sábado, maio 31

Continuação do ESPECIAL DE MÚSICA Nº 1 - Bob Dylan I, o Trovador


O segundo momento deste especial a respeito de Bob Dylan já está devidamente publicado e esperando a sua leitura. Desta vez, desfila pelo texto uma seqüência de impressões, juízos e sensações diante do segundo e clássico álbum do artista: The Freewheelin' Bob Dylan.

Death of a Salesman - Arthur Miller (Editora Viking Press, 139 pág.)


É inevitável: lê-se um breve comentário, uma resenha, uma análise, um tratado sobre alguma obra de arte norte-americana e, em algum ponto da referida leitura, encontrar-se-á a referência, a explicação, o dado, a ligação com o sonho americano. Ao menos, com o tal american way of life. Toda e qualquer obra literária é uma crítica a tais "entidades" - o oposto ocorre com a arte cinematográfica, que é inteira de propaganda do império. Faulkner? Steinbeck? Twain? Hemingway? Dickinson? Quem quer que seja, seja de onde seja (norte, sul profundo, oeste distante, leste) está combatendo os sonhos da nação. As mais descabidas releituras (sejam culturais, políticas, ideológicas) são feitas a partir de pontos mínimos de qualquer obra - pontos que, por meio deste procedimento, são superestimados e acabam relegando a obra em si a um segundo plano.

A condição imperial dos Estados Unidos, naturalmente, gera ressentimentos e incompreensões (justificáveis ou não). Já ouvi, certa feita, que o sonho americano se resume a dois carros na garagem e a uma casa branca com jardim. Aprendi que o american way of life é assassinar os colegas de escola. Presenciei a iluminação de outrem: a luta pelos direitos civis não resultou em nada porque tudo que se passa na América do Norte é hipocrisia, barbárie, farsa. Não é de surpreender, portanto, que todos os livros dos imperialistas sejam minimizados à condição de armas contra a própria nação que criou seus autores.

Pois é aí que chegamos a Arthur Miller. Houve um momento na vida deste simpático dramaturgo em que ele, de fato, almoçava com Marilyn Monroe - e não se enganem: este devia ser o momento mais enfadonho do seu dia. Não tenho pudores em afirmar que esta seria uma definição mais correta do sonho americano: almoçar com Marilyn Monroe. Além do casamento com a loira, o maior feito de Miller foi nos ter legado uma vasta dramaturgia e, sobretudo, a obra Death of a Salesman - uma peça que, dizem-me, tenta desmoralizar os meios de vida e ascensão da classe média gringa.

É provável que haja certo fundo de verdade nesta idéia. Por conta da opção do autor em explicitar local, data e em trabalhar com tipos reconhecíveis, é natural que haja a forte presença da cultura do sítio em questão. Mais certo, contudo, é o fato de que direcionar as análises do drama ao trato que o autor dá a temas sociais, culturais, políticos e econômicos é reduzi-las drasticamente. E toda análise que se reduz trata de apequenar a obra analisada. É como afirmar que Vidas Secas é sobre a seca - é tomar o livro pelo título e pela capa com foto ou desenho de retirantes famintos.


Sim, Willy (personagem central da peça) é um típico americano médio (reconheçam aqui o termo "medíocre"): numa busca constante por dinheiro e status, vive um casamento aparentemente tranqüilo, mas repleto de segredos e traições. Por outro lado, é possível defini-lo como um homem inseguro e ultrapassado numa procura desesperada por aprovação - e que, nesta procura, não se contenta em apenas fantasiar a realidade (imaginando-se influente, poderoso e querido quando, na verdade, é uma companhia indesejável, um andrajo obsoleto num meio que já não necessita dele), mas tenta também convencer a sua família da veracidade do seu delírio. Bill, um dos seus filhos, resiste a isso desde que, ainda adolescente, soube seu pai hipócrita e perdeu estima e respeito por ele.

