante.

Abraços,
João Daniel Guimarães Oliveira.

O Mesmo disse...

Eu realmente inverti seu nome de propósito.
Eu lhe conheço pessoalmente.
Não me preocupei com os meus erros, tampouco você. Só se utilizou deles para me dar um bom e interessante tapa na cara.
Eu gosto muito de você e fiquei magoado com o que disse.
Nunca mais escreverei para o blog, já que não tenho a intenção de me identificar.
me desculpem a covardia de não me identificar.
Abraços e tudo de bom!

Fantasma disse...

Daniel,

Se você não me conhece, como sabe que inverto seu nome para que você pense que o inverti de propósito, passando assim por esperto? Tenho assinado meus comentários com meu nome verdadeiro "Fidedigno".

Ok, esqueça isso.

Não se preocupe pois você não foi tão pedante: Lautreamont não tem acento no "e" e Apollinaire se escreve com 2 Pês. E o "mau" utilizado no contexto (sou um mau leitor) é com "l", não com "u". "Interesse" consta de acento no terceiro "E", como verificamos no novo acordo ortográfico.
Como vê, não é tão difícil ser pedante.

Abraços,
Seu Mais Novo e Desobediente da Silva Aluno

Daniel Oliveira disse...

Ora, "Fantasma", pode continuar escrevendo no blog; são até interessantes seus comentários! Eu só estava brincando. Até porque nesse post - http://moedoteca.blogspot.com/2007/08/interpol-our-love-to-admire-2007.html - , nessa declaração de férias de Eder - http://moedoteca.blogspot.com/2008/09/declarao-de-frias.html, nesse texto sobre uma enquete de Davi - http://moedoteca.blogspot.com/2008/09/resultado-da-5-enquete-do-moedoteca.html - e nesse meu post - http://moedoteca.blogspot.com/2008/10/pastiche-moedotecrio-post-la-maupassant.html - eu e meus colegas se referem a mim mesmo como JOÃO DANIEL, então supus que você tivesse tirado meu nome daí.

Mas como me conhece pessoalmente (e ainda gosta muito de mim!), peço desculpas se o magooei.

Quanto ao segundo comentário, não o entendi completamente, mas seria "interessante" a palavra "interesse" com acento no terceiro "e": INTERESSÊ.

Feliz Natal.