quinta-feira, dezembro 18

FÉRIAS

O blog entra mais uma vez de férias.
(mas ainda respondemos a comentários).

quinta-feira, dezembro 11

A Última Casa de Ópio - NICK TOSHES (Conrad Editora, 93 pág.)


Pode ser lido como uma ficção. Para ser sincero, não escondo meu espanto, terminado o livro, ao me deparar com a catalogação que agora reproduzo:

“Índice para catálogo sistemático:
1. Ópio : Consumo : Problemas sociais 362.293”

Os números finais me são incompreensíveis, já a parte em texto não deixa margem à dúvida. O valor literário do livro existe, porém qualquer texto, de poesia às ciências, pode possuir valor literário sem que seja necessariamente ficção. À vezes é melhor ler uma boa bula, se é que tal coisa existe, ou um bom bilhete caseiro do que ter que enfrentar certos poemas ou contos. Porém o que me incomodava nesta classificação, mais do que a prosa “literária”, era a preocupação que transborda no narrador, que é assumidamente o próprio Toshes, de compor sua personalidade literária. O trecho que segue os ajudarão a entender melhor o que estou dizendo:

Eu nasci para fumar ópio, Não me entendam mal: sou contra as drogas, há muito tempo renunciei ao seu uso e abracei o caminho espiritual apontado por A Profecia Celestina e aquele cara com a testa grande e brilhosa. Drogas matam. Apesar disso, eu nasci para fumar ópio. Mais exatamente nasci para fumar ópio numa casa de ópio.”

Este senhor conservador e ponderado, no entanto atormentado por uma força maior que ele, não é coerente com o senhor que, para fumar ópio, poucas páginas adiante, pondera sobre os empecilhos das leis e do espírito, desvencilhando-se deles com a maior facilidade e ironia. Há também a justificativa ou desculpa de uma diabetes crônica, cujo ópio, segundo se diz, é um santo remédio. Ao espírito, o consentimento de um padre lhe basta. Às leis, igualmente: “Agora, se eu me encrencasse com a lei, poderia pôr a culpa no padre.”

Humphrey Bogart (esquerda) não tem nada haver com o livro nem com Toshes, mas diga se não são idênticos!

Rodrigo, prezado colega moedotecário, em seu mais recente post, lembrou-nos, a mim e aos senhores e senhoras, infortunado leitorado moedotecário, do peculiar narrador borgeano. O Borges real e o fictício convivem lado a lado em seus escritos, o real e a fantasia.

Numa conversa que travei há alguns anos, depois de ter citado o nome do escritor argentino, vi os olhos de meu interlocutor se contraírem e cheguei a me arrepender de tê-lo citado. O meu amigo estava indignado, pois há poucos dias antes de nos encontrarmos alguém lhe havia impiedosamente revelado que ele fora enganado. A referência bibliográfica que ele anotara com maior afinco de pesquisador era, toda ela, invenção do autor.
Cito o caso para mostrar que é comum essa confusão. Claro, se eu tivesse lido o catálogo antes de ler o livro não teria me confundido. Porém, me serviu de lembrete para os limites de classificações. Mais do que as classificações em si, a crença fiel nelas é perigosa. Devemos voltar ao livro, mas, como não me contenho, vá lá outro caso.

Um amigo contou-nos (o moedotecário Ederval Fernandes também se encontrava nesta ocasião) a saga de uma ida sua à biblioteca municipal de Feira de Santana. Ele estava em busca de um drama, não me lembro qual. Fez seu pedido às simpáticas funcionárias e sentou-se para esperar enquanto elas remexiam nas irritantes fichas de catálogo que ainda vigoram por lá, a despeito das conquistas da informática. Um tempo depois, a funcionária veio com a pesarosa notícia que aquele livro requisitado não estava disponível para empréstimo. Com ele perguntasse a causa, ouviu atônito (e nós, dois moedotecários calejados pela convivência em um pavoroso fundo de poço, também não contínhamos o espanto) a funcionária dizer que só emprestavam literatura e, como ele podia ver, o livro que ele queria era teatro. Ele teve que levá-las até as estantes e mostrar na capa a prova de sua afirmação. Lá estava impresso “Coleção Mestres da Literatura”. Sendo assim, liberaram o empréstimo.

Sim, sim. Voltemos ao nosso livro.