E é justo no conflito entre pai e filho (milenar, histórico e, portanto, não apenas estadunidense) que se concentra a obra. As fraquezas e crueldades dos personagens não existem apenas dentro das imensas fronteiras ianques. São traços de um caráter que existe em todo lugar - e, por isso, a obra é grande, obrigatória: não se faz boa literatura para a província ou para os camaradas. Sábato Magaldi, no ensaio "Modernidade de Arthur Miller" afirma, a respeito da faceta política e social comumente apontada na obra do dramaturgo, que "Com efeito, esses elementos que sublinhamos são nítidos e importantes, mas não constituem toda a complexidade de sua expressão artística. Definem-se, por assim dizer, como o macrocosmo cênico, dentro do qual evoluem as psicologias individuais. As personagens não existem para ilustrar uma tese social".

O ensaísta mineiro resume aí as relações que existem entre a individualidade dos personagens e o meio social em que sobrevivem: ao mesmo tempo em que Willy é relegado a uma posição inferior por conta da sua datada profissão de caixeiro-viajante, devidamente superada pelas fórmulas de venda e publicidade modernas, é notável a sua persistência em não aceitar as mudanças e continuar uma vida irreal e cheia de esperança - esperança tola, injusfiticada e, com vemos ao fim da peça, que serve apenas para condená-lo.

A estrutura do drama (dois atos e um breve réquiem entrecortados pelas lembranças e pelo delírio de Willy) não é de fácil assimilação, além de ser extremamente irônica e opressora - sobretudo por conta da progressiva alteração no cenário: pouco a pouco, a imagem de prédios altíssimos trata de cobrir a vista que se tem da janela da casa, uma representação clara da modernidade que acossa o caixeiro-viajante. Termina-se a peça com o descrédito absoluto dos personagens: quando o outro filho de Willy, o mulherengo e tolo Happy, diz que "I'm gonna show you and everybody else that Willy Loman did not die in vain", sabemos que é pura farsa. A ridícula e enfática farsa do luto.

Mais revelador, porém, é o diálogo que Linda, esposa do digníssimo falecido, mantém com o túmulo: após contar-lhe que, enfim, terminara de pagar as prestações da casa, afirma "We're free and clear". Notável não é o poder do autor, mas do próprio drama, que parece correr naturalmente até esse desfecho melancólico e cômico sem a interferência direta do dramaturgo. A grande peça, lembremos, é aquela cujo autor é um demiurgo discreto e silencioso - que apenas sorri perante a tragédia da matéria que ele cria.

NOTA:

quarta-feira, maio 28

Rufus Wainwright - Release the Stars, 2007


Rufus Wainwright não é um cantor. É uma cantora. E com toda sua opulência feminina — aqui estou de acordo com José Flávio Junior —, Rufus é uma Diva.

Como toda Diva que se preza, alguns adjetivos não lhe podem escapar: soberba, autêntica, complicada, etc, etc... Rufus, entretanto, ainda possui mais duas qualidades que ora falta a uma ou a outra Diva: talento e competência.

Pode-se ter uma bela mostra de seu talento e competência em Release the Stars (maio de 2007), quinto álbum autoral de uma carreia quase impecável — digo quase e depois explico. O disco, se não percorre fielmente os caminhos excessivos que os dois últimos sugeriam, não me parece também uma retomada do que foi feito antes deles, que é o que muita gente anda dizendo por aí. Release the Stars é um grande trabalho por mostrar uma face do Rufus que só o tempo lhe pôde dar: maturidade. E esta maturidade foi, como podemos ouvir ao longo do novo repertório, bem traduzida em sabedoria e sobriedade. O que há de grandioso, eloqüente, não se torna exaustivo, excessivo.

Mas vamos esclarecer o quase impecável. Cabe uma ilustração, um pequeno caso.

