terça-feira, maio 5

Budapeste - CHICO BUARQUE (Companhia das Letras, 174 pág.)


Ao ler Budapeste, pude relembrar inúmeras vezes do ensaio de Borges, A Supersticiosa Ética do Leitor, do livro Discussões. Nesse ensaio, ele cita o exemplo de Dom Quixote de La Mancha, considerado um grande romance, apesar do estilo defeituoso. A tal “supersticiosa ética do leitor” é um vício crítico, no qual considera-se boa literatura aquela escrita em determinado estilo: a frase clara, o adjetivo surpreendente, etc, etc. Em ar
roubo retórico, Borges declara que a boa frase, intocável, tem menos força que a frase defeituosa; essa, resiste melhor aos percalços do tempo, das traduções. Tudo isso me veio por ler Budapeste.

Ficam, pois, certos pontos implícitos. Um, a fras
e de Chico Buarque não convence, a princípio. Mas essa é uma impressão pessoal, distraída. Quando achamos uma mulher diferente, mas não identificamos o quê ao certo, dizemos que é o cabelo. Com romances, apontamos o estilo. São superstições, válidas em ambientes amigáveis (como aqui, no moedoteca), e evitáveis em leituras comprometidas. Dois, algo no livro oblitera essa impressão difusa. E enfim esse algo (digamos, a estória) prevalece. Budapeste tem um ótimo enredo, fluente, rico. Definir essa riqueza, porém, é uma tarefa com limitações. Primeira delas: Budapeste tem um daqueles finais que devem ser mantidos em segredo. (Ainda hoje não acredito na existência da absurda tradução portuguesa do conto policial de Poe, Murders in the Rue Morgue, em que o nome do assassino é revelado no título*). Ainda assim, resta-nos boa parte do romance. Temos, então, outro empecilho: o enredo é complexo o suficiente para desestimular quem pretenda recontá-lo. Mas, espano a preguiça do corpo, corto aqui, resumo ali, e começo.

Para quem não conhece, Chico Buarque, escritor

José Costa trabalha escrevendo artigos, monografias, autobiografias, qualquer coisa, enfim, para outras pessoas. Ele é um escritor anônimo. Passa a maior parte do tempo no trabalho, onde um dia recebe um convite para o “Encontro de Escritores Anônimos”, em Istambul, Turquia. Na volta ao Rio, uma tempestade cruza o avião, e José Costa vai parar em Budapeste, onde sua vida gira ao avesso. A primeira risada, se bem me lembro, veio no tal encontro de escritores anônimos. Todos lêem, orgulhosos, trechos de livros que escreveram, assinados por outra pessoa (em muita das vezes, nomes conhecidos), para aplausos gerais. Parei de ler, fechei a porta do quarto, voltei ao livro e ri à vontade.

O humor é um tom curioso. Com humor, fala-se pela entrelinha; como na ironia, que pode ser uma forma de humor. Também não é o caso de sairmos a procurar a “mensagem” subscrita em cada personagem caricato ou cena de humor negro — coisas que não faltam em Budapeste. Antes, cumpre notar que o humor, grosso modo, atribui ao mundo do romance, ao mesmo tempo, crueldade e leveza. Prevalecendo, em Budapeste, essa última. Até porque Chico Buarque parece muito interessado em explorar as possibilidades narrativas, — como brincar com a voz do narrador, o tempo narrativo, ou a meta-ficcão —, que realçam o caráter lúdico da literatura. Talvez, esse seja o motivo da complexidade do enredo (que foi apenas esboçado por mim). Entre saltos temporais, a princípio, desconcertantes, as linhas se atropelam, num estilo repleto de oralidade, alheias às idas e voltas no tempo.

Contra-capa do livro, só legível pelo espelho. Zosze Kósta é como o chamam em Budapeste.

Com os “escritores anônimos” Chico Buarque alude ao tema. Embora, de maneira sutil. José Costa tem uma satisfação fetichesca em ver nomes alheios em seus escritos. Um deles, uma autobiografia, requerida por um alemão, intitulada O Ginógrafo, torna-se best-seller. Por acaso, encontra um exemplar d’O Ginógrafo em casa, com uma dedicatória para Vanda, sua mulher, uma apresentadora de tele-jornal que nunca lê nada que o marido escreva. Sentado no sofá, imagina a traição detalhadamente. E sente prazer ao imaginar a sua esposa com outro, atraída por seu livro.

Mas sobre este tópico, não posso me estender sem comprometer futuras leituras. Esse é o tipo de coisa que evitamos fazer no moedoteca. Portanto, paro aqui. Quem quiser saber do que estou falando, vá ler o livro.


* “O assassino é o gorila” é o título que omiti no texto por princípios. Em contraponto, notas de rodapé não têm escrúpulos.