terça-feira, junho 23

Quem era Lucas da Feira, O Duelo de Corisco com Besouro Preto e Gatilho Sangrento - EROTILDES MIRANDA (Edições MAC-FSA) ou Sobre Feira e os Feirenses.

Edson Machado é o curador do Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana — este mesmo Museu que você, leitor, hesita em visitar por achá-lo um espaço de quinquilharias.

Mas Edson não é só um mero curador. Além de fotógrafo premiado em bienais, ele também edita livros. Certa feita o comparei ao visionário editor carioca José Olympio, que publicou os estreantes Graciliano Ramos, Zé Lins e Guimarães Rosa, entre outros. Tal comparação, sedutora em si pelo inusitado, não é totalmente uma falácia. É, talvez, uma forma bem feirense de ver o mundo. Exemplo óbvio se tem com o nome do clube de futebol mais popular da cidade, o Fluminense de Feira.

O fato é que Edson é um dos poucos a editar escritores daqui. Apenas não arrisco a dizer que seja o único, para não incorrer em mentiras. Não o faz com maior freqüência porque sua editora — um computador e uma impressora muito gasta do MAC — não dispõe de muitos recursos.

Não é raro Edson me confidenciar alguma pendência do Museu. Uma vez me falou em infiltrações nas paredes — o que me remete à época em que ele encasquetou que deveria esburacá-las com os próprios punhos numa espécie de reforma simbólica — e há pouco tempo atrás me disse a meia voz que o MAC era o único órgão municipal que não dispunha de internet. Eu achei um insulto, mas ele preferiu me acalmar dizendo que era assim mesmo. Que esse desdém da administração municipal era constante.

Então Edson me convidou novamente a escrever os releases de sua mais nova empreitada editorial: a republicação revisada das obras do cordelista feirense Erotildes Miranda, usando nas capas ao invés das consagradas xilogravuras, detalhes do famoso painel da nossa Estação Rodoviária, versado pelo mesmo Erotildes em “Um pedaço do Nordeste”.

Eu aceitei de pronto, mesmo sem saber se daria conta do serviço por estar sobrecarregado. Ele me deu uma dezena de cordéis de Erotildes e me aconselhou que lesse todos com “muito cuidado, pois eu ia gostar”. Foi assim que de uma só vez conheci parte da obra do cordelista feirense e me familiarizei com Lênio Braga, artista plástico paranaense autor do belo, imenso e intrigante (e já citado) painel da Estação Rodoviária feito há mais de 40 anos.

Araylton Públio, mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS e pesquisador da poesia popular (das “pelejas” para ser exato), ficou responsável pela revisão dos textos e pelo perfil biográfico de Erotildes no final dos volumes. Seu trabalho foi muito cuidadoso e feliz, já que as edições anteriores (raríssimas) vinham cheias de erros — até onde pude ver e saber conversando com o próprio Araylton, eram freqüentes equívocos tipográficos que prejudicavam o entendimento dos cordéis, alguns inclusive de difíceis resoluções — pois, como Erotildes faleceu “a coisa de cinco anos atrás”, ficou naturalmente impossível uma revisão do próprio autor.

Como observou Araylton no seu perfil biográfico, Erotildes era o chamado “poeta de bancada”, pois não há registros de que tenha participado de pelejas. Seu ofício mesmo era compor versos sobre as histórias nordestinas com uma obsessão particular pela métrica. Assim nasceram cordéis memoráveis como “A palestra das três donzelas”, citado por Franklin Maxado em seu aclamado livro sobre literatura de cordel “Que é Literatura de Cordel?”, publicado nos anos setenta pelo Pasquim — facilmente encontrado na biblioteca Julieta Carteado (UEFS).

Os três cordéis aqui escolhidos (O Duelo de Corisco Com Besouro Preto, Quem Era Lucas da Feira e Gatilho Sangrento) possuem uma unidade temática muito cara a Erotildes e a outros cordelistas: o anti-herói nordestino. Casos onde a violência está a serviço de uma subversão ao poder constituído, um momento onde as figuras populares (todas de origem humilde, Lucas da Feira era filho de “cativos”) extravasam sua indignação e ganham dubiamente status de herói e bandido, pois no caso particular de Erotildes (moralista por vocação, leiam “Namoro Moderno”), ele não sabe ao certo se ama ou odeia esses tipos nordestinos. Para ele “Lucas da Feira era/ o pai da perversidade/ assassino desordeiro/ ladrão da honestidade”. Em contraponto, o personagem Ponto Certo, figura central do cordel “Gatilho Sangrento”, é descrito com menos violência: “valente do mais valente/ por todos considerado/ medalha dos seus triunfos/ se via por todo lado/ tricampeão no gatilho/ cem vezes condecorado”. Permanece a dubiedade em “O Duelo de Corisco com Besouro Preto”. Os dois tipos são descritos também com rasgos de brutalidade e certo tom de conivência.

A precisão na métrica dá aos cordéis uma aparência irretocável e confere às histórias (cheias de eloqüência e exageros) uma verossimilhança agradável ao paladar. Não nos esqueçamos da frase antológica de Dostoievski: “A verdade é sempre inverossímil. Para lhe dar verossimilhança, é preciso misturar-lhe com um pouco de mentira.” E é assim que Erotildes alinhava suas histórias. Ri-se muito ao ler trechos onde os bandidos eximam toda uma tropa de policiais com duas balas no gatilho. Ri-se das espertezas de Lucas da Feira, bandido mateiro e “cativo” redentor (no cordel ele livra 25 negros da morte e faz em picadinho “Doutor Jivan”, homem de aguçada crueldade com os seus escravos). Ri-se do curioso duelo dos cangaceiros Corisco e Besouro Preto e do tom apocalíptico que o cordel dá a ele. Erotildes parece ciente do lugar onde está na tradição do cordel, e sua literatura dá mostras claras de sua segurança enquanto poeta. Não vou aqui resumir as histórias dos cordéis. Isto prejudicaria as futuras leituras que, com meu ligeiro comentário, tenha aflorado em vocês leitores.

Termino prematuramente esta resenha parabenizando os esforços de Edson Machado e Araylton Públio pela preservação da obra de um genuíno poeta popular, filho de Feira e, como nós feirenses, dono de certa verossimilhança absurda.*


*Escrevendo isso só penso em Edson me dizendo que quebraria as paredes do Museu a marteladas ou João Daniel declarando que não se conversa mais seriamente no século XXI. Feira é uma Macondo.

3 comentários:

Catharino disse...

Digo que o comentário final foi de uma comicidade... Mas o texto está ótimo, diria que se aproxima daquele seu outro texto escrito sobre Domingo Menino Dominguinhos!

Feliz com o retorno das atividades!!!

Leni David disse...

É com alegria que escrevo esse comentário. Comecei procurando coisas sobre Carlos Pitta, pois quero publicar um post sobre ele e enontrei vocês no meio do caminho. Que sorte!
Aproveito para dizer que o seu texto é excelente e o blog também. Muito obrigada pelo presente virtual.

Jorge Cerqueira disse...

Muito massa esse blog!