Certa feita, ao ouvir a canção "Agnus Dei", que inaugura seu penúltimo álbum, Want Two (uma bonita canção, sem dúvida), declarei que aquilo feria meus ouvidos. Mas por que me feria se a canção é mesmo bonita? Feria porque, cantada em latim, daquele jeito, pareceu-me de uma arrogância e vaidade intoleráveis; o que de certo modo me trouxe antipatia por todo disco. Minha declaração mexeu com o brio de alguns amigos que o admiram. Na época não me fiz entender corretamente, e minhas palavras soaram como uma implicância boba. Bombardeado com argumentos do tipo: “vaidade é para se ter mesmo”, calei-me. Silenciei-me porque as discussões não nos levam a nada, ou por outra, levam-nos à batalha de perdigotos. Aquela arrogância e vaidade que me feriam os ouvidos era senão ímpetos de um jovem talentoso desprezando etapas importantes de amadurecimento da sua arte. Não sou nenhum tonto, sei que há canções em Want One e Want Two que figuram entre as melhores e maiores que um cantor/compositor pôde escrever e cantar. Mas o que ocorre é que esses discos não possuem unidade, coesão, seus repertórios oscilam demais. Há entre uma e outra música célebre uma faixa que se não existisse não faria diferença alguma. Esse argumento foi usado também por Graciliano como jurado de um concurso literário no qual o ainda inédito Guimarães Rosa concorria. Graciliano votou contra Guimarães argumentando que em um livro onde se encontrava uma das melhores letras do país não podia conter contos de segunda grandeza. Seria um equívoco dar-lhe o prêmio naquele momento, como seria um equívoco chamar Rufus de gênio antes dele lançar essa obra tão coesa e bela que é Release the Stars. Se Rufus já chamava atenção, preciso dizer que é hora de reverenciá-lo. Não tenho nenhuma dúvida de que seu nome ficará para posteridade como a maior Diva do começo do século 21.


As meninas não têm vez

Faixa-a-faixa


1 - Do I Disappoint You
Uma linda opereta com tom de desabafo. “Eu te desaponto por ser um solitário?”, canta Rufus.

2 - Going To A Town

Este é o primeiro single. Há quem diga ser uma música política, engajada. Para mim não faz a menor diferença. Como canção ela é exemplar. Ponto alto para as segundas vozes; femininas, ao que parece. “Eu tenho uma vida para guiar, América”.

3 – Tiergarten

Uma das canções fundamentais para se entender o amadurecimento artístico de Rufus: uma ponte irresistível entre o popular e o erudito. Lembra Brain Wilson e Bach.

4 - Nobody's Off The Hook

Canção documental e fortemente biográfica. Possui as cordas mais bonitas do disco; violinos, violas, cellos em ação, chegam a comover a mais áspera das pedras.

5 - Between My Legs

O arranjo com guitarras encobre a dura confissão da letra.

6 - Rules And Regulations
Parece uma música retirada do Sgt. Peppers, só que com alguém cantando muito melhor que a dupla Lennon/ McCartney.

7 - I'm Not Ready To Love
Balada ao violão onde a melhor performance vocal do disco está.

8 – Slideshow

Na altura de 1 minuto e 39 segundos é impossível manter a respiração e os pêlos do braço indiferentes.

9 – Tulsa

Para mim, a melhor canção do disco. Não sei se os ares eruditos de Berlim (lugar onde o disco foi gravado) exerceram alguma influência, mas o que acontece nos 2:20 dessa música é a simbiose perfeita do popular com o erudito.

10 - Leaving For Paris No. 2

Não há instrumento que combine mais com a voz de Rufus do que um piano. Nessa balada, as notas graves criam uma atmosfera tristonha que as cordas, sobretudo os cellos, realçam com maestria.

11 – Sanssouci

A música pop por excelência. Refrão excelente, etc, etc.