Ao longo das 93 páginas, são pontuadas algumas informação sobre o ópio, sua história, seus variados modos de consumo e uma modesta bibliografia é levantada. Claro está que o importante, por mais interessante que seja esse conhecimento, não está na pesquisa, mas sim no relato da busca do senhor Toshes por uma casa de ópio. Aqui entra em cena o estilo da escrita. Com a velocidade de suas linhas, já automaticamente associada à prosa estadunidense, o autor conduz os leitores através de seus relatos. O ópio, não é, bem dizendo, o ponto central da narrativa, senão com símbolo de uma antiga, muito antiga cultura portentosa do que ele chama “conhecimento verdadeiro”. O “falso conhecimento” tem sua representação máxima numa meia cebola de 25 dólares que lhe vendem em um restaurante da moda; ou nos “conhecedores” de vinho; ou nas drogas como a heroína e a anfetamina. Símbolos de uma era, de um mundo que o próprio Toshes pertence, mas que deseja evadir.

Por isso vai em busca da tal “casa de fumaça e flores” até os confins do oriente médio. E mesmo que não se acredite em uma palavra do que se diz sobre sua busca que atravessa lugares e pessoas grotescos, há ainda o viés literário do livrinho. Não nego que é uma leitura agradável
.


NOTA:

domingo, dezembro 7

Prestação de contas

Tempos de juventude: Astrud e João Gilberto nas míticas areias de Ipanema

Ao escrever aqui sobre o meu ligeiro afastamento do blog, prometi que publicaria um extenso especial sobre o João agora em dezembro, não foi? Bom, não deu. Minhas obrigações de vestibulando, concursando e pseudo-jornalista não me permitiram dedicar atenção suficiente ao mestre, e como também nos últimos tempos, admito, fui deixando de ouvi-lo com a freqüência que lhe é imperativa, decidi adiar o projeto para fevereiro, quem sabe, quando toda esta circunstância mais pragmática de estudar química, física, arquivologia e leis como a 6.677 do estatuto do servidor público terá chegado a um final feliz. Não fiquem bravos comigo.

quarta-feira, dezembro 3

Paris não tem fim - ENRIQUE VILA-MATAS (COSACNAIFY, 248 pág.)


Daniel, companheiro de infortúnio moedotecário, costuma proclamar Philip Roth como aquele que, entre os autores vivos, melhor sabe dar início aos seus romances. Perfeitamente compreensível - mas peço licença, no momento, para citar longamente a Enrique Vila-Matas em suas introduções.


De Bartleby & companhia:

"Nunca tive sorte com as mulheres, suporto com resignação uma penosa corcunda, meus parentes mais próximos estão todos mortos, sou um pobre solitário que trabalha em um escritório pavoroso. De resto, sou feliz."


E, mais demorado, de Paris não tem fim:


"Fui a Key West, Flórida, e me inscrevi na edição deste ano do tradicional concurso de sósias do escritor Ernest Hemingway. A competição aconteceu no Sloppy Joe's, o bar favorito do escritor quando vivia em Cayo Hueso, no extremo sul da Flórida. Não é necessário dizer que participar desse concurso - repleto de homens robustos, de meia-idade e com vasta barba grisalha, todos idênticos a Hemingway, idênticos inclusive em seu aspecto mais estúpido - é uma experiência única.

Há não sei quantos anos venho bebendo e engordando e acreditando - contra a opinião de minha mulher e de meus amigos - que cada vez mais me pareço fisicamente com meu ídolo de juventude, com Hemingway. Como ninguém nunca me deu razão nisso e tenho um caráter muito forte, quis dar uma lição a todos e, provido de uma barba postiça - que achei que melhoraria minha semelhança com Hemingway -, me apresentei ao concurso neste verão.

Devo dizer que passei por um vexame espantoso. É que fui a Key West, concorri e fiquei em último ou, melhor dizendo, fui desclassificado, e o pior de tudo é que não me afastaram da competição porque descobriram a barba postiça - pois não a descobriram -, e sim por minha 'absoluta falta de semelhança física com Hemingway'"


Como este é um ambiente amigável e pacífico, posso confirmar que, ao ler os romances citados, demorei-me nesses trechos iniciais. É que eu ria sem parar. Por situação semelhante eu já havia passado em alguns poucos livros: todos de Machado, alguns de Eça, outros que não me recordo. Devo explicar que não me proponho a comparar o autor catalão com Machado ou Eça? Talvez. Pois, muito embora se iniciem tão bem, os livros citados não se sustentam dessa forma por longo tempo. Trata-se, sem dúvida, de um risco compreensível e aceitável - a obra de Vila-Matas é experimental e, ao que parece, encontra-se ainda em desenvolvimento. De Bartleby & companhia a Paris não tem fim, por exemplo, há uma tremenda evolução.


Os dois se erguem de um gênero híbrido - qualquer coisa entre o romance, as memórias, os diários e, sobretudo, o ensaio. Portanto, seus temas são literários, seus personagens são eruditos e sua obra, por fim, parece destinada apenas aos iniciados. Não acredito, porém, que o hermetismo seja um critério válido para valorar qualquer obra - trata-se, sem dúvidas, de algo a ser considerado numa análise, mas não é, em si mesmo, um aspecto que a condene ou a eleve. Até porque, ao fim, Vila-Matas nunca flerta com o incompreensível ou com a esterilidade do que é meramente livresco.


O narrador de Paris não tem fim é um experiente escritor catalão. Que faz uma conferência sobre sua juventude em Paris. Que escolhe a ironia como viés e método analítico dessa juventude. E que, nessa revisão memorialística, refere-se a inúmeros pontos em comum com a biografia de Vila-Matas: endereço, relações, leituras e o título de suas primeiras obras - A assassina ilustrada, de 1977. A narrativa, ao que parece, deveria se concentrar na elaboração desse romance de juventude, mas não é o que ocorre. Talvez porque o narrador estivesse mais preocupado em parecer um escritor, em encaixar-se em certos grupos intelectuais e políticos e em acentuar seu aparente desespero diante da existência do que em escrever sua obra.


Assim que Paris não tem fim parece dividir-se. Por um lado, busca-se as impressões e experiências juvenis - tolas e ingênuas, revisitadas por um adulto irônico e bem-sucedido. Por outro, não muito distante, o trabalho metaliterário, o trabalho de um leitor e escritor fiel a Jorge Luis Borges. O contista portenho se apresenta física e espiritualmente: em meados dos anos 70, o então jovem narrador toma conhecimento de sua obra e assiste uma palestra secreta dada pelo novo ídolo. Vai compreendendo, então, o valor daquilo que, numa obra literária, é puramente imaginação; aquilo que é até mesmo falso: a invenção que diminui o valor da escrita que sai da experiência vivida, a escrita da qual Hemingway sempre foi símbolo. A proposta do romance já é essencialmente borgiana: narrador e autor se confundem, fatos e falácias biográficas coexistem, citações e referências inundam as páginas - o insólito também existe e também é aceito.



A reflexão literária, tema principal na obra de Vila-Matas (e aqui me vejo querendo citar autores centrais na literatura de língua castelhana neste começo de século - seja Bolaño ou Fresán) confunde-se, obviamente, com reflexões mais genéricas - daí que sua inconsistência ao escrever o primeiro livro resulta num símbolo que qualquer um pode transpor para qualquer outra situação de imaturidade e busca de um norte; daí que sua preferência (quase necessidade) pela vida no exílio encena uma escritura que se cria diante de uma indefinição identitária. Por isso, afinal, sua relação com a Espanha, enquanto vive em Paris, soa farsesca: enquanto os compatriotas sofrem sob a ditadura franquista, ele permanece numa estranha espécie de alienação (toma posições políticas apenas por obrigação, utilizando-se de critérios absurdos), muito embora comemore imensamente a morte de Franco.


Seus capítulos, assim como ocorre em Bartleby & companhia, costumam encerrar-se em narrativas quase autônomas (com as devidas exceções) - e é bem claro o desnível que há entre alguns deles. Entre os mais bem-acabados, destacam-se o registro de suas impressões de personalidades como Julio Ramón Ribeyro e Marguerite Duras. E, assim como pedi licença para iniciar com citações, aviso que terminarei da mesma forma, trazendo um dos trechos mais surpreendentes de Paris não tem fim - trecho que, acredito, demonstra bem o poder que a literatura (ou, mais ainda, a figura do escritor) tem para o autor e, em certa medida, deve ter também para o leitor. O narrador, em certa caminhada, vê Samuel Beckett:


"Nunca previra que pudesse encontrá-lo. Sabia que não era um clássico morto, mas alguém que vivia em Paris, mas sempre o imaginara como uma presença escura que sobrevoava a cidade, nunca como alguém que uma pessoa encontrasse desesperado, lendo um jornal num velho parque frio e solitário. De vez em quando virava a página, e o fazia com uma espécie de raiva tão grande e uma energia tão intensa que não estranharíamos nada se o Jardin du Luxembourg tremesse inteiro. Ao chegar à última páginas, ficou entre absorto e ausente. Dava mais medo que antes."


A idealização anterior à visão de Beckett não se estilhaça diante da realidade - ao contrário: o que antes era uma sombra escura cobrindo Paris torna-se um homem desesperado que faz tremer a terra. Entranhando os autores à cidade (seja Hemingway, Beckett ou Duras), Vila-Matas tenta esclarecer a relação que, em seu imaginário, existe entre as duas entidades - daí que não é possível, em sua arte, tratar de uma sem tocar na outra.


NOTA: