quarta-feira, abril 22

O homem-urso (Grizzly Man, EUA, 2005)


Todos sabem que Werner Herzog sempre quis deixar claro suas preferências pelo bizarro, pelo esquisito e pelas obsessões do homem. Só não sei se ele faz questão de demonstrar sua condição de artista alemão, muito embora esta seja notavelmente explícita: Herzog é romântico como Goethe, é grandioso como Wagner (inclusive já adaptou óperas deste) e dialoga com a leitura da demência e do grotesco da literatura alemã de seu século, que é o XX: Thomas Mann, Günter Grass. Lhe parecem inesgotáveis as sua fontes de inspiração conhecidas como a “infinita pequenez do homem” e a “infinita instabilidade da alma humana”. Uma vez, Herzog afirmou: “eu sou o que são meus filmes”. Não sei se é possível acreditar nesta sentença. Contudo, se ela é verdadeira, deveremos em conseqüência considerar válida a suposição de que o maior cineasta alemão vivo se identificou com um sujeito muito singular chamado Timothy Treadwell.

Na minha opinião, Timothy Treadwell é um tremendo pateta, uma criança esticada, um maluco de voz esganiçada e insuportável que fala como um papagaio e que não tem o menor bom senso em relação às coisas da vida. Ele possui todos os atributos que costumo encontrar nos chatos. É um idiota. Beira ao retardamento mental. E então Werner Herzog o transforma num grande homem, num ser humano de alma nobre, profunda, corajosa, numa pessoa apaixonada, digna, lendária, num semi-deus. Mas Herzog não inventou nenhuma informação; não distorceu nenhum fato; não utilizou nenhum efeito especial; como, pois, ele conseguiu?

O Homem-urso é um documentário que conta a história de Timothy Treadwell, um ambientalista louco por ursos-pardos (considerados um dos animais mais perigosos da face da Terra) que resolve viver entre eles por vários anos, lá pelas bandas do Alasca, para poder protegê-los e estudá-los melhor. Timothy carrega consigo uma câmera e registra vários momentos de sua expedição bizarra. Timothy se considera um “guerreiro amável”, aquele que vai afastar os “pobres” ursos das garras dos homens cruéis; passa anos e anos se aproximando cada vez mais dos ursos; nomeia cada um deles, acompanha a formação de suas famílias, acaricia os menores. Mas, um belo dia, um urso ataca Timothy; ele estava com sua namorada; os dois são despedaçados; morrem.



Com 100 horas de filmagem em mãos, Herzog parte para produzir o seu documentário e tentar compreender a mente desse sujeito excepcional. Não se verão abordagens sócio-ecológicas e científicas; o filme é uma discussão acerca do homem e da natureza. Ao contrário do que se espera, não veremos imagens de nobreza de Timothy, atos de bravura ou cenas de ação e fuga; a nobreza e a bravura desse personagem se encontram apenas no seu ideal gigantesco e sonhador. E, indo também de encontro ao convencional, Herzog opta por intercalar cenas vulgares com outras em que Timothy declara sua paixão aos animais – e todas se tornam comoventes. É comovente ver Timothy repetindo trinta vezes “I Love you” para uma raposa ou um urso; é comovente ver Timothy brincando de filmar uma cena de ação; é comovente ver Timothy dizendo que deveria ser gay já que tem tantos problemas com as mulheres; é comovente ver Timothy mandando todos os que querem lhe prejudicar se f... por três ou quatro minutos ininterruptos. Tudo isso é comovente, mas por quê?

O Homem-urso é um documentário feito por um artista profissional. O filme, de tão profético, chega a ser desconfiável (cenas parecem ensaiadas). O grande segredo de todo o impacto que o filme causa se deve apenas ao fato do ecologista mais maníaco da história ter sido morto por seus tão adorados animais. Se Timothy fosse ainda vivo, suas filmagens estariam na melhor das hipóteses num documentário tendencioso e maniqueísta da BBC. Mas a morte de Tim, cinematograficamente falando, foi bem oportuna; para se ter uma idéia da sensação sufocante que o filme causa, há uma cena que foi filmada momentos antes da morte de Timothy: está chovendo, a água está molhando a câmera e está impedindo o plano de ser filmado; a imagem está morrendo – é Timothy Treadwell, enfim, que está morrendo.

Vou chamar Herzog de um bom oportunista, mas sem querer ofender – o marmanjo, afinal, quase sempre sabe o que faz. O que mais me fascina no documentário e ao mesmo tempo a minha maior dúvida é a forma inexplicável como o diretor engrandece um indivíduo como Timothy. Quando Tim e a sua namorada morreram, a câmera estava ligada; a lente foi coberta por um casaco e não filmou a tragédia, mas o áudio foi gravado. Gritos de Amie (a namorada), Timothy se debatendo, muitos ruídos. O espectador chega a escutar tal gravação? Não; Herzog resolve não só não mostrar essa fita como aproveita para filmar ele mesmo ouvindo-a, ficando horrorizado e em seguida aconselhando a amiga de Tim (que herdou todos os seus pertences) a jamais voltar a ouvir aquilo e também a destruí-lo completamente. Isso, a depender do contexto, pode se chamar golpe de mestre ou picaretagem – e é o espectador quem decide.

Mudança

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