quinta-feira, dezembro 20

ESTAMOS DE FÉRIAS

O BLOG ESTÁ DE FÉRIAS.

quarta-feira, dezembro 12

A Agenda Secreta do meu namorado (Little Black Book, EUA, 2004)



Calma: não fechem a página. Eu posso explicar. Não limpem seus óculos nem balancem o monitor achando que ele está com defeito. Eu realmente irei falar sobre o ultrajante longa-metragem A Agenda Secreta do meu Namorado, dirigido por Nick Hurran e estrelado por Brittany Murphy e ela. Quem é ela? Vocês sabem: Holly Hunter. Foi somente por Holly Hunter que eu me rebaixei, me humilhei e me sujeitei a assistir esse dejeto impecável dos tempos modernos, essa carniça inefável e atemporal, este antológico pedaço de bosta cinematográfica.

O diretor é homem, mas o roteiro é de mulher. Uma vez Rodrigo, nosso colega moedotecário, escreveu: “poesia de mulher: quando é bom, é bom demais”. Esta frase não se aplica apenas à poesia, mas às artes em geral, e o cinema não é exceção. Quando uma diretora é boa, ela é BOA. Exemplos: Jane Campion, Lucrecia Martel, Sofia Coppola, Lynne Ramsay; talentosíssimas cineastas. Mas penso que nós as exaltamos em demasia. Não que elas não sejam incríveis, mas o fato é que tratamos as mulheres na cultura como verdadeiras pepitas de ouro. O ouro vale muito. Por quê? Por ser raríssimo, difícil de encontrar. Assim são as mulheres na arte: quando encontramos as boas, adulamo-las mais do que deveríamos, por elas serem preciosas para nós. Eu mesmo faço isso o tempo inteiro. Não estou também querendo dizer que geralmente filme de mulher é ruim (embora realmente seja): a verdade é que o mundo patriarcal não lhes deu oportunidades. Apenas a partir da modernidade que desceram os primeiros grãos da ampulheta da emancipação artística (dentre outros) da mulher. É por isso que as talentosas são ouro. Quem vai negar que Sofia Coppola é desesperadamente idolatrada, juntando ao fato de ser filha do gigante Francis Ford Coppola? Quem replicará a idéia de que Clarice Lispector e Virginia Woolf são escritoras incondicionalmente superestimadas? Quem se atreverá a negar que Janis Joplin ou Patti Smith foram capazes de influenciar toda uma geração?

Hoje em dia a coisa não está ausentada de problemas: este campo tão facilmente distorcido pelas feministas é um prato cheio para os falsos moralistas, os politicamente corretos e os humanistas de plantão. A maioria deles mantém a ingênua postura de não criar uma identidade para a mulher, mas sim de deixá-las semelhantes e “à altura” dos homens, o que é ridículo. Às vezes as próprias mulheres agem desta controversa forma: boa parte delas se obriga a se entreter, ou pior, gostar apenas de filmes, livros ou músicas cuja autoria é feminina. Algo, a meu ver, insensato e, com o perdão da palavra, besta. Para mim não há distinção. Renata Belmonte, uma escritora daqui da Bahia, jovem e soteropolitana, após lhe perguntarem numa entrevista um poeta, um livro e um filme de sua predileção, respondeu (respectivamente): Hilda Hilst, O amante, de Marguerite Duras, e Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola. Pode ser uma enorme coincidência. Ou não.


***

Mas voltemos ao filme. Percebe-se claramente que o escolhi apenas para expor a modesta reflexão acima, já que o roteiro é de uma mulher. Só não me perguntem por que eu não escolhi um filme bom, que não irei responder.

A agenda secreta do meu namorado é ruim. O roteiro, além de péssimo, contém filosofia de quinta: a personagem de Brittany Murphy está numa crise bizarra; o filme se inicia com a mesma dentro de um carro, mantendo forçosamente uma expressão chorosa e raquítica, se questionando acerca de fidelidade, sorte e um punhado de baboseiras. Embora bela, Murphy está incrivelmente antipática. Como Holly Hunter entrou nessa barca furada, nem o diabo sabe. Ou ela estava passando fome (bem que eu a achei um tanto magra) ou ela tem dupla personalidade e sua segunda é uma louca, uma ridícula.

O filme apela mesmo, no pior dos sentidos. Se fosse em sexo, menos mal. Mas a maldita roteirista quer porque quer se fazer de inteligente. Numa cena do filme as personagens falam do diretor Mike Nichols (A primeira noite de um homem, Closer), alcunhando-o gênio (tentativa desesperada e inútil da roteirista de provar que conhece sua área de trabalho).

Em certo trecho, a personagem de Hunter revela a sacanagem que proporcionou à heroína, num momento de reviravolta a la Malhação-Novelas Mexicanas. Levantei do sofá e pensei: “Epa! Esse filme pode deixar de ser abominável e passar a ser apenas lastimável”. Mas foram vãs as esperanças nutridas. O filme acaba da pior forma possível: a mocinha não fica com o namorado, no pior estilo “não-sou-só-mais-um-enlatado-hollywoodiano”, ou “sou original: não ficamos felizes para sempre”. E eu juro para vocês que a guria descaradamente afirma quase isso no trecho final.

Um detalhe: quando Brittany Murphy descobre que Holly Hunter sacaneou com ela (através da mesma), ela diz para a vilã, aos prantos: “Eu poderia arrancar seus olhos... mas como você se olharia no espelho depois?” E bam!, impacto profundo!, Hunter percebe a safadeza que fez, cai a ficha e cada uma segue seu infeliz caminho. Fiquei me perguntando em qual filme a roteirista viu aquela frase, em qual livro de auto-ajuda ou revista feminina, sei lá, de astrologia.


NOTA:



P.S. E é com enorme satisfação que eu anuncio a primeira nota mínima do Blog.

sábado, dezembro 1

A Tarde de um Escritor - PETER HANDKE (Editora ROCCO, 80 pág.)


Eu sempre gritei aos quatro cantos que era indiferente ao cinema. No entanto, isso tem mudado. Mesmo por que, afinal, ninguém é de ferro. E é impossível manter-se indiferente às suntuosas imagens de François Truffaut, por exemplo, ou (onde exatamente quero chegar) ao famoso e bonito diálogo entre os anjos em Asas de Desejos, de Wim Wenders, quando eles listam as humanices de que mais invejam. Este diálogo, pelo que se sabe, foi escrito por um alemão chamado Peter Handke. É ele também o autor deste A tarde de um escritor, um livro bastante piegas e sem muito a acrescentar a quem almeja lidar com as palavras — digo isso porque na orelha do livro vem escrito justamente o contrário. Abro um parênteses para admitir que sou adepto àqueles que julgam que a orelha de um livro deveria também vir críticas nem sempre elogiosas à obra, e sim dotadas de um espírito crítico mais severo, por assim dizer.

Confesso o meu desapontamento após dar o livro (livreto, já que possui 80 páginas) como lido. Como o título bem diz, Handke descreve a tarde de um escritor às voltas com uma crise criativa, vagando pela cidade onde mora e seus arredores, visitando bares, observando os homens, as copas das árvores, etc, etc, mas leva oitenta páginas para dizer tudo que quer e afinal nada diz de relevante. Algumas imagens são bonitas, mas e daí? Trata-se de um livro descritivo, moroso, sonolento, cuja sensibilidade ultrapassa a tênue linha das coisas que valem a pena (como, no filme citado, o diálogo entre os anjos) e desemboca no grande abismo da mediocridade. Como exemplo um pequeno trecho adiante que não me desafia a desdizer nada do que eu disse, e além do mais, ainda reitera: “Iniciei-me no ofício da palavra! Seguir em frente. Deixar estar. Deixar valer. Representar. Transmitir...”.

Concordem que é de um mau gosto hediondo.

NOTA: