quinta-feira, dezembro 20

ESTAMOS DE FÉRIAS

O BLOG ESTÁ DE FÉRIAS.

quarta-feira, dezembro 12

A Agenda Secreta do meu namorado (Little Black Book, EUA, 2004)



Calma: não fechem a página. Eu posso explicar. Não limpem seus óculos nem balancem o monitor achando que ele está com defeito. Eu realmente irei falar sobre o ultrajante longa-metragem A Agenda Secreta do meu Namorado, dirigido por Nick Hurran e estrelado por Brittany Murphy e ela. Quem é ela? Vocês sabem: Holly Hunter. Foi somente por Holly Hunter que eu me rebaixei, me humilhei e me sujeitei a assistir esse dejeto impecável dos tempos modernos, essa carniça inefável e atemporal, este antológico pedaço de bosta cinematográfica.

O diretor é homem, mas o roteiro é de mulher. Uma vez Rodrigo, nosso colega moedotecário, escreveu: “poesia de mulher: quando é bom, é bom demais”. Esta frase não se aplica apenas à poesia, mas às artes em geral, e o cinema não é exceção. Quando uma diretora é boa, ela é BOA. Exemplos: Jane Campion, Lucrecia Martel, Sofia Coppola, Lynne Ramsay; talentosíssimas cineastas. Mas penso que nós as exaltamos em demasia. Não que elas não sejam incríveis, mas o fato é que tratamos as mulheres na cultura como verdadeiras pepitas de ouro. O ouro vale muito. Por quê? Por ser raríssimo, difícil de encontrar. Assim são as mulheres na arte: quando encontramos as boas, adulamo-las mais do que deveríamos, por elas serem preciosas para nós. Eu mesmo faço isso o tempo inteiro. Não estou também querendo dizer que geralmente filme de mulher é ruim (embora realmente seja): a verdade é que o mundo patriarcal não lhes deu oportunidades. Apenas a partir da modernidade que desceram os primeiros grãos da ampulheta da emancipação artística (dentre outros) da mulher. É por isso que as talentosas são ouro. Quem vai negar que Sofia Coppola é desesperadamente idolatrada, juntando ao fato de ser filha do gigante Francis Ford Coppola? Quem replicará a idéia de que Clarice Lispector e Virginia Woolf são escritoras incondicionalmente superestimadas? Quem se atreverá a negar que Janis Joplin ou Patti Smith foram capazes de influenciar toda uma geração?

Hoje em dia a coisa não está ausentada de problemas: este campo tão facilmente distorcido pelas feministas é um prato cheio para os falsos moralistas, os politicamente corretos e os humanistas de plantão. A maioria deles mantém a ingênua postura de não criar uma identidade para a mulher, mas sim de deixá-las semelhantes e “à altura” dos homens, o que é ridículo. Às vezes as próprias mulheres agem desta controversa forma: boa parte delas se obriga a se entreter, ou pior, gostar apenas de filmes, livros ou músicas cuja autoria é feminina. Algo, a meu ver, insensato e, com o perdão da palavra, besta. Para mim não há distinção. Renata Belmonte, uma escritora daqui da Bahia, jovem e soteropolitana, após lhe perguntarem numa entrevista um poeta, um livro e um filme de sua predileção, respondeu (respectivamente): Hilda Hilst, O amante, de Marguerite Duras, e Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola. Pode ser uma enorme coincidência. Ou não.


***

Mas voltemos ao filme. Percebe-se claramente que o escolhi apenas para expor a modesta reflexão acima, já que o roteiro é de uma mulher. Só não me perguntem por que eu não escolhi um filme bom, que não irei responder.

A agenda secreta do meu namorado é ruim. O roteiro, além de péssimo, contém filosofia de quinta: a personagem de Brittany Murphy está numa crise bizarra; o filme se inicia com a mesma dentro de um carro, mantendo forçosamente uma expressão chorosa e raquítica, se questionando acerca de fidelidade, sorte e um punhado de baboseiras. Embora bela, Murphy está incrivelmente antipática. Como Holly Hunter entrou nessa barca furada, nem o diabo sabe. Ou ela estava passando fome (bem que eu a achei um tanto magra) ou ela tem dupla personalidade e sua segunda é uma louca, uma ridícula.

O filme apela mesmo, no pior dos sentidos. Se fosse em sexo, menos mal. Mas a maldita roteirista quer porque quer se fazer de inteligente. Numa cena do filme as personagens falam do diretor Mike Nichols (A primeira noite de um homem, Closer), alcunhando-o gênio (tentativa desesperada e inútil da roteirista de provar que conhece sua área de trabalho).

Em certo trecho, a personagem de Hunter revela a sacanagem que proporcionou à heroína, num momento de reviravolta a la Malhação-Novelas Mexicanas. Levantei do sofá e pensei: “Epa! Esse filme pode deixar de ser abominável e passar a ser apenas lastimável”. Mas foram vãs as esperanças nutridas. O filme acaba da pior forma possível: a mocinha não fica com o namorado, no pior estilo “não-sou-só-mais-um-enlatado-hollywoodiano”, ou “sou original: não ficamos felizes para sempre”. E eu juro para vocês que a guria descaradamente afirma quase isso no trecho final.

Um detalhe: quando Brittany Murphy descobre que Holly Hunter sacaneou com ela (através da mesma), ela diz para a vilã, aos prantos: “Eu poderia arrancar seus olhos... mas como você se olharia no espelho depois?” E bam!, impacto profundo!, Hunter percebe a safadeza que fez, cai a ficha e cada uma segue seu infeliz caminho. Fiquei me perguntando em qual filme a roteirista viu aquela frase, em qual livro de auto-ajuda ou revista feminina, sei lá, de astrologia.


NOTA:



P.S. E é com enorme satisfação que eu anuncio a primeira nota mínima do Blog.

sábado, dezembro 1

A Tarde de um Escritor - PETER HANDKE (Editora ROCCO, 80 pág.)


Eu sempre gritei aos quatro cantos que era indiferente ao cinema. No entanto, isso tem mudado. Mesmo por que, afinal, ninguém é de ferro. E é impossível manter-se indiferente às suntuosas imagens de François Truffaut, por exemplo, ou (onde exatamente quero chegar) ao famoso e bonito diálogo entre os anjos em Asas de Desejos, de Wim Wenders, quando eles listam as humanices de que mais invejam. Este diálogo, pelo que se sabe, foi escrito por um alemão chamado Peter Handke. É ele também o autor deste A tarde de um escritor, um livro bastante piegas e sem muito a acrescentar a quem almeja lidar com as palavras — digo isso porque na orelha do livro vem escrito justamente o contrário. Abro um parênteses para admitir que sou adepto àqueles que julgam que a orelha de um livro deveria também vir críticas nem sempre elogiosas à obra, e sim dotadas de um espírito crítico mais severo, por assim dizer.

Confesso o meu desapontamento após dar o livro (livreto, já que possui 80 páginas) como lido. Como o título bem diz, Handke descreve a tarde de um escritor às voltas com uma crise criativa, vagando pela cidade onde mora e seus arredores, visitando bares, observando os homens, as copas das árvores, etc, etc, mas leva oitenta páginas para dizer tudo que quer e afinal nada diz de relevante. Algumas imagens são bonitas, mas e daí? Trata-se de um livro descritivo, moroso, sonolento, cuja sensibilidade ultrapassa a tênue linha das coisas que valem a pena (como, no filme citado, o diálogo entre os anjos) e desemboca no grande abismo da mediocridade. Como exemplo um pequeno trecho adiante que não me desafia a desdizer nada do que eu disse, e além do mais, ainda reitera: “Iniciei-me no ofício da palavra! Seguir em frente. Deixar estar. Deixar valer. Representar. Transmitir...”.

Concordem que é de um mau gosto hediondo.

NOTA:

domingo, novembro 25

Pato Fu - Daqui pro futuro, 2007


Jack Kerouac, após o fenômeno On the Road, aderiu ao budismo, e todas as suas obras posteriores a essa escolha trouxeram um cunho budista. Dostoiévski, um homem de vida conturbada, escreveu sobre os labirintos da alma e seus vícios. Bergman, no cinema, realizou filmes sobre a potência e imprevisibilidade da morte, após conhecê-la bem de perto e quase acasalar-se com a mesma. São poucos os artistas que resistem em adaptar para as respectivas artes suas experiências marcantes e inextricáveis, sejam elas dolorosas ou não. A banda mineira de pop rock Pato Fu não foge à regra: neste novo álbum, Daqui pro Futuro, onde o casal Fernanda Takai e John Ulhoa (a vocalista e o guitarrista da banda) já têm uma linda filhinha para cuidar, as músicas refletem essa feliz fase - faixas como “Mamã Papá” e trechos de letras como “Vem acende a sua luz perto de mim/ Estrelinha do meu jardim/ Me deixa ser teu céu pra sem-preeeee!...” atestam a verossimilhança das minhas afirmações.

Agora eu paro pra pensar e digo: TUDO TEM LIMITE!!! Mamã Papá?! Perdoe-me, Pato Fu, mas o primeiro pensamento que me veio à mente (acho que não só à minha) quando ouvi este álbum foi: “É... já está na hora dessa banda acabar”. Foi com Daqui Pro Futuro que descobri, ou melhor, confirmei o seguinte fato: Pato Fu trabalha com fórmulas. As composições da banda, embora dotadas de arranjos inegavelmente criativos, seguem rigorosamente um padrão (falo do esqueleto da música). Não só nas melodias, mas também nas letras. Por falar nisso, dentre os próprios fãs da banda há quem diga que Takai é a responsável pelas letras mais “bobinhas”. O problema não é trabalhar com fórmulas. Jorge Ben trabalha com fórmulas (ele não é chamado de alquimista à toa, não é?). O problema é a fórmula ser ruim ou cansativa. É ser uma merda, como a do Oasis; uma megalomania absurda, como a do Pink Floyd; uma guitarra mal-tocada e descarada como a de Chiclete com Banana. Esse é o problema. E que fique claro: fórmula é uma coisa; estilo é outra.





FAIXA-A-FAIXA


1) 30.000 pés

Pop básico, sem maiores labirintos. Uma das melhores do disco, ou das menos piores. Nesta música há um diferencial: Takai canta, nos versos da ponte, elevando bastante o tom da voz (o tom, não o volume) e logo após voltando à base sonora; algo bem raro nas músicas do Pato Fu, que geralmente seguem uma linha estável de escala (na melodia). Pra quem não entendeu, ouvir os versos da ponte “Mas o AR é tão puro / Que FOGE de mim” (pus em maiúsculo aí pra ilustrar).

2) Mamã Papá

Sem comentários. Não consegui extrair nada de bom dessa música (e olhe que eu sou fã do baterista e da vocalista da banda!). No mais, atrevo-me a dizer que Pato Fu tentou imitar Pato Fu (mais ou menos o que Roberto Carlos faz com as músicas dele). O refrão é abominável. Segue um trecho da letra:

“Quando seu corpinho
Se mexe na barrigaaaa
É só um tôquinho
Mas transforma em vi-daaaa!”

3) Espero

Espero é bizarra. Começo: “dizem que não sirvo pra gostar de ninguém”. O melodrama não para por aí. A música é outra repetição. D - G - A, ou D - Em - G. Algo assim. Pato Fu sacaneou: ou eles são perversos e estão “tirando onda” com esse álbum maluco, ou o nascimento da filha fez John perder o senso de autocrítica. Eles poderiam ter esperado mais um pouquinho. É até uma ofensa para com os fãs.

4) Cities in Dust

Cover da música da banda Siouxsie & the Banshees. Não está mal-feita (eu poderia ter escrito “está bem-feita”, mas escrevi “não está mal-feita”; sou sacana mesmo). Único defeito: Fernanda Takai não sabe cantar em inglês.

5) Tudo vai ficar bem

Outra boa de ouvir. Participação de Andrea Echeverri, cantora da péssima banda colombiana Aterciopelados. Ela canta bem e a sonoridade espanhola desta música é linda, mas engana; portanto, não se precipitem: não procurem ouvir Aterciopelados, que não presta. Além do mais, Echeverri é
extremamente feia.

6) A hora da estrela

O negócio ficou feio aqui nesta faixa: só o título já derrama o leite. Vi fãs sentido-se incríveis por “descobrirem” a associação do título com o livro homônimo de Clarice Lispector. Oh, Deus...

7) Woo!

Woo! Que música é essa?! Woo! Demais! Tudo bem: essa música não é tão tenebrosa. Mas não tenho mais nada a dizer.

8) A verdade sobre o tempo

Gostei do início dessa faixa. John e Takai dividiram os vocais e o resultado ficou bacana. Percebi outra coisa: há algo de “tentativa de retrô” nas faixas. Mas é bem de leve, e um tanto descarado.

9) Quem não sabe

Droga! Essa não é ruim! Uma pena... O engraçado é a simetria do repertório dos álbuns: essa faixa lembra “O que é isso?”, do álbum anterior, o Toda Cura Para Todo Mal, que se eu não me engano é também a 9ª faixa.

10) Vagalume

Essa é brutal. Chama o BOPE pra resolver isso aqui. A sorte é que os músicos são bons e a voz de Takai já está lapidada e madura, senão o bicho ia pegar.

11) Nada Original

Essa foi a mais injusta do álbum. Ouçam apenas “Tribunal de Causas Realmente Pequenas” e “Me Explica”, da mesma banda. Ouçam. Ouçam e verão que eu não estou exagerando. Repeteco puro e cristalino. A própria letra, como sugere o título, trata disso. Ou essa faixa é uma brincadeira de muitíssimo mau gosto ou os integrantes da banda estão adentrando nos campos labirínticos do retardamento mental.

12) 1000 Guilhotinas

Não consegui compreender esta faixa. De jeito nenhum. Mas é até boa: ao lado da 5ª, a 1ª e a 8ª, incitou-me a não dar a nota mínima para o álbum.


Obs: Escrevi dois posts sobre álbuns lançados esse ano e nos dois acuso o artista de “repetir”. Daqui a pouco quem estará repetindo serei eu. Mas o negócio é sério. Da próxima vez, escolherei um álbum melhor.

NOTA:

quarta-feira, novembro 21

O inédito de Kafka - MAYRANT GALLO (Editora COSACNAIFY, 194 pág.)



O inédito de Kafka é um livro irregular. É esta a definição mais rasteira, porém mais correta para a coletânea. A irregularidade está em tudo: do título à ordem dos contos. Digo isto porque O inédito de Kafka, o conto, é o melhor do livro - e é também o último. Quando chegamos nele, quando aos poucos nos encantamos com a sua trama (borgianismo puro e saudável), quando nos deparamos com certa maestria na escrita de Mayrant Gallo, já são indeléveis as más impressões causadas por contos como A vida num domingo (Rubem Fonseca mais ameno, pálido), Varrer rua (típico conto baiano contemporâneo: meio populista, meio tolo, meio longo) e O parafuso ("Um parafuso é um parafuso, e quando a porca e a arruela se soltam e se perdem, é preciso providenciar outra porca e outra arruela. E como nunca as encontramos soltas, avulsas, outro parafuso vem junto, para substituir aquele primeiro, que falhara, que deixara a porca e a arruela se perderem. Eu era o parafuso." - uma "reflexão", uma "metáfora" tenebrosa que provoca tremores no mais imaturo dos leitores). Por isso, pela irregularidade, é fácil prever que também há ótimos momentos no livro, que também podemos ler e reler A casa alta ou Jornada de um menino. Mayrant varia pouco os seus temas e personagens - sejam eles velhos ou crianças, todos buscam, alguns encontram, todos perdem em seguida. Desinteressados da vida, desesperançosos com sua cidade, com seus semelhantes, os personagens de Mayrant jamais estão contentes ou descontentes. Estes são estados de espírito que exigem mais empenho, força e coragem do que possuem.
NOTA:

segunda-feira, novembro 19

Os Incompreendidos (Les 400 Coups, FRANÇA, 1959) / Os meninos da Rua Paulo - FERENC MOLNÁR (Editora COSACNAIFY, 264 pág.)



Não sei quem considera Os Incompreendidos um filme infanto-juvenil. Talvez ninguém; provavelmente poucos. Tamanho é o desprezo e a incredulidade adulta diante das inteligências infantis que nos soa tola a possibilidade de um enfant compreender Truffaut. Como se fosse compreensível (aos adultos, aos cinéfilos furiosos, aos críticos, a qualquer um) o olhar final de Antoine Doinel.

*


Todos consideram Os Meninos da Rua Paulo um livro infanto-juvenil. Sucesso mundial, o romance de Molnár, por sua narrativa simples, ligeira, descomplicada, faz com que críticos, adultos, literatos furiosos considerem-no um livro superável - aos dezoito, já não faz sentido, já não exige releitura. Como se a memória, por mais remota e por mais cheia de imaturidades e atos patéticos, não fosse parte essencial no desenvolvimento do leitor maduro.



Há muito de Molnár em Truffaut. Não na narrativa - a distância entre literatura e cinema, entre Molnar e Truffaut, é grande e, para a maioria, insuportável: quantos toleram o cinema sem narrativa? Nenhum dos dois diminui ou eleva a criança. Retratam-na, puramente: seres já incompletos, atormentados e rebeldes. Com a revolta dos enfants de Truffaut e Molnár, nota-se, por sinal, que só a criança tem o direito à rebeldia. Que só o menino não é ridículo.


Os Incompreendidos:



Os Meninos da Rua Paulo:

segunda-feira, novembro 5

Só Deus sabe (Sólo Dios Sabe, MÉXICO/BRASIL, 2006)



Eu sou um maldito. Um idiota ordinário. Tenho que parar de assistir filmes só por causa das atrizes. Vi certa foto de Alice Braga e não deu outra: resolvi baixar o filme mais recente dela, o Sólo Dios Sabe, protagonizado também por Diego Luna (aquele do Y tu mama también) e dirigido por um tal de Carlos Bolado.

Realmente, eu fiquei “boladão” após assistir à película: que MERDA foi aquela?! O título do filme também faz jus: só Deus sabe o que o diretor tentou mostrar com aquela porcaria. Eu deveria ser mais polido em meus termos, mas o maldito longa-metragem é um lixo total.

Claro que há piores. E eu vi o que queria: Alice Braga. Ela não é má atriz (assistam Cidade Baixa), embora não fale muito bem o inglês. Diego Luna também não - mas o roteiro e a direção deixam a desejar. O espectador fica espantado com o rumo que o filme toma. A princípio, uma história de amor. Depois, problemas de imigração; questões de fé; candomblé; aborto; frescuras. E por aí vai. Eu poderia não contar o final para não estragar a surpresa, mas não há como estragar o que já está estragado. Alice (esqueci o nome da personagem) fica grávida de Damián (Diego) mas pega um câncer maldito e poderá morrer se parir. Embora a mãe dela e o namorado lhe implorem para desistir da filha, ela escolhe dar a luz e partir dessa para melhor. Quando eu penso que não, acaba o filme: Damián no mar com a suposta filha, jogando flores para a alma de Alice de acordo com os rituais da cultura “candombléica” e lançando aquele velho olhar nostálgico e de reflexão aristotélica. E acaba.

Trilha sonora. Querem mesmo que eu diga? Ok: vai de Interpol a Babado Novo. É sério. É muito sério.


NOTA:

quinta-feira, novembro 1

O Passado - ALAN PAULS (Editora COSACNAIFY, 530 pág.)



O Passado engana. Mero romance urbano e argentino, diz-se. Por urbano e argentino entenda-se fielmente escrito segundo os preceitos de Bioy Casares e Borges. Por urbano e argentino entenda-se fielmente filiado a autores como o badalado (mas não tão competente) César Aira. Mas Alan Pauls não se enquadra nestes termos. Melhor: sim, ele se enquadra nestes termos, mas desde que o permitam ampliá-los, modificá-los por completo - restando, de "urbano" e "argentino", apenas a nomenclatura vazia para um romance que se passa em Buenos Aires e arredores.


A prosa de Pauls é sinuosa, exagerada. Cheia de afetação, até. As frases longas e o trabalho sobre a memória remetem ao óbvio: Marcel Proust. Referência correta, mas secundária. Diante de frases longas, trabalho sobre memória e, sobretudo, ironia exagerada, percebe-se que uma influência ainda mais forte é a de Nabokov. A construção dos personagens segue o método do mestre russo: caricatos, irreais, burlescos como Ada, como Van Veen, como Charles Kinbote, como Humbert Humbert.

Mas é realmente o amor o tema escolhido. Rímini, o homem-boneco protagonista, sem afeição materna (todas as mães são fugazes, os pais sempre mais marcantes ao longo do livro - Alan Pauls se diz anacrônico, ainda leitor da psicanálise mais remota), consumido pelo "amor-terror" de Sofía, de Carmen, de Vera, é figura clara, fotografia perfeita do indivíduo que não se perde, mas que é levado a se perder pelas mulheres. A voracidade, tanto sexual quanto afetiva, de suas amantes parece neutralizá-lo de forma absoluta: ele é levado, conduzido, empurrado por elas. Inerte, até o sofrimento de Rímini (decorrente de mortes, perdas materiais e intelectuais, separações de mulheres e filho) parece tolo, pouco - mas somente a ele mesmo: ao leitor, perdido entre a profusão de vírgulas e reviravoltas dignas de dramalhões rodriguianos, a história deste homem fraco é uma seqüência quase insuportável de fracassos irremediáveis, derrotas vergonhosas, covardias dignas de um cão; ao leitor, perdido entre a profusão de esquinas e reviravoltas reais, só resta aceitar que o ridículo de Rímini, que é mera tinta negra sobre papel, não supera o ridículo de quem é carne, sexo e um tanto de cérebro.


NOTA:

Cadeiras Proibidas - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO (Editora GLOBAL, 144 pág.)



Sempre tive a sensação de que uma coisa totalmente absurda poderia acontecer comigo a qualquer momento. Mas isso pode vir só de eu ser brasileiro, claro. Faço minhas as palavras do Pedro Sette Câmara. E para começar a resenha, faço das palavras do Pedro também as possíveis palavras do Ignácio de Loyola Brandão. Acrescento apenas “paulista” no lugar de “brasileiro”. Seria um modo simples de explicar sua predileção temática: tida como realista-fantástica, cuja a ambientação é senão a cidade de São Paulo.

Loyola Brandão é autor, entre outros, de livros como Zero (muito citado e pouco lido) e o aqui agora comentado Cadeiras Proibidas (reunião de contos tão pouco lida como pouco citada), cuja leitura me foi ora divertida ora maçadora durante o tempo de uma semana, mais ou menos.

O volume, editado no final da década de setenta, em meio à ditadura militar, traz, às vezes com naturalidade e eficácia, e outras com forçosa subversão, o retrato do cotidiano paulista elevado à intolerância, ao absurdo. Nada mal, já que o tamanho da cidade é realmente absurdo — e, aliás, o que dizer da ditadura? Também absurda.

Esta fórmula não é nada nova, se pensarmos de chofre em Kafka e Cortázar (e lendo o Loyola é impossível não lembrar), isto para ficarmos com exemplos óbvios. Nada nova, a fórmula, porém sempre eficaz, a meu ver.

Pessoas são demitidas de seus empregos e excluídas da sociedade (todos os empregos no livro são burocráticos: “escritório”, “repartição”, etc., etc.) por causa de misteriosos furos na mão, nascidos do nada, como é o caso do conto O Homem do Furo na Mão. Um homem, cuja orelha cresce desproposita e vertiginosamente, causa desespero aos demais cidadãos ao inundar a cidade com sua carne de orelha, como a orelha não parasse de crescer, a solução possível vem da indiferença de um moleque ao propor “Por que não matam o homem?”. Trata-se de O Homem Cuja Orelha Cresceu. Pedras que gritam, postes que amolecem, homens viram barbante, etc., etc. Tudo carregado de significado, ora exemplar, ora, infelizmente, fácil e bestial.

Não há como o leitor comum se furtar de alguma reflexão. Quase todos os contos têm esse poder, o da reflexão. Porém, não apenas da reflexão é mantida uma literatura que valha a pena. É necessário beleza, estilo. É quando o Loyola peca. Com sua linguagem simples (às vezes, reles) de jornalista, causa um fastio descontrolado no leitor. Ao menos no leitor acostumado a ótima literatura. Acostumado aos Ótimos, não simplesmente aos Bons. A realização dos contos é boa, mas não é ótima. Aquela diferença tênue em saber escrever uma história e escrevê-la como um ficcionista exemplar.

O Loyola pode até ser Ótimo em outro livro. O citadíssimo Zero, talvez. Vou lê-lo. Neste, porém, consegue somente ser Bom.

No final das contas, leitura até dispensável. Vale, entretanto, para saber que há mais um escritor brasileiro se valendo da ficção do absurdo, realista-fantástica.

O Homem que Dissolvia Xícaras, Os Homens que se Transformavam em Barbantes, O Homem que Observou a Reunião, Os Homens Cegos no Hall de Mármore são contos que eu recomendo. Além, é claro, dos dois que eu comentei no meio do texto.

NOTA:

sexta-feira, outubro 19

Cães Negros - IAN McEWAN (Editora ROCCO, 151 pág.)


Ensaio clássico de Roger Fry: Arte e Vida. A citação é necessária:

"Quando contemplamos as obras de arte do passado, costumamos considerá-las não só como objetos de deleite estético, mas também como sedimentos sucessivos da imaginação humana. Essa concepção das obras artísticas como história cristalizada explica, na verdade, muito do interesse que a arte antiga desperta naqueles que possuem pouco senso estético e nada encontram de atraente nas obras de seus contemporâneos, nas quais a motivação histórica está ausente, pois diante delas encontram-se face a face apenas com valores estéticos."

Assim sendo, evitemos escrever sobre os clássicos. Livrem-me de dizer obviedades: os clássicos verdadeiros são inesgotáveis, falaremos deles para sempre. Ou não me livrem: já falei por culpa da minha retórica que, pobre, insistia nesta trama. Roger Fry não escrevia sobre literatura. Era crítico de arte, mas sua afirmação estende-se a qualquer campo artístico: como negar que passo impunemente por todos os compositores que ainda respiram? Só percebo a música quando sei que seu criador já foi devidamente roído pelos vermes, misturado à terra, transformado em árvores, musgos, espalhando-se pela biosfera. No caso específico da literatura, por um longo tempo não me permiti apreciar meus contemporâneos: saía-me sempre com aquela conversa do pouco tempo que eu dispunha para ler todos os mortos necessários. Não condeno quem se dedica aos clássicos. De certa forma, estão corretos. O leitor não tem obrigação nenhuma: não precisa ler seus contemporâneos. No limite, não precisa ler os clássicos também. Nem tomar banho, nem usar xampu. Cabe a ele escolher se lerá Henry James e terá um cabelo limpo ou se contemplará os profetas e os abutres que se aproximam do seu cabelo sujo. Mas eu tive uma iluminação e mudei. Hoje, dedico-me com relativa pressa e empenho aos livros dos meus contemporâneos. Esta dedicação, porém, não impede que existam buracos vergonhosos: não li Coetzee, não li Roth (até o próximo fim de semana, isso ainda será verdade). Veja que são ambos autores de língua inglesa - o rico idioma bretão parece abrigar a prosa mais interessante da atualidade. Parece. Até porque é em inglês que escreve Ian McEwan, autor dos celebrados Reparação e Sábado e do recente Na Praia. Por acaso, iniciei-me em sua obra, no último fim de semana, por meio de um livro até hoje pouco comentado, certamente considerado como menor. Cães Negros, história de amor falhado, história de continente (Europa) falhado. Sua prosa é estreita, mas nela cabem até mesmo digressões amorosas e francamente melodramáticas (um leve constrangimento é inevitável vez por outra). Um casal separado pelas idéias: ele, comunista, cético; ela, crente, cheia de uma fé ardorosa no invisível. Um continente igualmente dividido: o leste esfacelado pelo comunismo agonizante, o oeste progressista e xenófobo. Nesse terreno ingrato, recente demais, ainda cheirando a novo, McEwan se desenvolve sem pudores. Não se exime de nada, não observa com imparcialidade. Sabe que não se produz arte (arte grande) com temor: está clara a sua falta de fé no futuro da Europa (o casal, mais efêmero, já está morto, acabado), não esconde a sua certeza de que os cães negros (figuras quase mitológicas que, ligadas aos nazistas, são o centro da discórdia entre os amantes) "voltarão para nos atormentar, em algum lugar da Europa, em outro tempo." Longe da perfeição (os personagens centrais são extremados em suas características, sem nuances menos rígidas, sem dúvidas), Cães Negros não é uma leitura inevitável mas, sem dúvida, uma reflexão e uma pequena fonte inevitáveis para quem se atreve a acompanhá-la.



NOTA:

Asas do desejo (Der Himmel Über Berlin, ALEMANHA, 1987)



Meu primeiro contato com Win Wenders se deu através do belíssimo documentário Buena Vista Social Club. Confesso que, embora eu tenha gostado muito, não saberia dizer, como escreveu Mário de Andrade em relação a Murilo Rubião, se havia “gostado certo”. Confesso também que após assistir a película pouco me importei com o nome da direção; minha atenção voltara-se para Ibrahim Ferrer, Rúben González, Ry Cooder e, naturalmente, a própria banda BUENA VISTA SOCIAL CLUB, um conjunto de músicos tão bem-dotados que o documentário não parecia real - parecia o sonho de alguém adaptado para o cinema.

Win Wenders. Voltei a procurá-lo. Eu o fiz numa época em que a chama do sentimento culto despertava-me de forma inconseqüente; a sede pela “intelectualização” do meu status (nada mais natural para um jovem que se dizia amante das artes) levava-me a sinistras situações. Dizia que o Oscar era uma balela, mas achava uma injustiça Martin Scorsese nunca o ter abocanhado. Nas locadoras, dirigia-me compulsivamente à seção de cinema europeu, levando Iñarritu (mexicano) para casa como cinema europeu. Exaltava Amelie Poulain e dizia: “O cinema europeu é o melhor que há”. Qualquer filme em língua não-inglesa era europeu. Nunca francês. Nunca italiano, mexicano, argentino, japonês (!) ou turco. Era sempre aquela expressão jubilosa e pomposa: o cinema europeu. Sem contar que eu dizia que os filmes brasileiros eram muito melhores que os de Hollywood. Sim, eu também passei por essa fase. É normal. Não me envergonho, claro - mas acho muita graça.

Então procurei Win Wenders. Desisti: filme “europeu” em Feira de Santana, minha cidade, é uma raridade sem tamanho. Alguns meses (ou anos?) depois, já apaixonado pela atriz Holly Hunter, li em alguma de suas biografias que um de seus filmes prediletos era Wings of Desire, de Win Wenders. Lembrei do nome na hora. Saí procurando o filme tresloucadamente e evidentemente não o encontrei em lugar algum. A única solução era baixar da internet. Dias de angústia. Semanas. Cada 0,1% do download concluído era festejado com garrafas e mais garrafas de vinho. Quando finalmente o consegui em minhas mãos pronto para dirigir-se ao aparelho de DVD, mergulhei numa apreensão sem precedentes. E se eu não gostar? E se for ruim, e eu me decepcionar com Holly Hunter? E se eu disser que gostei só porque Holly Hunter gosta? E se ninguém gostar? Essas foram, entre outras, as toscas perguntas que passaram pela minha cabeça. Fui assistir ao filme após séculos de adiamento.

*

Depois dos dez primeiros minutos, eu estava maravilhado.



Arrependi-me de ter demorado tanto. Todo o filme é belo e original do início ao fim: direção (que direção!), roteiro, maquiagem, cenário, montagem (que montagem!), atores, personagens (que personagens!) e entrelinhas (que entrelinhas!). Após assistir o filme fui emprestá-lo a Davi, meu colega moedotecário, cheio de orgulho, confirmando-lhe o ótimo e refinadíssimo gosto de Holly Hunter.

A história é, em resumo, a seguinte: um anjo observa a vida dos humanos. Esse anjo é imortal. Ele fica entediado com sua vida infinita e acaba virando humano para desfrutar os prazeres e desavenças da vida. Obviamente tem mulher no meio (e que mulher!). Lembraram de Cidade dos Anjos, com Nicholas Cage? Pois é: Cidade dos Anjos é um remake deste, e talvez o pior e mais pilantra da história cinematográfica estadunidense. Esqueçam aquele filme bastardo. Assistam Wings of Desire. Darei apenas um exemplo da genialidade de Win Wenders, que vocês jamais encontrarão no filme-remake estrelado também por Meg Ryan: na versão original alemã, o mundo dos homens é colorido; o dos anjos, preto e branco. Prontinho: dei-lhes horas de reflexão.

Não posso falar muitas coisas do filme para não estragar a surpresa. Basta dizer que Win Wenders é um dos maiores cineastas alemãos da segunda metade do século XX. Basta dizer que a cena em que o soberbo ator Peter Ganz esfrega suas mãos uma na outra e diz para o anjo (que ele nem ao menos vê) que na vida há muitas coisas boas e fantásticas como “um esfregar de mãos” é maravilhosamente bem-feita e emocionante. Basta dizer que Wings of Desire, nunca lançado oficialmente nos cinemas de cá, é uma obra-prima incontestável e indispensável para os cinéfilos.
NOTA:

terça-feira, outubro 16

Moacir Santos - Coisas, 1965


Moacir: bigode jazzístico.



9 em cada 10 brasileiros deveriam idolatrar Moacir Santos. Isto, naturalmente, não acontece. Uma pena. Para bem dizer, 7 em cada 10 brasileiros desconhecem por completo o músico (saxofonista primoroso, clarinetista), arranjador, compositor e maestro exímio que foi Moacir Santos. Em parte porque o músico morou bom tempo nos Estados Unidos (compondo trilhas para cinema e ensinando música), outra parte porque sempre foi pequena a divulgação de sua obra em território nacional. Como, de fato, toda boa música padece desse mal.

Essa estimativa, evidentemente, não tem base de cálculo alguma. Não precisa. Vão por mim, eu estou certo.

Por outro lado, é correto dizer também que o Moacir não faleceu (em 18 de julho do ano passado) sem antes ter a sua obra reverenciada e redescoberta de maneira plausível. Bem acolhido por crítica e público, em 2001, coordenado por Mario Adnet e Zé Nogueira, aparece “Ouro Negro”, espécie de tributo/homenagem ao maestro, contando com participações de grandes intérpretes, como Milton Nascimento, Gilberto Gil e outros. Alargando, assim, consideravelmente seu ciclo de admiradores brasileiros. Eu, aliás, pertenço aos fãs do Moacir que o conheceram a partir de um desses projetos em sua honraria. Eu ouvi “Choros & Alegrias”, 2005, disco que revisita a obra moacirana pré-Coisas, achei genial.

Apresentado o mestre, vamos à obra proposta: “Coisas”, de 1965, pelo selo (que alguns diziam “independente”) Forma.

“Coisas” é o primeiro disco do Moacir Santos. Disco que, dizem, apresenta uma nova maneira de harmonizar a música popular brasileira (instrumental) de então: choros, samba-canções, bossa, música de câmara. Até para os ouvidos mais leigos, fica evidente o uso freqüente de tons graves nos esqueletos das músicas. Isto, à época, foi um bocado inovador. Eu li a respeito. Mas, para mim, não é esse o grande mérito do álbum. A mistura etérea entre ritmos genuinamente africanos, batuques, levadas tribais, e aqueles já incorporados a outras culturas, como o nosso samba, o choro, e o jazz, o blues (esse, imperceptível aos leigos) norte-americanos. Esse caldeirão de referências somado ao talento do Moacir em compor harmonias lindas, fortes e marcantes é que faz do "Coisas" um disco a ser ouvido.

Antes do faixa-a-faixa, uma curiosidade: todas as músicas chamam-se “Coisa”, o que diferencia uma da outra é o numeral que vem em seguida. A primeira música, por exemplo, chama-se “Coisa nº 4”.


FAIXA A FAIXA


1) Coisa nº 4

Um fraseado de trombone em tons graves, uma percussão que lembra afoxé e terreiros de umbanda, e trompetes em fraseado melódico diferente do trombone. Entra um sax e sola lindamente. O naipe de metais dá as cartas nessa música. Que não muda de andamento. Essencialmente afro-jazzística.

2) Coisa nº 10

Uma música de fanfarra sofisticada com o mais fino jazz. É isto. O ritmo brasileiro do samba aparece na presença do sax fraseando algo que qualquer samba-canção deveria ter: doçura. Entram violão de sete-cordas, piano, quarteto de cordas, naipe de metais. A levada contagia.

3) Coisa nº 5

Começa com o sax barítono e o trombone atacando em tom muito grave. Trompete acrescenta à linha de ataque uma sibilante melodia. A bateria muda espertamente de andamento, tornando-se uma “caixa de fanfarra”. Há um espírito circense, sobretudo quando todo o naipe de metais entra em um segundo fraseado que não o da introdução. A flauta transversal embeleza com um solo na última parte. Uma das melhores do disco.

4) Coisa nº 3

A mais jazz do disco. Piano, piano, bateria hard-bop/bossa nova: ou seja, suave mas intricada. Entram o naipe de metais, mas a música segue o mesmo rumo até o fim. Destaque para o solo de flauta doce na segunda metade da música.

5) Coisa nº 2

É a minha predileta. Começa guitarra de timbre jazzístico (até então ainda não usada no disco) e Piano. Entra a bateria ainda à moda do jazz. O naipe de metais, ao contrário das outras canções, aparece como uma massa completa. O fraseado é lindo, e se arrasta a exaustão. Não há como não assobiá-lo até o término da música. Destaque para o duelo entre piano e flauta doce na execução do já citado fraseado. Linda canção. A tuba finaliza o solo antes da última entrada do naipe completo.

6) Coisa nº 9

Lembra ritmos latinos. Boleros, Salsas. E algo afro também, os atabaques ajudam. O sax fraseia a colagem de notas mais sensual do disco. A música cresce quando entram os outros instrumentos de harmonização: trombone, trompete. Duelo de guitarra e trompete se destaca. Uma palavra que resume a música: lascívia. Predileta minha, também.

7) Coisa nº 6

Um samba não muito convencional. A bateria parece atravessar o tempo da música, mas é um truque usado com freqüência no jazz. O naipe de metal mistura samba e jazz, o sax sola como um Coltrane comedido. Depois entra trompete e sola, depois piano, e sola.

8) Coisa nº 7

Outro samba. Agora, mas retilíneo na levada. A bateria é sutil e exata. Solam piano, sax e trompete. Quarteto de cordas ao fundo, quase imperceptível, é bem bonito. Não muda de andamento até o final. Simples e encantadora.

9) Coisa nº 1

A percussão é um afoxé cadenciado. O os metais vão compondo a música, cada um com seu fraseado. O sax sola.

10) Coisa nº 8

É um jazz misturado com bolero. Talvez a grande canção do disco. Está entre minhas prediletas. Solos de trompete e guitarra são primorosos. O trombone atua como se estivesse em um samba-canção.

Evidentemente, à moda do Graciliano, essa resenha pode ser resumida em cinco palavras: o disco é Genial, malandro.


NOTA:

Papillon (Papillon, EUA, 1973)


Já nos créditos finais do filme, pensando sobre a apresentação de um seminário que uma amiga fez na faculdade sobre certo romance, me veio como um raio violeta uma lembrança há muito guardada em minha inexplicável mente. É a seguinte: estamos num dia de tédio em frente a tv. Vai passar um filme estilo steven segal, mas de cowboi e não tem Steven Segal. Você procura desesperadamente outras opções, e o controle remoto não pára (receiamos até que a pilha esvazie tamanho o frenesi). Rendemo-nos. Na TV um cowboy benevolente e grisalho olha pro companheiro ao lado do balcão do bar (close) e começa a falar do protagonista (trilha sonora): Dallas city é com um alce (cenas editadas do tal Dallas correndo virilmente, em fuga, na floresta). Se um alce é pego desprevinido por uma armadilha (um alce é pego por uma armadilha) ele tenta de tudo pra se livrar dela. Tendo de tudo tentado e nada adiantado (a tensão cresce, e o tal alce tenta de tudo pra se libertar) então o alce vai roer sua própria pata para se ver livre (vemos o Dallas correndo). Ele sabe que não vai muito longe, um kilometro, dois talvez, mas ser pego (tchan tchan tchan) jamais. (plin plin).


Depois foi inevitável divagar sobre o peso de coisas inúteis que carregamos em nós. Por isso quis dividir essa carga com os senhores desafortunados leitores. O que me leva pra outro assunto...