12 - Release The Stars
Diz-se ter muito da mão do produtor Neil Tennant nessa canção, sobretudo nos sintetizadores, nos efeitos sonoros que custo a ouvir. Enfim, não consegui separar o que é produção do que é criação genuína de Rufus. Então fico pensando o seguinte: não importa. Tudo de bom em Rufus está nessa canção: voz poderosa, arranjo grandioso, atmosfera de caberé, musical da brodway, etc, etc, etc.


NOTA:

domingo, maio 25

Seção TOP 5 - nº 2

Sai a 2ª edição da Seção TOP 5. Desta vez, são os 5 Romances Prediletos... CLIQUE AQUI PARA CONFERIR!

sábado, maio 24

ESPECIAL DE MÚSICA Nº 1 - Bob Dylan I, o Trovador


De Bob Dylan a Highway 61. Ainda No direction home e I'm not there. Por fim, Crônicas. Analisando discos, filmes e livros de ou a respeito de Bob Dylan, o Moedoteca não pretende traçar um perfil, não espera desvendar, não se interessa pelo fim das dúvidas e dos erros que o cercam. Pelo contrário, tratará de apontar o demônio como responsável por sua habilidade ao violão, não demonstrará pudores em acreditar que ele atravessou o país num trem de carga até chegar ao Greenwich Village e terá a mais plena convicção ao afirmar que Dylan se trata de um song and dance man - ou do maior compositor da grande nação estadunidense.

Seguindo a ordem cronológica dos discos,
inicia-se hoje o especial a partir de Bob Dylan, notável álbum de estréia, de 1962.

POST TRIPLO: Suzanne Vega - Retrospective, 2003 / CocoRosie - La Maison de Mon Rêve, 2002 / Stina Nordenstam - And She Closed Her Eyes, 1994


Provavelmente nenhum, mas nenhum ser vivo da face da Terra concordará com a frase que direi a seguir: considero Suzanne Vega tão boa letrista quanto Chico Buarque. Eu sei: isso é estapafúrdio, é uma completa loucura. (UPDATE: Até mesmo o Blogger ficou revoltado com essa comparação: quando fui publicar a postagem ele se recusou a fazê-lo, e o comando ficou dando erro por bem uns 50 minutos – só agora consegui publicar). Mas se já disseram que Chico não serve como padrão de música de qualidade, e sim Faith No More, acho que também tenho o direito de afirmar minhas ignorâncias.

Não sei se o certo é dizer se Suzanne Vega é subestimada ou se ela é ignorada. A única certeza que tenho é a de que quase ninguém lhe dá bola, e pouco importa saber mais a seu respeito. Seu próprio nome não é atraente, tem um quê de banal, e sua imagem artística também não chama a atenção (muito embora as fotos do novo álbum sejam encantadoras). A coitada já fez mais sucesso na década de 90: já foi comparada a Joni Mitchell (exagero, mas tudo bem), a Lou Reed (exagero absurdo, mas tudo bem) e a Leonard Cohen (exagero completamente absurdo e descabido, e não está nada bem). E quem não conhece Luka, canção que toca em vários bares semi-undergrounds e que todos cantarolam mas ninguém sabe de quem é?



Voltando à questão da letra: quando comparo Vega a Chico, falo da construção. A construção desses dois é, em todos os sentidos, impecável. Naturalmente que os níveis de impecabilidade podem divergir, e devo dizer que o de Chico Buarque é claramente superior ao de Suzanne Vega; vendo por esse lado, eu praticamente nem cheguei a compará-los. Sugiro que vocês dêem uma olhada na letra de Marlene on the wall, de Vega.

Quanto ao disco Retrospective: altamente recomendável. TODAS as canções são boas. Mas, por serem um tanto convencionais, são pelo menos 3 vezes inferiores à qualidade das letras. Por esse fator, acho a nota 4 bastante justa. Sem contar que é uma coletânea.



Sinto-me muito agastado quando ouço CocoRosie. Porque eu simplesmente acho maravilhoso e não condiz com nenhuma das minhas opiniões sobre uma considerável proposta musical ou como um artista do gênero deveria se comprometer e bla bla bla. CocoRosie quebra com todos os meus postulados e sepulta quase todas as minhas concepções (e isso só Jorge Ben Jor consegue fazer). CocoRosie é virtuose, é a verve do artista, é quase vanguarda. As famosas Sierra e Bianca Casady são donas de vozes tão viscerais que, quando as escuto, minhas têmporas literalmente sofrem convulsões. Sinto um estremecimento nas áreas laterais do pescoço e meu lábio inferior começa a adormecer. Repito: à exceção dessas duas, só Jorge Ben faz isso comigo.

CocoRosie é, definitivamente, música para poucos. As primeiras impressões são previsíveis e negativas: muito tolinho, muito nhénhénhé. Quem não já disse “Desliga isso” ou “Tira essa idiotice da minha frente” quando ouviu By Your Side? Eu, quando a ouvi, tomei um susto: primeiro pensei que baixei uma gravação caseira e amadora ou a música errada. Mas, ao apreciá-la integralmente, percebo que, pelo contrário, as irmãs sabem o que fazem, cantam bem e, mesmo que estejam brincando, o fazem com muita irreverência. Acho que a dupla é bastante hermética e difícil de ser compreendida. Eu, embora goste, creio que ainda não a entendi por completo, e prefiro assim.

La Maison de Mon Rêve é seu disco de estréia, nascido de um encontro casual das irmãs no apartamento de uma delas em Paris. Faixas como Terrible Angels, By Your Side, Jesus Love Me e Good Friday fazem valer a pena a aquisição do produto.


Quando apresentei Stina Nordenstam a meu caro colega Eder Fernandes, ele ficou chocado, indignado, e não mediu esforços para me dizer o quanto era intragável o disco que eu havia lhe emprestado. Ao sugeri-lo ao outro colega, o Rodrigo L., a única resposta que recebi foi um silêncio sepulcral. Fiquei tão aturdido que não tive coragem de mostrar a cantora também para o último dos colegas, Davi Lara, que provavelmente não a veria com bons olhos, ou melhor, "não a ouviria com bons ouvidos". A verdade é que nem eu mesmo sei por que admiro esta pequena notável. Stina Nordenstam é uma sueca que canta em inglês e possui o sotaque mais idiota que eu já ouvi (não é que seja peculiar ou estranhíssimo; é ridículo mesmo). Não dá pra entender nada do que ela diz, absolutamente nada. Sua voz é de um agudo absurdo, parece a de uma criança, e é o instrumento que mais se sobressai nas músicas, todas minimalistas, etéreas e morosas, cujas letras têm qualquer coisa de obscuro e introspectivo. Ainda assim, fico angustiado só de pensar que adoro esta infeliz, e mais ainda o álbum em questão, e mais e mais ainda a música-título, And She Closed Her Eyes, que é a minha 2ª predileta de todas as músicas existentes, ficando atrás apenas daquela do Dylan. Isso é absurdo. Vejam um trecho da letra, primeiramente como um falante de inglês normal ou um de sotaque (o meu caso) cantaria; e, logo abaixo, a forma como ela canta:


A letra, na forma escrita:

And she closed her eyes and said
No I'm not in love
I'm not in much
For real


*
Eu (ou um falante de língua inglesa) cantaria mais ou menos assim:

End xi clôs rer ais end sei
Nô aim nórin lóv
Aim nórin mãtchi
For ríeu


*

E ela canta mais ou menos assim:

à xi cãis tim vais san síuver
Nô a nê im nhem
Nô a nê im nhem
Fô ríeueu

Ou seja: um absurdo. Não sei como ela transformou o “Said” em “Silver”, o “Love” em “Nhéim” e o “Mutch” em – loucura! – “Nhéim” também. Pois é. E isso é só o sotaque.



Hoje em dia essa artista é tabu para mim. Tenho medo de apresentá-las para as outras pessoas, não sei pronunciar seu nome e nem quero saber como se diz, mas já vai fazer um ano que espero desesperadamente por um álbum novo (não lança desde 2004). Depois de ouvi-la pelas primeiras vezes (não lembro de onde tirei seu nome), saí procurando coisas a seu respeito. Descobri que ela é bastante respeitada na Suécia, é admirada por vários artistas, dentre eles o Brett Anderson do Suede e, imaginem só, o falecido Ingmar Bergman. Mas parece que essa bola toda não saiu das terras escandinavas. Embora esses elogios ou qualquer crítica a respeito não signifiquem muita coisa, devo confessar que me sinto bem mais aliviado.




Retrospective - The Best of Suzanne Vega:



La Maison de Mon Rêve:



And She Closed Her Eyes:

quarta-feira, maio 21

Chico Buarque - Carioca, 2006


Em cada esquina, mesa de bar ou banco de praça que se olhe se vê um especialista em música popular. Vestidos de ares graves, intelectuais e universitários publicam livros e escrevem em blogs suas opiniões inteligentes sobre esse ou aquele cantor, aquela ou a outra canção. Do mesmo modo, mas com uma sabedoria desinteressada, as pessoas nas ruas e em suas casas elegem seus reis e sua plebe. Apaixonados ou displicentes todos têm um juízo e uma opinião gabaritada sobre música. Pois então, foi com renovada surpresa que ouvi falar-se em burburinho do Carioca, mais recente álbum de Chico Buarque.

Uma opinião repetida muitas vezes, tornada popular, é legitimada e passado um tempo, fixa-se na tábua das verdades incontestes. Há algum tempo já que Chico Buarque goza do prestígio que lhe valeu a alcunha de unanimidade. É certo que há os que não corroboram com essa opinião e tão pouco desvalidam a unanimidade que é menos feita de unidade que de mítica. A popularidade de uma música se dá na medida em que acha resposta na cultura e na boca do povo. Falando a respeito da comentada "dificuldade" desse novo álbum, Chico diz já ter se desiludido de tocar no rádio. O que não atesta uma impopularidade ou nega a brasilidade dessa obra. Apenas revela uma mudança de público, ou melhor, uma mudança no modo de consumo da sua música; de forma alguma um desprestígio. Chico ainda vende, ainda encanta, ainda permanece um mito.

Essa série de DVD lançada recentemente, prevista inicialmente para quatro DVDs, cada um explorando uma face diferente do compositor, é um bom exemplo do que se disse. Uma quebra da reclusão de Chico, o homem tímido e distante, causou alvoroço e se estendeu para além do planejado, sucesso de vendas. Confesso, contudo, que participei da febre e também do espanto causado pelas constatações de humanidade em Chico, ele tem rugas, meu Deus, ele gagueja!

Ensaio algumas explicações para tanto prestígio. O que interessa para falar do Carioca: a composição de Chico transita num terreno seguro. A estrutura das letras, as rimas ricas, a métrica perfeita e a distribuição rítmica lógica (mesmo previsível) contesta isso. Também na temática Chico pouco ousa (um pouco mais que na estrutura da letra, talvez), mais colhe da tradição suas temáticas e lhes dá cara própria. Acontece que essa estrutura de conseqüente apelo popular somada à habilidade espantosa de Chico no ofício de compor causa um efeito mais rápido e duradouro num público de olhos arregalados. Claro que não falo só da técnica, há em oposição a essa - e em simbiose - uma humanidade de pulso quente. Poucos duvidam de seus méritos e dos poucos que conheci eram todos tolos.

Tudo isso pra dizer que vejo algumas mudanças substanciais nas canções do Carioca. Nada que espante, aliás, são mudanças tênues que só causam um leve incômodo a quem espera aquele deslumbramento de outro tempo, de outro Chico. Quando o cantor fala que espera que quem ouça o álbum, ouça-o repetidas vezes, em casa, ele mostra consciência de que esse trabalho é de digestão lenta e gradativa. Há nas letras das canções uma priorização da sonoridade, a letra como instrumento. O discurso, então, fica depois da assimilação dessa sonoridade sutilmente atravancada. Numa canção como Renata Maria o deslumbramento do eu-lírico é desenhado por imagens congeladas, contemplação; poesia. O resultado não deixa de causar estranhamento. No início desgostava dela, hoje é essa canção, para mim, o estandarte de toda ousadia contida do álbum.

Uma letra de forte apelo sonoro pode cativar sem a necessidade da compreensão do que se diz. Diferentemente, em cada faixa do Carioca as letras são exigentes; há quem desista; mas se colarmos os ouvidos e deixamos a canção agir o que se descortina são harmonias e melodias preciosas. Tudo é dificultado para ter o máximo de envolvimento.


Faixa-a-Faixa


1) Subúrbio

"Carrega a tua cruz e teus tambores"

O subúrbio carioca na voz de Chico é sem cor e musical. Sua graça e maravilha está na sua música (teus tambores); do outro lado, a pobreza, a miséria (tua cruz), à sombra do outro Rio "que abusa de ser maravilhoso".

2) Outros Sonhos

Essa canção é uma versão de uma canção popular em espanhol que Chico, quando criança, escutava do pai cantar. É ingênua até não poder mais. E usa disso para contrastar com a realidade social do país.

Quando fala em ladrões, drogas, polícia e em maconha na construção de um mundo ideal quase contagia com seu idealismo. Fala para as humanidades dos homens.

3) Ode aos Ratos

Desde o título a ironia é tanta que beira a crueldade. Faz-nos lembrar das canções O meu guri e Brejo da cruz que cantam outras faces de um mesmo personagem.

Muito se fala do rap desta faixa, que é, a rigor, uma embolada. Um elemento que cai muito bem na canção.

4) Dura na Queda

Da letra ao interlúdio, o arranjo e o tema, tudo converge para uma coloração ensolarada e irresponsável. A princípio se chamaria Ela desatinou n° 2. Mas, diferentemente da Ela desatinou n° 1 esta Dura na Queda mais que a história de uma mulher desatinada é um hino de alegria inconseqüente.

A água brota na minha boca sempre que os metais irrompem, dourados, na introdução e no interlúdio.

5) Porque Era Ela, Porque Era Eu

A mais lírica das canções do álbum.

6) As Atrizes

Uma homenagem às atrizes que na juventude do cantor o deslumbravam quando apareciam na tela; as francesinhas nuas.

7) Ela faz Cinema

Um repórter italiano iniciou uma discussão deveras interessante colocando a canção como um modo de música representativo do séc. XX, como a ópera foi no séc. XIX, e, portanto um gênero fadado à extinção. Chico diz, não sei bem com que tom, que talvez este álbum seja uma obra tardia em pleno séc. XXI.

Nesta canção exemplar Chico canta mais uma face feminina (das tantas que ele já cantou); a face das mil faces. Se precisasse, valeria todo o álbum.

8) Bolero Blues

É triste sem deixar de ser leve. É até engraçada, sem deixar de ser triste.

9) Renata Maria

A música é de Ivan Lins, o arranjo traz um teclado que lembra os anos oitenta e faz estremecer os bons-gostos. A levada da bateria é exasperante.

Chico, que como intérprete, nunca deixou de ser compositor, neste álbum, deixa o intérprete aflorar. Divide os tempos, ataza, entra antes, treme a voz de intenções. Comparem, se tiverem a oportunidade, como ele entoa "Renata Maria" no Carioca ao vivo e neste Carioca de estúdio.

10) Leve

Engraçado, o eu lírico da canção não assume gênero. Tem muita feminilidade e também uma inconseqüência quase grosseira, masculina. Essa canção caminha sem muitos obstáculos, leve.