***



Se você é o tipo de pessoa (como por exemplo meu caro colega moedotecário J. D.) que se impressionou com uma, duas ou três atuações, (por exemplo Holly H... deixa pra lá), e a partir de então assiste indiscriminadamente a qualquer filme por causa desse ator ( por exemplo o diário secreto de meu na... esqueça), então você me compreende.

Lembro-me que na tenra idade eu tinha uma visão equivocada de Dustin Hoffman. Sei lá, o seu rosto me passava uma impressão de um cara, como posso dizer... não-legal. Isso apesar de não ter visto nem filme dele então. Já nessa época, uma propaganda da TNT me surpreendeu. Era assim: umas duzentas pessoas estavam aglomeradas numa ruela em frente a um restaurante modesto se espremendo, disputando uma lugar na janelinha, espiando excitados por ela. Eis que a câmera vai pra tal janela e pra minha surpresa lá estava o cara não-legal, o causador de todo aquele tumulto. Vai que ele não é assim tão não-legal. Vai saber.


Esqueci dele por anos. Até que de todas as duas horas e tanto da mega produção "O Perfume", adaptação de um romance que eu lera, sua ponta fazia valer todo o filme que não convence. Foi espetacular sua participação, mas me esqueci dele novamenete. Pra resumir essa história basta dizer que de lá pra cá, dos muitos filme que assisti, dois que estão entre os poucos escolhidos têm esse carinha no elenco. Em A primeira noite de um homem , não reconhecendo o jovem protagonista, tive que pular até os créditos pra ver o nome do miserável. Em kramer vs Kramer o mito já existia e se solidificou ainda mais.


Esse fim de semana vi esse tal de Papillon, e só vale algo quando Dustin está em cena. De resto é bem digna da historieta do início deste longo e enfadonho post que tem a única finalidade de prestar uma homenagem. Quero dizer, o filme não é horrível, tampouco ótimo e o McQueen tem também uma boa atuação. A questão é: a que disparates essas obssessões podem levar um homem de bom senso fazer ainda não sei, mas quem não tem um ponto fraco?




obs: havia me comprometido de deixar aqui minha opnião de que gosto mais de Tarantino que de Almodóvar. Não conseguindo encaixar no texto, vai na observação mesmo.


obs2: Não assistam o diário secreto de meu namorado!




NOTA:

domingo, setembro 30

Pergunte ao Pó (Ask the Dust, EUA, 2006)

Estou postando isso aqui pra o mês de Setembro não ficar sem nenhum post.


*
Só é preciso ler os três primeiros parágrafos do romance Fome, de Knut Hamsun, para saber de onde John Fante extraiu toda a sua essência literária. Ok, ok, estou exagerando: naturalmente que Fante tem o seu canto particular e que sua obra-prima Pergunte ao Pó é um livro maravilhoso, mas após assistir à adaptação homônima para o cinema fico até com vergonha de indicar o livro para alguém que só assistiu ao filme, tamanha a ruindade deste último.

O homem por trás de toda essa barbárie é Robert Towne, cujo crédito detém-se no roteiro adaptado e na direção. Como? Se eu não errei o nome? Negativo. É difícil de acreditar, mas é realmente Robert Towne, o mesmo roteirista do clássico Chinatown, estrelado por Jack Nicholson. O que ele fez para deixar Pergunte ao Pó tão ruim, não pergunte a mim - pergunte ao pó, talvez seja melhor.

Acabo de decidir que pôr uma câmera nas mãos de Robert Towne é crime; é mais confiável deixá-lo apenas escrevendo. Salma Hayek, uma beldade por excelência, não conseguiu salvar o filme com sua beleza avassaladora. Colin Farrell mudou a minha postura sobre a pena de morte. Olhem só o pôster do filme: engana, e engana muito.

O cinismo espontâneo de Arturo Bandini deu lugar à má dicção de Colin Farrell. A desesperança de Los Angeles e o niilismo sutil presentes na obra de Fante fizeram permuta com o melodrama barato hollywoodiano de quinta, numa tosca, ingênua e frustrada tentativa de deixá-lo meio comercial meio alternativo. Não entendo lá essas coisas de cinema, mas me atrevo a dar uns palpites: Walter Salles faria uma adaptação mais decente. Falo sério. Talvez John Huston, que já morreu, mas não tenho certeza: Huston só almejava o grandioso e as locações estrangeiras (ele até adaptou Os Mortos, o contaço - em todos os sentidos - de James Joyce). Sam Mendes tem um bom histórico. Mas o melhor mesmo é esquecer: não dá para chorar o pó, digo, o leite derramado.

Para quem não leu o livro talvez esse filme seja “ASSISTÍVEL”, mas para quem já se deleitou com a obra Pergunte ao Pó e esperava alguma coisa no mínimo respeitável, a nota merecida não pode ser maior que “RUIM”.

NOTA:

sábado, agosto 4

Interpol - Our Love to Admire, 2007


Atenção, senhores: está para começar o julgamento final que decidirá a resposta para a pergunta que surgiu exatamente após o mês de agosto de 2002: a banda Interpol tenta ou não fazer uma cópia descarada da banda Joy Division? Fiquem de pé, pois o juiz João Daniel vai entrar (hahahaha).

Podem sentar agora. A banda de nova-iorquinos formada em 1998 acaba de lançar seu terceiro Cd. Está na hora de pô-la contra a parede.

A verdade é que eu já fui fã de Interpol. Devo ser ainda, mas não tanto. Todos sabem que a cabeça de um fã Indie é complexa demais para a compreensão humana. Eu mesmo tentava defender Interpol, superestimando-lhe a autenticidade (não digo que Intepol não é original e nem que uma banda boa tenha que ser diferente de tudo, mas os meus argumentos passavam dos limites). Primeiro falei que Interpol nada tinha de Joy Division. Depois, passei para o “parecido vagamente”. Mais tarde, o “realmente semelhante, mas isso não significa nada”. Por último, dei por mim cantarolando na cozinha uma música de Interpol e acabei emendado, não sei como, She’s lost control, de Joy Division. Desisti.

Todo e qualquer artista sofre influências, quer queira ou não. Dizer que é uma cópia é outra história - é ofensa; nenhum artista que se preze, e até os que não se prezam, deseja isso. E Interpol não é cópia. É uma banda de fortes reminiscências de Joy Division. Bem forte. Uma homenagem, talvez. Ou uma cóp... !(tossindo). Perdão.






FAIXA A FAIXA

1) Pioneer to the falls

Não dá pra ouvir essa música sem imaginar Ian Curtis se sacudindo lá na tumba dele. É talvez a mais sombria do álbum. Eu ia me atrever a dizer que a voz de Paul Banks finalmente ficou mais melancólica que a de seu “alter-ego”, mas ainda falta muito para isso (e talvez ele nem queira).

2) No I in Threesome

Finalmente o sangue Interpoliano, se me permitem a expressão. As mesmas guitarras, o mesmo baixo, a mesma caixa da bateria, o mesmo tom da música. Eu não queria ser muito duro, mas não dá: a maior decepção desse terceiro disco foi a sensação sublinhada de “Repeteco”. Sem a emoção do primeiro e os riffs do segundo. Entretanto, essa música não é de todo descartável.

3) The Scale

Eu gosto da bateria do Interpol. É da boa, mesmo. Por isso eu não consigo detestar essa música. Tem um back vocal aqui horrível. Por sorte, dura somente alguns segundos.

4) The Heinrich Maneuver

Foi a desgraça propagandística do Interpol ter posto essa música como anúncio para o álbum. Não é das melhores, não é das mais surpreendentes e parece música para treinamento. Ainda assim, é Interpol.

5) Mammoth

A mais insólita. O engraçado é que eu espero algo diferente e quando o bicho vem tomo um susto danado. Se você quiser apresentar uma genuína música de Interpol a outro alguém escolha qualquer uma, menos essa.

6) Pace is the Trick

Talvez a melhor. Boa mesmo. Digamos que seja a Narc deste álbum. A bateria, como sempre, quase idêntica a de todas as outras músicas, mas um bom ouvinte relevará isto.

7) All Fired Up

Outra boa. Esse baterista deve ser o mais fiel e rotineiro dos maridos, se for leal à sua esposa como é aos compassos de bateria que aplica no Interpol. Nessa aqui até que ele ousa mais variações.

8) Rest my Chemistry


Pára tudo! Pára tudo! Acordes menores misturados com maiores?! Guitarras sobrecarregadas?! Voz cantada de forma quase Folk em alguns trechos?! TRILO DE GUITARRA?!!! Quando ouvi, não acreditei. Mas é a verdade: essa música tem tudo isso. E em todas as outras praticamente não se vê.

9) Who do you Think?

Um inicío que promete, mas só. Mais um C’mere da vida.

10) Wrecking Ball

Estou começando a achar que a Seção Repeteco ficou mesmo lá na primeira metade do Cd. Essa música aqui, além de ter o melhor riff de todas, tem um back vocal menos escroto que o da 3ª e ainda notas estendidas por cima dos outros instrumentos, algo raro em se tratando de Interpol. Valeu a pena esperar o Cd chegar até aqui.

11) Lighthouse

A última música do disco é também a mais melódica. Tem ares de New Age, mas bem poucos (eu é que sou implicante). Por um instante, remete a Alphaville (mas qualquer música que tenha um órgão tocando lentamente remete a Alpahville). A bateria é a mais diferente de todas, e tem um Surdo monstruoso aqui.

Eis, deliberadamente forjado, o veredicto:

NOTA:

terça-feira, julho 24

Medo e delírio (Fear and Loathing in Las Vegas, EUA, 1998)



fiodaerperhiueoapreireawrerfiodaerperhiueoapreireawrer
fiodaerperhiueoapreireawrerfiodaerperhiueoapreireawrer
fiodaerperhiueoapreireawrerfiodaerperhiueoapreireawrer
fiodaerperhiueoapreireawrerfiodaerperhiueoapreireawrer
fiodaerperhiueoapreireawrerfiodaerperhiueoapreireawrer
fiodaerperhiueoapreireawrerfiodaerperhiueoapreireawrer
fiodaerperhiueoapreireawrerfiodaerperhiueoapreireawrer
fiodaerperhiueoapreireawrerfiodaerperhiueoapreireawrer
fiodaerperhiueoapreireawrerfiodaerperhiueoapreireawrer


NOTA:

domingo, julho 22

Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, EUA, 1993)


Eu nem lembrava mais desse blog, quando Davi me pediu para postar primeiro, pois esta atitude iria encorajá-lo. Então lembrei de uma conversa sobre cinema que estávamos bifurcando, por assim dizer, e em certo momento revelei a mais nova e assombrosa notícia cinematográfica nacional: O Ministério da Cultura liberou o filme “O doce veneno do escorpião”, baseado no livro autobiográfico da ex-garota de programa Bruna Surfistinha. Isso não seria nada demais se não fosse a dinheirama que será utilizada para tal façanha: nada menos que uns 4 milhões de reais. Naturalmente que descarreguei as maiores injúrias encima dos meus ouvintes sobre este fato. Davi tentou amenizar: disse que para um filme essa quantia não é tão grande. Eu emendei: "Sim, para um filme hollywoodiano não, mas o Brasil não pode dar quatro milhões assim de bandeja". Ele tentou retrucar, e eu interrompi: "E mais! Quentin Tarantino fez Cães de Aluguel com apenas cem mil dólares!". Pensei ter convencido, mas o miserável não se deixou abater. Mesmo assim, a única coisa que pôde dizer foi: "Ah... mas Tarantino é gênio!"

O primeiro filme de Quentin Tarantino é uma pérola. Já existem tantas críticas e opiniões sobre essa película que eu só a escolhi mesmo para contar a estorinha acima. No mais, posso dizer o que todos já sabem: sim, o humor de Tarantino é ótimo, cáustico, criativo. Suas referências à cultura pop são realmente bacanas. Seus diálogos são fantásticos, vivazes, mas nem sempre; às vezes vêm como uma tsunami louca (mas bem poucas).

Dos atores, falo de Steve Buscemi, um grande cara, mas que demorará para se livrar de um reputação apenas underground (para não dizer indie). Tim Roth, cuja atuação todos se impressionam, é um ordinário e chato, mas realmente sua atuação em Cães de Aluguel não é ruim. E por fim Harvey Keitel, um grande ator, mas sempre à sombra da trindade dos coroas De niro - Pacino - Nicholson; em fama, note-se, mas não em qualidade. Gosto dele.

Cães de aluguel, sucesso de público e crítica, trama inteligente e única, estilo Tarantiniano de narrações não-lineares e mistura de humor com violência, ou melhor, com ultraviolence. Embora eu concorde que Tarantino seja um gênio única e particularmente pelo fato de ter feito um bom filme com cem mil dólares, ainda assim não posso negar que Cães de Aluguel seja acima da média.

NOTA:

quinta-feira, junho 14

Introdução

Quando o ócio exacerbado e uma sede inexplicável invadem um indivíduo, nasce a vontade não mais que saudável de se lançar disparates inconstantes e imprudentes. Este espaço virtual se compromete a lacrimejar pupilas e mergulhá-las em tons vermelhos com textos sobre cinema, música e literatura (necessariamente nesta ordem). Aqui serão registrados tão-somente nossas opinões e divagações sobre os temas; não temos a pretensão (ou temos) de sermos alcunhados críticos especializados, estudiosos, puritanos, vanguardistas, ortodoxos ou peritos no assunto em geral.

O nome deste título surgiu do quase-nada e sem explicação alguma, na tentativa de condensar os três temas numa espécie híbrida equatoriana de palavra-chave.

Atirem suas moedas, peçam alguma coisa, ouçam o tilintar do cobre e contemplem o Fundo do Poço, entidade não-governamental que com certeza não realizará o seu pedido.