11) Sempre

Considero das composições de Chico, (fora Ela faz cinema, que é uma exceção pra tudo), essa é a mais melódica.

12) Imagina

A letra foi feita em uma música de Tom composta ainda em seus tempos de estudante de piano. Chico a escreveu ainda jovem. O que é curioso, pois esta canção se enquadra perfeitamente na estética do álbum.

Mônica Salmaso empresta o sotaque paulista e os encantos de sua voz para o duo com Chico.


NOTA:

quinta-feira, maio 15

RESULTADO DA 1ª ENQUETE DO BLOG

- Ufa! Ganhei!


Na primeira enquete realizada pelo blog dos moedotecários Fundo do PoçoQual o melhor ator hollywoodiano da nova (não tão nova) geração até então? –, o 1º foi para um ator que – acabo de descobrir – é inglês! Mas não tem importância... Daniel Day-Lewis venceu, engolindo 37% dos votos. Provavelmente se essa enquete fosse feita a, digamos, três anos atrás, o londrino não receberia nem meia dúzia de votos. O fato d’ele ocupar o topo dessa lista se deve, basicamente, à sua soberba atuação ganhadora de oscar em There Will Be Blood (Sangue Negro), do talentoso diretor Paul Thomas Anderson. Afinal, não será tão cedo que esqueceremos as veias dilatadas e o bigode impecável de Daniel Plainview.

Em segundo lugar, empatados com 22% dos votos cada, ficaram Philip Seymour Hoffman e Sean Penn. O 1º primeiro fez memoráveis papéis em Capote (sendo a personagem-título) e Magnolia (outro de PTA!), dentre vários outros. O segundo, presidente do júri de Cannes este ano, atuou brilhantemente em filmes aquém de sua qualidade como Mystic River (Sobre Meninos e Lobos) e The Assassination of Richard Nixon (esqueci o nome desse filme aqui no Brasil), além de fazer dupla com Samantha Morton num filme de Woody Allen. Ah, sim: eles são estadunidenses.

Em terceiro lugar, também estadunidense (todo o resto é), com 11% dos votos, veio Edward Norton, um dos queridinhos dessa galera nova, ao lado de Johnny Depp, que eu só não pus na enquete para sacanear meu caro colega Davi (que admira o trabalho do dito cujo). Norton protagonizou grandes filmes como Fight Club (Clube da Luta), mas já fez palhaçadas como Red Dragon (Dragão Vermelho). Ainda – ainda – não ganhou Oscar.

Em quarto lugar, com 7%, Kevin Spacey, que nem deveria estar nesta lista, de tão velho na praça que já é. Mas isso também não tem importância. Ganhador do Oscar, Spacey protagonizou o belo e quase ordinário American Beauty (Beleza Americana), além de torcer artificialmente o pé para fazer o vilão do pipocaço The Usual Suspects (Os Suspeitos). Por sinal, apareceu em Se7en, de David Fincher, o mesmo diretor do já citado acima Fight Club.


Em último lugar, recebendo exatamente ZERO votos, ficou o coitado do Christian Bale, o novo Batman. Acho que o bonitão que de longe parece Tom Cruise não recebeu nenhum voto por ser pouco conhecido de nome, pois não devemos esquecer sua notável tentativa de salvar o muito menos notável The Machinist (O Maquinista) – quem assistiu o filme sabe do que eu estou falando. Recordemos também de Jack Rollins, um dos alter-egos de Bob Dylan vivido pelo ator no I’m Not There, que é a melhor atuação de todas (sim, melhor que a de Cate Blanchett). E, além do mais, sejamos francos: de todos os Batmans já feitos, o Begins é de longe o melhor. Como não recebeu nenhum voto, receberá pelo menos uma foto na postagem.

segunda-feira, maio 12

MAIO

Segundo fontes confiáveis, este blog está previsto para voltar à ativa no mês de maio do ano corrente.